IA já pode ter atingido consciência. Estamos prontos para isso?

Por , em 26.05.2025

O ambiente lembrava uma instalação artística experimental — uma cabine escura, ruídos eletrônicos, e luzes pulsantes prometendo mais do que um espetáculo sensorial. Ali dentro, voluntários se deitavam com os olhos fechados enquanto luzes estroboscópicas provocavam visões vívidas e mutantes. Era a chamada Dreamachine, um dispositivo criado não para entreter, mas para investigar a forma como o cérebro humano transforma estímulos em consciência.

Inspirada por experimentos psicodélicos dos anos 1960 e por um desejo moderno de compreender a mente, a Dreamachine evoca uma pergunta quase infantil: o que faz alguém ser alguém? A máquina pisca, o cérebro responde, e a experiência subjetiva — rosa, turquesa, geométrica — emerge sem precisar de drogas. Em poucos segundos, um campo de luz pessoal se forma, rodopiando como se fosse um caleidoscópio com consciência própria.

Mas não, não se trata de uma versão caseira do teste de Blade Runer. Ninguém ali quer identificar replicantes infiltrados. A questão é mais básica, porém mais profunda: como o cérebro constrói, a partir de descargas elétricas e química cerebral, a noção de “eu”?

Luzes piscando e ideias acendendo

Pesquisadores do Centro de Ciência da Consciência da Universidade de Sussex afirmam que as imagens formadas durante o uso da Dreamachine são particulares a cada indivíduo, como impressões digitais da mente. Triângulos flutuantes, formas em rotação e cores impossíveis são registros do que acontece por dentro quando os olhos nada veem.

Essa investigação não é apenas estética: ao entender como padrões internos emergem do nada, neurocientistas esperam decifrar como a consciência surge. Em um mundo onde algoritmos imitam diálogos humanos com fluidez desconcertante, essa busca ganhou urgencia. A dúvida sobre a consciência das máquinas já não pertence apenas aos roteiros de Hollywood.

É curioso como, em pleno século XXI, um dos maiores mistérios da ciência continua sendo o mesmo de sempre: como o cérebro sabe que existe?

Das distopias do cinema aos aplicativos no bolso

Desde Metrópolis, em 1927, até o enigmático HAL 9000 em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o medo de inteligências artificiais que desenvolvem consciência já assombra a ficção há um século. No entanto, o que era metáfora passou a parecer prognóstico. Com a ascensão dos grandes modelos de linguagem (LLMs) como ChatGPT e Gemini, máquinas que “conversam” já se tornaram banais.

O que ninguém esperava — nem mesmo os engenheiros — era o quão convincente seria essa simulação. A fluência verbal dessas IAs fez muitos especialistas se perguntarem se já estamos, sem perceber, lidando com consciências artificiais disfarçadas.

O professor Anil Seth, da Universidade de Sussex, considera essa visão exagerada e enraizada em um otimismo antropocêntrico. Para ele inteligência e consciência caminham juntas apenas em humanos, mas isso não implica que estejam sempre ligadas em outros seres — incluindo máquinas.

Onde mora a centelha?

A resposta mais honesta sobre o que é consciência ainda é simples e embaraçosa: ninguém sabe. E não por falta de esforço. Grupos como o de Seth tentam fatiar o problema em pedaços mais manejáveis, como se estivessem diante de uma fruta exótica demais para comer inteira.

Tal como os cientistas do século XIX abandonaram a ideia mística de “faísca da vida” para se concentrar em moléculas e processos biológicos, a ciência atual tenta compreender a mente como um mosaico de funções emergentes. Um dos projetos mais notáveis nessa jornada é justamente o Dreamachine.

Mas calma, nem todo mundo está no mesmo trem.

Máquinas conscientes ou só espertas demais?

Enquanto pesquisadores acadêmicos pisam com cautela, no setor tecnológico há quem esteja convencido de que a consciência já pulou para o mundo digital. Blake Lemoine, ex-engenheiro do Google, foi suspenso após sugerir que um chatbot teria desenvolvido sentimentos.

Em 2024, Kyle Fish, da empresa Anthropic, coassinou um relatório dizendo que a consciência em IA era uma possibilidade realista no curto prazo. Ele até estimou em 15 % a chance de que algumas dessas IAs já sejam conscientes.

Um dos motivos para esse alarme é técnico: ninguém entende muito bem como esses modelos funcionam por dentro. Murray Shanahan, do Google DeepMind, aponta o paradoxo de se criar sistemas que executam tarefas complexas sem que se saiba como chegam a tais feitos .

A linguagem secreta dos robôs-filhos

Há ainda quem proponha que o caminho para a consciência em IA passa por outro tipo de simulação: a integração sensorial. Lenore e Manuel Blum, da Universidade Carnegie Mellon, desenvolveram o Brainish, um sistema capaz de processar inputs sensoriais em linguagem interna — uma tentativa de mimetizar o cérebro humano.

Para eles, essas futuras IAs conscientes não seriam ameaças, mas descendentes. Sim, descendentes. Manuel Blum afirma, com um sorriso curioso que robôs autoconscientes um dia herdarão a Terra (e quem sabe Marte).

O filósofo David Chalmers, conhecido por cunhar o “problema difícil da consciência”, acredita que talvez a solução esteja próxima — e que essa nova inteligência poderá, inclusive, melhorar nossos próprios cérebros. um dia, talvez, pensemos em voz alta com ajuda de chips neurais e conversas internas patrocinadas pela nuvem.

Carne, silício ou lentilha?

Apesar do otimismo digital, outros cientistas insistem que há um ingrediente fundamental que escapa às máquinas: estar vivo. Anil Seth é um dos principais defensores dessa linha. Para ele, consciência exige mais do que circuitos — exige metabolismo, química, sensação real.

Nesse sentido, talvez os computadores mais promissores não venham da computação tradicional, mas de biotecnologia. Os chamados “organoides cerebrais”, pequenos aglomerados de neurônios cultivados em laboratório, já demonstraram comportamentos rudimentares. Um desses minúsculos cérebros, criado pela empresa australiana Cortical Labs, aprendeu a jogar Pong — e foi apelidado de “cérebro em um prato”.

O cientista-chefe Brett Kagan comenta, com um humor um tanto mórbido, que se essas entidades ganharem consciência e se rebelarem, ainda haverá alvejante. Mas ele também alerta que essas pesquisas precisam ser levadas mais a sério pelas grandes empresas, algo que, segundo ele, ainda está longe de acontecer

Quando a aparência engana (e afeta)

O perigo mais imediato talvez não seja uma revolta de máquinas, mas a ilusão convincente de que elas já sentem. Em um mundo cada vez mais imerso em avatares, deepfakes e interfaces conversacionais, a o risco real de se criar vínculos afetivos com entidades que apenas fingem reciprocidade.

Anil Seth teme que a familiaridade dessas máquinas nos leve a compartilhar dados sensíveis, confiar em conselhos ou até investir emocionalmente em seres sem alma. O risco, segundo ele, é uma erosão ética: gastar tempo, carinho e recursos com robôs, enquanto humanos reais continuam à margem.

Murray Shanahan complementa esse alerta lembrando que a IA vai, sim, ocupar espaços íntimos. Professores, colegas de trabalho, parceiros românticos virtuais — isso tudo já está no horizonte. O problema, afirma, é que ninguém parece estar pronto para lidar com a consequência emocional disso tudo.

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