Cientistas descobrem o primeiro animal que não precisa de oxigênio para sobreviver

Por , em 27.02.2020

Pesquisadores da Universidade de Tel Aviv (Israel) descobriram o primeiro organismo multicelular que não respira.

O parasita Henneguya salminicola não possui genoma mitocondrial, o que significa que vive sua gloriosa e simples vida completamente independente de oxigênio.

O achado pode mudar totalmente nossa compreensão da vida na Terra – e fora dela também.

A necessidade de oxigênio

Os cientistas pensam que a habilidade de metabolizar oxigênio, ou seja, respirar, evoluiu cerca de 1,45 bilhões de anos atrás. Nessa época, uma relação simbiótica entre arqueias e bactérias resultou nas bactérias se transformando em organelas chamadas de mitocôndrias.

Hoje, cada célula dentro do nosso corpo (exceto as sanguíneas) possui mitocôndrias, essenciais para o processo de respiração. Elas quebram oxigênio para produzir uma molécula chamada trifosfato de adenosina, utilizada como “combustível” para os processos celulares.

Os pesquisadores sabem que existem organismos multicelulares adaptados para viver em condições com pouquíssimo oxigênio. Além disso, alguns organismos unicelulares evoluíram organelas semelhantes à mitocôndria para realizar metabolismo anaeróbico, ou seja, sem oxigênio.

Já a existência de organismos multicelulares completamente anaeróbicos sempre foi motivo de debate. Seria possível?

Com o Henneguya salminicola, parece que sim.

Henneguya salminicola

O Henneguya salminicola é um cnidário – pertencente ao mesmo filo que corais, águas-vivas e anêmonas – parasita de salmões. Embora os cistos que cria na carne do peixe sejam desagradáveis, não são prejudiciais. O animal pode viver com o salmão por toda a sua vida.

Os pesquisadores já sabiam que, dentro de seu hospedeiro, o parasita podia sobreviver a condições com baixíssimo oxigênio. Mas como? Para isso, decidiram analisar seu DNA.

Depois de examinar o parasita usando microscopia fluorescente e sequenciar seu DNA, os cientistas descobriram que ele havia perdido seu genoma mitocondrial, sua capacidade de respiração aeróbica e quase todos os seus genes nucleares envolvidos em transcrever e replicar mitocôndria.

Na verdade, o parasita tinha evoluído organelas parecidas com a de organismos unicelulares, com a diferença de que possuíam “dobras” na membrana interna nunca vistas.

A confirmação

Para ter certeza dos resultados, os pesquisadores realizaram os mesmos procedimentos em um parasita de peixes cnidário semelhante, o Myxobolus squamalis. Este claramente possui um genoma mitocondrial.

Ou seja, estamos de fato diante de um organismo multicelular que não depende de oxigênio. Como isso é possível, no entanto, permanece um mistério.

Os cientistas ainda não compreendem bem como o parasita sobrevive. Uma hipótese é de que ele “suga” trifosfato de adenosina de seu hospedeiro, mas isso ainda não foi determinado.

Simplificação genética

De acordo com a equipe de pesquisa, a perda do genoma mitocondrial está alinhada com a tendência observada nestes organismos de “simplificação genética”.

Ao longo dos anos, essas criaturas se separaram de ancestrais parecidos com águas-vivas de vida livre e foram “rebaixadas” a parasitas de peixes mais simples.

Por exemplo, mantiveram a estrutura complexa que águas-vivas possuem para “picar” (queimar), mas a utilizam na verdade para se fixar em seus hospedeiros.

Por fim, os cientistas creem que o H. salminicola oferece uma oportunidade para entendermos a transição evolutiva de um metabolismo aeróbico para um anaeróbico.

“Nossa descoberta confirma que a adaptação a um ambiente anaeróbico não é exclusiva dos eucariotos unicelulares, mas também evoluiu em um animal parasitário multicelular”, afirmaram em seu artigo, publicado na revista científica PNAS. [ScienceAlert]

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