Nosso buraco negro supermassivo atirou jato de energia como nunca visto antes

Por , em 18.12.2024

O gigantesco buraco negro no centro da galáxia M87, conhecido pela primeira imagem de seu “horizonte de eventos” em 2019, voltou a surpreender. Dessa vez, cientistas detectaram uma explosão de raios gama tão poderosa que desafia tudo o que conhecemos sobre fenômenos astrofísicos.

Uma explosão que redefine a escala do universo

Pesquisadores ao redor do mundo observaram uma atividade intensa no coração de M87, onde reside um buraco negro com 6,5 bilhões de vezes a massa do Sol. A explosão, geradora de fótons em nível de teraelétron-volts (TeV), emanou de um jato de partículas com cerca de 15 bilhões de quilômetros de extensão. Para se ter uma ideia, essa energia é trilhões de vezes maior que a da luz visível, sendo equivalente, em termos subatômicos, à energia cinética de um mosquito em voo — mas comprimida em partículas incrivelmente menores.

O estudo, publicado na Astronomy & Astrophysics, revelou que essas partículas viajam próximas à velocidade da luz, e os cientistas ainda tentam entender como e onde elas ganham tal energia. “A região onde ocorre essa aceleração desafia nossa compreensão atual da física,” afirmou Weidong Jin, pesquisador da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Raios gama: as mensagens extremas do cosmos

Os raios gama, as formas mais energéticas de luz, geralmente são gerados em eventos extremos, como explosões de supernovas ou fusões de estrelas de nêutrons. Em M87, o brilho observado foi sete vezes maior que o horizonte de eventos do buraco negro, uma escala impressionante.

Mais de 25 observatórios contribuíram para esta descoberta, incluindo o telescópio espacial Hubble e o Chandra, além de instrumentos terrestres como o VERITAS. Embora nossa atmosfera bloqueie os raios gama, telescópios na superfície conseguem detectar a radiação secundária gerada quando essas partículas interagem com a atmosfera.

Curva de luz da erupção de raios gama (parte inferior) e coleção de imagens quase simuladas do jato de M87 (parte superior) em várias escalas, obtidas nas faixas de rádio e raios X durante a campanha de 2018. O instrumento, o intervalo de comprimento de onda e a escala estão indicados no canto superior esquerdo de cada imagem. Imagem: Colaboração EHT, Colaboração Fermi-LAT, Colaboração H.E.S.S., Colaboração MAGIC, Colaboração VERITAS, Colaboração EAVN.

Giacomo Principe, pesquisador da Universidade de Trieste e coordenador do projeto, destacou que este é o primeiro evento de erupção gama observado em M87 em mais de uma década. Ele explicou que a descoberta permitiu determinar com precisão a região do jato responsável pela emissão.

Jatos de buracos negros: potência e mistério

Quando matéria cai em direção a um buraco negro, forma-se um disco de acreção, onde gás e poeira são aquecidos a milhões de graus devido às forças gravitacionais. Parte dessa matéria, no entanto, é expelida em jatos ao longo do eixo de rotação do buraco negro, impulsionada por campos magnéticos retorcidos. Esses jatos podem atravessar milhares de anos-luz.

Em M87, os cientistas observaram um jato bipolar que se estende por distâncias colossais. Durante a erupção gama, eles analisaram como as partículas responsáveis pelo evento foram aceleradas. A pesquisa também mostrou que o horizonte de eventos e os jatos estão interligados, sugerindo que os processos próximos ao buraco negro influenciam diretamente fenômenos a distâncias astronômicas.

Sera Markoff, professora da Universidade de Amsterdã e coautora do estudo, observou que esta é a primeira vez que se combina imagens diretas das regiões próximas ao horizonte de eventos com dados de erupções gama. Isso permite testar teorias sobre as origens desses fenômenos com um nível sem precedentes de precisão.

O que nos espera no futuro?

Os avanços tecnológicos que possibilitaram este estudo abrem portas para compreensões ainda mais profundas sobre buracos negros e seu impacto no universo. A combinação de dados de diferentes telescópios e frequências promete revelar segredos que, até então, eram inalcançáveis.

Este evento é um lembrete de que, no cosmos, mesmo os fenômenos mais familiares podem guardar surpresas. Afinal, como brincou um cientista envolvido no projeto, “Quando você acha que entende um buraco negro, ele vai lá e te mostra um truque novo.”

Deixe seu comentário!