Cientistas flagram espermatozoides ignorando uma lei fundamental da física

Por , em 9.11.2025

A imagem clássica de Newton sentado sob uma macieira talvez precisasse de uma atualização: microscópica, com caudas de espermatozoides chicoteando líquidos viscosos e aparentemente zombando da Terceira Lei da Mecanica.

Pesquisadores da Universidade de Kyoto, liderados pelo cientista matemático Kenta Ishimoto, resolveram investigar como células tão pequenas conseguem deslizar em meios que, em tese, deveriam travar seu movimento. O estudo, publicado em outubro de 2023 no periódico PRX Life, mostra que a natureza guarda truques que não cabem no manual clássico da física.

O que Newton não previu

A famosa lei newtoniana estabelece que toda ação gera uma reação de mesma intensidade, mas em direção oposta. Em exemplos cotidianos, como duas bolinhas de gude colidindo, essa regra funciona sem falhas. Só que a física em escala microscópica, regida por fluidos espessos e células inquietas, não joga exatamente com o mesmo livro de regras.

Na prática, sistemas caóticos — de bandos de aves a partículas em suspensão — podem apresentar interações não recíprocas. É como se os elementos se movessem sem devolver o empurrão ao ambiente, criando uma espécie de atalho para escapar do princípio de ação e reação. Isso soa estranho mas ajuda a explicar por que o esperma nada tão bem em ambientes pegajosos.

A chave está na energia que cada organismo injeta no sistema. Um bater de asas, um movimento de cauda: cada gesto cria novas condições e empurra o conjunto para longe do equilíbrio esperado.

A elasticidade “estranha” das caudas

No caso dos espermatozoides e das algas verdes Chlamydomonas, o segredo está em suas flagelas — aquelas estruturas flexíveis que lembram minúsculos chicotes. Em teoria, líquidos espessos deveriam dissipar a energia dessas caudas, praticamente parando o deslocamento celular No entanto, a realidade microscópica é mais engenhosa.

O grupo de Ishimoto identificou que esses apêndices possuem uma característica chamada de “elasticidade estranha”. Essa propriedade faz com que as flagelas deformem sem desperdiçar tanta energia para o ambiente, permitindo que a célula continue avançando.

Curiosamente os dados experimentais e as simulações também levaram à definição de um novo termo: o chamado “módulo elástico ímpar”, usado para descrever a mecânica interna desses filamentos. É como se as próprias células escrevessem uma versão alternativa das leis físicas.

Inspirações para robôs microscópicos

Essas descobertas não se limitam à biologia reprodutiva. A forma como esses organismos geram movimento em ambientes desfavoráveis pode ser replicada no desenvolvimento de microrrobôs auto-organizáveis.

Imagine máquinas do tamanho de células capazes de explorar ambientes líquidos complexos, coletar dados ou até entregar medicamentos diretamente no interior do corpo humano. Já há pesquisadores adaptando os modelos matemáticos criados para flagelas a fim de entender padrões de comportamento coletivo em sistemas biológicos e artificiais.

Esse tipo de aplicação dialoga com areas emergentes da bioengenharia, que já demonstraram interesse em imitar estruturas vivas para criar materiais mais eficientes. Ao que parece, a próxima geração de robôs pode aprender muito com um simples espermatozoide.

Sempre me impressiona como a biologia desafia os limites da física clássica. O que para Newton parecia inquebrantável, no microscópio revela rachaduras criativas da natureza. E pensar que esses detalhes invisíveis podem inspirar tecnologias do futuro é um lembrete divertido: até as leis mais sólidas podem ser reinterpretadas quando vistas bem de perto.

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