Uma antropóloga mergulha no universo oculto da “bomba”: uso de esteróides e drogas de performance

Por mais de cinco anos, Mair Underwood, uma antropóloga da Universidade de Queensland, na Austrália, se aventurou nos confins da internet e das comunidades de musculação para investigar o mundo subterrâneo da “broscience” — um sistema de conhecimento empírico e não oficial sobre o uso de drogas para melhora de desempenho. Sua pesquisa revelou uma mistura fascinante de experiências pessoais e falta de rigor científico, oferecendo insights surpreendentes sobre um fenômeno global e seus riscos ocultos.
O que é a broscience e de onde veio?
Nos anos 1940, quando os fisiculturistas começaram a experimentar testosterona para melhorar seu desempenho, não havia estudos científicos para guiá-los. Tudo se baseava em tentativa e erro, com conselhos passando de geração em geração. Esse conjunto de práticas deu origem ao que hoje é chamado de broscience.
A chegada da internet revolucionou esse processo. Fóruns online e redes sociais permitiram que entusiastas compartilhassem experiências, debatessem sobre esteroides e até interpretassem estudos científicos. Contudo, muitas dessas interpretações extrapolam os limites do conhecimento científico, como usar dados de estudos em animais para justificar práticas humanas.
Como explica um dos participantes da pesquisa, “a broscience é o melhor que temos em uma situação ruim. Muitos desses medicamentos nem sequer foram estudados em pessoas jovens e saudáveis.”
Influenciadores e a validação pelo corpo
Nesse universo, os corpos musculosos de influenciadores são a “prova” mais importante de credibilidade. A frase “Cara, você ao menos treina?” virou um meme que exemplifica essa mentalidade. Se você é grande e definido, seu conselho automaticamente ganha peso.
No entanto, Underwood aponta que esse sistema tem um lado perigoso. Muitos influenciadores e “coaches” de anabolizantes exageram suas competências, colocando vidas em risco ao recomendar dosagens excessivas ou combinações de substâncias sem comprovação científica.
Os perigos normalizados pela broscience
Entre os usuários de esteroides, efeitos colaterais graves — como danos permanentes ao fígado, ataques cardíacos ou infertilidade — muitas vezes são tratados com descaso. Problemas como redução na produção de testosterona são aceitos como parte do “pacote” e compensados com terapias de reposição hormonal.
Alguns exemplos são particularmente alarmantes. Por exemplo, doses excessivas de insulina, que podem ser mortais, são promovidas por certos influenciadores. Medicamentos como Dianabol e Anadrol, conhecidos por causar danos severos ao fígado, são amplamente usados com base em protocolos de broscience. Além disso, a obtenção de substâncias de laboratórios clandestinos muitas vezes resulta em produtos contaminados ou ineficazes, levando a infecções graves.
Adolescentes são especialmente vulneráveis. Jason Nagata, da Universidade da Califórnia em San Francisco, alerta que o uso de esteroides pode interromper o desenvolvimento normal, causando prejuízos duradouros à saúde como interromper o crescimento.
Um caminho para a colaboração
Mair Underwood acredita que o embate entre a broscience e a ciência tradicional não é produtivo. Em vez de rejeitar a broscience, cientistas poderiam colaborar com esses grupos para reduzir os riscos. Muitos fisiculturistas já realizam experimentos detalhados e monitoram seus resultados. Com orientação adequada, essas práticas poderiam fornecer dados valiosos para a pesquisa acadêmica.
Uma solução seria transformar fisiculturistas em “cientistas cidadãos”. Além disso, cientistas poderiam ajudar a corrigir interpretações equivocadas da broscience, aproveitando os aspectos úteis dessa prática para melhorar a segurança de quem usa drogas de melhora de desempenho.
Underwood enfatiza que unir esforços pode salvar vidas. Afinal, enquanto a broscience persistir, ela continuará moldando o comportamento de milhões de pessoas. A chave é transformar essa dinâmica em algo menos arriscado e mais informado.
O estudo foi publicado na revista cietífica Performance Enhancement & Health.
