Cientistas descobrem forma bizarra de água que é sólida e líquida ao mesmo tempo

Por , em 17.01.2026

Uma bússola levada para Urano ou Netuno provavelmente não apontaria para um “norte” que faça sentido para quem está acostumado com a Terra. Os campos magnéticos desses planetas são inclinados e deslocados do centro, e isso sugere que o “motor” que gera magnetismo lá dentro pode funcionar em uma região e com um material bem diferentes do nosso.

A pista mais convincente envolve um estado extremo da água: o gelo superiônico, em que os oxigênios formam uma rede sólida enquanto os hidrogênios se movimentam com facilidade, como se o sólido fosse uma malha e o líquido corresse por dentro dela. Um estudo liderado por L. Andriambariarijaona e A. Ravasio (École Polytechnique), com M. G. Stevenson e D. Kraus (Universität Rostock), apresentou as medições mais claras até agora dessa fase em laboratório, em condições próximas às do interior de planetas gigantes de gelo.

Os resultados saíram em Nature Communications () e resolvem um problema que estava “empatado” havia anos: experimentos anteriores viam estruturas cristalinas diferentes em condições parecidas. A conclusão nova não e que um lado estava certo e o outro errado; é que a água, nessas condições, pode misturar arranjos e ainda assim ser um estado físico legítimo.

Por que o campo magnético de Urano e Netuno parece desalinhado

Quando a sonda Voyager 2 passou por Urano, as análises mostraram uma inclinação enorme do dipolo magnético: cerca de 58,6° em relação ao eixo de rotação, além de um deslocamento do dipolo de aproximadamente 0,3 “raios de Urano” em relação ao centro do planeta.

Em Netuno, a história é semelhante: o campo também é bem inclinado (cerca de 47°) e o dipolo aparece deslocado em torno de 0,55 raios planetários. Em vez de um ímã “bem centrado”, é como se a fonte principal do campo estivesse fora do lugar esperado, o que muda o desenho do magnetismo ao redor do planeta.

Para entender isso sem entrar em equações, pense no magnetismo planetário como um efeito colateral de correntes elétricas geradas por materiais condutores em movimento. Se a camada condutora for fina, deslocada ou “quebrada” em regiões com propriedades diferentes, o campo resultante pode ficar inclinado, irregular e até multipolar, sem precisar de nenhuma magia.

O que é gelo superiônico e por que ele parece meio sólido, meio líquido

No gelo superiônico, os átomos de oxigênio ficam relativamente “travados” numa rede cristalina, enquanto os hidrogênios (na forma de íons) ganham mobilidade e atravessam essa rede. Isso dá ao material uma combinação incomum: estrutura de sólido, transporte de carga lembrando um líquido condutor. Imagine um prédio com pilares fixos e corredores internos cheios de gente andando rápido. A forma do prédio não muda, mas há fluxo lá dentro. É esse fluxo de cargas que importa para a física planetária, porque ele ajuda a sustentar correntes elétricas e, com elas, campos magnéticos.

O detalhe novo do estudo é que essa rede de oxigênios não precisa ser “perfeitinha” para funcionar. Em certas faixas de pressão e temperatura, a estrutura pode combinar dois empacotamentos cristalinos próximos em energia, criando uma desordem de empilhamento que não destrói o estado superiônico, mas pode mudar como calor e eletricidade atravessam o material. Isso ajuda a ligar o comportamento microscópico à bagunça macroscópica observada nos planetas.

Como o laboratório chegou às condições de um gigante de gelo

Para chegar perto do interior desses mundos, a equipe usou compressão por choques múltiplos: camadas finas de água foram confinadas entre janelas de diamante e comprimidas em etapas, em vez de sofrer uma pancada única. Cada etapa empurra o material para um regime mais extremo e ajuda a controlar melhor o caminho até o estado superiônico.

As condições atingidas foram aproximadamente 180 gigapascais e temperaturas por volta de 2.500 K, algo como 1,8 milhão de vezes a pressão atmosférica da Terra ao nível do mar. Traduzindo para o mundo real: é a diferença entre apertar uma esponja e compactar um material até ele se comportar como outra substância totalmente diferente.

O “pulo do gato” foi medir rápido: pulsos de raios X ultracurtos, na escala de dezenas de femtossegundos, registraram padrões de difração antes que a estrutura tivesse tempo de se reorganizar. A infraestrutura por trás disso não é barata; um documento do DOE estima o custo total do projeto LCLS em US$ 315 milhões (cerca de R$ 1,70 bilhão)

A desordem que resolveu uma briga de laboratório

Uma fonte de confusão antiga era que alguns grupos reportavam uma estrutura, enquanto outros viam outra, em condições parecidas. O novo trabalho sugere que, abaixo de cerca de 120 gigapascais, podem coexistir padrões diferentes, e isso pode produzir “assinaturas” misturadas nos dados.

Acima de cerca de 150 gigapascais, o material passa a ser dominado por um empacotamento do tipo “close-packed”, mas com uma fração relevante de camadas empilhando de outro jeito. Em termos simples: a rede é majoritariamente de um tipo, mas com “placas” internas que não seguem sempre a mesma regra, e isso basta para explicar por que medições anteriores pareciam se contradizer.

Esse cenário também aparece em simulações modernas que combinam física quântica e modelos acelerados por aprendizado de máquina, que reproduzem padrões de desordem muito próximos do experimento. O ponto importante não é o jargão: é a ideia de que o material real, sob pressão, pode escolher uma solução “meio-termo” estável porque duas estruturas têm energias quase iguais.

O que ainda falta mapear no diagrama de fases da água

A água parece simples no copo, mas o catálogo de gelos já é grande: hoje há mais de vinte fases cristalinas descritas em condições variadas, além de formas amorfas. Essa diversidade ajuda a explicar por que, em ambientes extremos, H2O não se comporta como “gelo comum”, nem como “agua comum”.

O mais prático, para a ciência planetária, é que cada fase pode ter condutividade, viscosidade e transporte de calor diferentes. Isso mexe diretamente com modelos de interior planetário: onde a convecção acontece, como o calor sobe, e em que camada as correntes elétricas conseguem se organizar para sustentar um campo magnético.

Ainda há muito a testar: outras faixas de temperatura, tempos de observação maiores e pressões mais altas podem revelar transições adicionais, ou estados intermediários. E é aqui que entra a parte que conecta o laboratório ao céu: se Urano e Netuno têm grandes reservatórios desse material, pequenas mudanças de estrutura podem ajudar a explicar por que Netuno e seu “irmão” azul-esverdeado não obedecem o padrão magnético que a gente esperaria de um planeta “bem comportado”.

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