Espécie invasora de coral demonstra incrível capacidade de regeneração no Brasil

Por , em 7.06.2018

Corais do gênero Tubastraea, considerados invasores biológicos, estão se espalhando rapidamente pelas costas rochosas e falésias de ilhas brasileiras.

Detectados pela primeira vez no Sudeste brasileiro no final dos anos 1980, quando a prospecção de petróleo e gás começou na Bacia de Campos, no litoral do Rio de Janeiro, desde então os corais já foram encontrados em mais de 3.000 km do litoral brasileiro, de Santa Catarina, no Sul, ao Ceará, no Nordeste.

O gênero Tubastraea compreende sete espécies, todas nativas das águas tropicais do Oceano Índico e Pacífico. Apenas duas espécies – T. coccinea e T. tagusensis – são invasoras e também encontradas no Atlântico.

“A ação de gestão ainda é possível em alguns lugares, mas isso requer a remoção manual completa de todas as colônias”, disse Marcelo Kitahara, professor do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que lidera um projeto para estudar a filogenômica dessas espécies invasoras e as relações entre sua evolução e as mudanças climáticas. “Se nada for feito para impedir seu avanço, os corais poderiam potencialmente colonizar toda a costa brasileira”.

De onde eles vieram?

“Não podemos estar totalmente certos de que a perfuração de petróleo em alto-mar na Bacia de Campos resultou na invasão de nossa costa por esses corais, mas todas as evidências apontam para essa conclusão”, disse Kitahara.

O surgimento das espécies invasoras no exato momento em que a produção de petróleo e gás começou não é exclusivo do Rio de Janeiro. O Golfo do México também possui vastos campos petrolíferos e o mesmo tipo de coral foi encontrado na costa mexicana desde o início dos anos 2000.

Capacidade de regeneração

Segundo Kitahara, os recifes ao redor da Ilha dos Búzios (uma ilha pertencente à Ilhabela, São Paulo) estão em uma condição irreparável. Uma vez biodiversos e multicoloridos, eles estão agora cobertos por faixas laranjas formadas apenas pelas espécies invasoras. Em alguns lugares, nenhuma rocha nua ou outra espécie de coral pode ser vista.

O maior problema é a surpreendente capacidade de regeneração dos corais invasores, estudada pela pesquisadora Bruna Louise Pereira Luz, bióloga afiliada à Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atualmente pesquisando as mesmas espécies na Universidade James Cook (Austrália) sob a supervisão de Kitahara.

Com a mudança climática, os invasores são favorecidos, porque temperaturas maiores são melhores para sua regeneração. Essa vantagem se alia a uma outra: a falta de necessidade de sol.

Um recife de coral é construído por colônias de milhares de pequenos animais chamados “pólipos”. A maioria contém algas fotossintéticas que vivem em seus tecidos. Os corais e as algas têm uma relação simbiótica: os pólipos fornecem os compostos requeridos pelas algas para a fotossíntese, e as algas fornecem nutrientes aos pólipos. Alguns tipos de coral, como as espécies invasoras no Brasil, podem crescer e proliferar sem algas, entretanto.

Por conta desse fator, não se limitam a lugares com luz solar para a fotossíntese. Geralmente ocorrem em profundidades de até 20 metros, mas avistamentos já foram registrados a 110 metros. Em costas rochosas e falésias submersas, tais pólipos podem cobrir 100% do substrato.

Durante esse processo de colonização, os corais invasores expulsam os nativos, o que devasta as relações ecológicas que eles possuíam com a fauna marinha que dependia deles ou os habitava.

Experimentos

Para determinar tudo isso, os pesquisadores removeram 120 fragmentos de colônias das duas espécies invasoras, compostos de tecido vivo, mas sem mesentério, boca ou tentáculo. Eles então separaram esses fragmentos em grupos com condições diferentes, incluindo maior ou menor exposição à comida e temperaturas distintas.

Apenas 41 dos 240 fragmentos, ou 17,1%, morreram. Os outros 199 fragmentos (86,9%) regeneraram-se. Destes, 21 (9% de toda a amostra) apresentaram um padrão de regeneração alternativo, com a formação de dois pólipos em vez de um.

Independentemente da espécie, a sobrevivência dos fragmentos de coral foi afetada apenas pela temperatura (nem mesmo a falta de alimento atrapalhou). A taxa de sobrevivência foi maior a 24° C. Não houve diferença entre os fragmentos mantidos a 27° C e a 30° C.

Os resultados geralmente indicavam taxas de regeneração mais rápidas em temperaturas mais altas. A regeneração bucal mais rápida para fragmentos sem contato com alimentos foi de 23 dias a 24° C, ou 18 dias a 30° C. No entanto, os fragmentos mantidos a 27° C em contato direto com alimentos apresentaram desenvolvimento 30% mais rápido.

Futuro sombrio

Kitahara explica que o fato de que o coral se regenera mais rápido em altas temperaturas é altamente relevante para o seu sucesso invasivo. A maioria dos corais nativos da costa brasileira sofre branqueamento quando a temperatura das águas superficiais aumenta. Se a temperatura permanece alta, morrem.

Logo, o futuro não parece promissor para o nosso litoral. Por um lado, a mudança climática global favorece os invasores aos nativos; por outro, existe a perspectiva de expandirmos ainda mais a produção de petróleo em águas brasileiras.

A descoberta foi publicada no Journal of Experimental Marine Biology and Ecology. [Phys]

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