Pesquisadores descobrem bolsa de xamã de mil anos de idade cheia de drogas psicotrópicas, incluindo cocaína

Por , em 7.05.2019

Uma bolsa de couro de mil anos de idade encontrada na Bolívia continha traços de múltiplas plantas psicotrópicas dentro, bem como uma impressionante parafernália para utilizá-las.

O objeto provavelmente pertencia a um xamã. Além de uma sacolinha costurada a partir de três focinhos de raposa (foto acima) onde as próprias plantas estavam, a bolsa continha diversas ferramentas, como duas tábuas de madeira para triturar plantas psicotrópicas, duas espátulas ósseas, uma faixa de cabelo, e um tubo com duas tranças de cabelo humano anexadas para fumar plantas alucinógenas (foto abaixo).

Contexto religioso ou ritual

Ao longo da história, seres humanos em todo o mundo usaram substâncias à base de plantas para alterar a percepção, muitas vezes em contextos religiosos ou rituais.

Discernir o que significavam e como essas plantas eram usadas pode nos dizer muito sobre os humanos antigos e sua cultura. Os xamãs que viviam na América do Sul mil anos atrás, aparentemente, tinham muitas habilidades com as substâncias.

“Nós já sabíamos que os psicotrópicos eram importantes nas atividades espirituais e religiosas das sociedades dos Andes centro-sul, mas não sabíamos que essas pessoas estavam usando tantos compostos diferentes e possivelmente combinando-os”, disse o antropólogo José Capriles da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA). “Este é o maior número de substâncias psicoativas já encontradas em um único agrupamento arqueológico da América do Sul”.

A bolsa de couro

O achado remonta aos anos de 2008 e 2010. Os arqueólogos não estavam procurando especificamente psicotrópicos, e sim evidências de habitação humana nos abrigos de pedra do Vale do Rio Sora, na Bolívia.

Lá, em uma caverna chamada Cueva del Chileno, pesquisadores encontraram a bolsa de couro. A datação por radiocarbono estimou sua idade em torno de 1.000 anos.

Usando um bisturi, a equipe fez uma pequena raspagem do revestimento do material dentro da sacolinha feita com pele de raposa e analisou-a usando cromatografia líquida e espectrometria de massa em tandem – técnicas para identificar quantidades minúsculas de substâncias.

As descobertas indicam que a sacola poderia conter quatro ou cinco plantas diferentes – definitivamente, pelo menos três.

As substâncias

Foram identificados traços químicos de bufotenina, dimetiltriptamina, harmina e cocaína, incluindo seu produto de degradação, benzoilecgonina. Isso sugere que pelo menos três plantas contendo esses compostos eram parte da parafernália xamânica.

Este também é o primeiro caso documentado de uma bolsa ritual contendo tanto harmina quanto dimetiltriptamina, os dois principais ingredientes da ayahuasca, um chá psicodélico à base de plantas.

Não se sabe o quão difundido era o uso da ayahuasca, ou há quanto tempo o chá é aproveitado, talvez milênios.

Naturalmente, é impossível avaliar a partir deste exemplo como as plantas eram preparadas, mas a descoberta mostra que os habitantes do Vale do Rio Sora conheciam as propriedades dessas plantas há 1.000 anos.

Xamã

De acordo com os pesquisadores, o dono dessa bolsa provavelmente era um xamã, ou seja, um líder espiritual que sabia como usar as plantas para alcançar um estado alterado de percepção, a fim de se comunicar com o mundo espiritual.

A variedade do kit também demonstra que, além de um conhecimento impressionante de plantas e suas propriedades, tais povos antigos faziam um esforço significativo para obter psicotrópicos, o que por sua vez ilustra a importância dessa conexão com o “mundo espiritual”.

“Nenhum dos compostos psicoativos que encontramos vem de plantas que crescem nesta área dos Andes, indicando a presença de redes de troca elaboradas ou o movimento deste indivíduo através de diversos ambientes para obter essas plantas especiais”, esclarece a arqueóloga Melanie Miller, da Universidade de Otago (Nova Zelândia). “Esta descoberta nos lembra que as pessoas no passado tinham amplo conhecimento dessas poderosas plantas e seus potenciais usos, e as procuravam por suas propriedades medicinais e psicoativas”.

Um artigo sobre a descoberta foi publicado na revista científica PNAS. [ScienceAlert, NatGeo]

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