Como cientistas transformaram água em gelo a temperatura ambiente

Por , em 27.10.2025
No European XFEL, os cientistas usaram o sofisticado instrumento de Alta Densidade de Energia para conduzir o estudo. Fonte: European XFEL

A água é tão familiar que parece não guardar segredos. Está no copo com gelo, na neve da serra e até nos mundos distantes do Sistema Solar. Mas, surpreendentemente, ela continua surpreendendo: novos tipos de gelo são descobertos periodicamente, revelando que a cristalização dessa substância aparentemente simples ainda esconde truques O mais recente desses truques atende pelo nome de gelo XXI, apresentado em artigo publicado na revista Nature Materials por uma equipe do Korea Research Institute of Standards and Science (KRISS).

O enigma das múltiplas formas da água

Embora a fórmula seja simples — apenas hidrogênio e oxigênio — a água é capaz de assumir uma diversidade cristalina impressionante quando solidificada. Até o momento, já foram catalogadas vinte formas puras de gelo, e a mais nova entra na lista como a vigésima primeira. É quase como se a água fosse uma atriz com um guarda-roupa interminável de figurinos.

Geun Woo Lee, pesquisador do KRISS, observa que os cientistas ainda tentam compreender como algo tão elementar se transforma em tantas arquiteturas distintas. Esse comportamento peculiar também ajuda a explicar por que luas congeladas, como Titã e Ganimedes, podem ter interiores muito mais intrigantes do que se imaginava inicialmente.

O nascimento de um gelo inusitado

O gelo XXI surgiu quando os pesquisadores comprimiram rapidamente a água em temperatura ambiente. Normalmente, nessas condições, a água já deveria ter se transformado em gelo VI, mas o processo acelerado abriu um “atalho oculto” que manteve a substância em estado líquido por mais tempo, permitindo a emergência da nova fase cristalina.

Esse comportamento é chamado de metastabilidade: a substância se equilibra temporariamente entre duas possibilidades, como quem hesita em escolher o prato certo no cardápio de um restaurante cheio. O gelo XXI permanece por algum tempo, ainda que outra estrutura fosse energeticamente mais estável naquele cenário.

Curiosamente esse tipo de instabilidade controlada pode ser essencial para compreender não apenas planetas e luas geladas, mas tambem os próprios limites do comportamento molecular da água aqui na Terra.

Ferramentas dignas de ficção científica

Para realizar o feito, a equipe recorreu a duas células de bigornas de diamante — imagine um quebra-nozes capaz de atingir pressões de até 2 gigapascais, cerca de 20.000 vezes superiores à pressão atmosférica. Enquanto as moléculas de água eram espremidas e liberadas repetidamente, lasers de raios X gigantes do European XFEL capturavam cada microssegundo da transformação.

Em seguida, os pesquisadores usaram o acelerador de partículas PETRA III, no centro DESY, Alemanha, para revelar a estrutura exata do gelo XXI. O resultado: um cristal tetragonal formado por unidades repetitivas incomuns, diferentes de qualquer outro tipo de gelo já identificado.

Rachel Husband, coautora e física do DESY, destacou que essa descoberta abre caminho para localizar novas fases de gelo de alta temperatura, cada uma com transições ainda misteriosas. Segundo ela, isso pode lançar luz sobre a composição interna de luas geladas do Sistema Solar.

O que mais me fascina, como editor de jornalismo científico, é que estamos falando de água — talvez o composto mais banal do planeta — e, mesmo assim continuamos a descobrir comportamentos surpreendentes. Essa dualidade entre o cotidiano e o extraordinário torna a ciência irresistível. Pessoalmente, vejo nessa pesquisa um convite a revisitar nossos próprios pressupostos: se até a água ainda guarda segredos, o que mais não conhecemos sobre substâncias que julgamos dominadas?

Não é exagero afirmar que, a cada nova fase descoberta, abrimos também uma nova janela para compreender os ambientes extremos do cosmos. A água segue sendo, com ou sem acento, um dos maiores enigmas universais

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