Complexo de Vira-lata – Uma questão nacional

Por , em 31.08.2014

Complexo de Vira-lata

Criada por Nelson Rodrigues, em 1950, para traduzir um sentimento de inferioridade nacional quando da derrota da Seleção Brasileira para o Uruguai em pleno Maracanã a expressão “Complexo de Vira-lata” está cada vez mais atual.

Para nosso dramaturgo “o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem” talvez por não ter encontrado nenhuma razão pessoal ou histórica para se orgulhar.

Seja no campo político e social seja no campo científico e cultural.

Restava-lhe o futebol.

Mas até esse ufanismo efêmero de uma pátria de chuteiras tem lhe sido tirado.

Primeiro, pelos escândalos sucessivos de uma política historicamente destituída de ética e probidade e por último pela vergonhosa atuação da tal Seleção Brasileira que estabeleceu um novo significado para a palavra vexame.

Desde sua reedição internacional feita por Larry Rohter em 2004 — que num artigo no The New York Times reafirmou como é doloroso para o brasileiro ter seu país confundido com a Bolívia, como Reagan fez ou de não ser considerado um país sério como o manifestado por estadistas do quilate de um Charles de Gaulle — o complexo de vira-lata acalenta a ideia de que nós brasileiros tropeçamos na péssima avaliação de nós mesmos.

E tal depreciação salta do cenário político, perambula pelas ruas e se enraíza na mente e no coração das pessoas.

O brasileiro é preguiçoso e malandro.

Está aí o Zé Carioca que não nos deixa mentir.

Está aí o Macunaíma – o herói de nossa gente — que repete o “ai, que preguiça” diário do bom jovem brasileiro.

É notório que nosso complexo de vira-lata, sendo traduzido primeiramente como complexo de inferioridade tem ganhado novas nuances.

Destaca-se aqui a falta de caráter, de princípios, de nobreza a ponto de transformar a honestidade em algo ridículo e vergonhoso.

O tal jeitinho brasileiro — que tangencia a trapaça e o engodo.

A cartada nacional que sublinha aquelas frases emblemáticas que já ouvimos tantas vezes:

— Quem não cola não sai da escola.

— Ele rouba, mas faz.

— Achado não é roubado.

— O negócio é levar vantagem.

E por aí vai.

São chaves que nos fazem entender no noticiário do porquê de tantos escândalos políticos, de tanta subversão de valores.

São indicadores de que a corrupção é uma característica do nosso povo.

Que ela está tão entranhada em nossa gente, a ponto de se tornar indissociável.

Daí todos latirem um para outro enquanto a caravana da história passa.

Será?

Eu me nego a acreditar nisso.

Tenho encontrado nas minhas andanças por esse país muita gente séria, honesta e comprometida.

Muita gente idealista que trabalha duro, de sol a sol.

Pessoas que não desistem de acreditar e praticar a bondade.

E tenho constatado que esse tipo luminar de ser humano constitui a maioria do povo brasileiro — principalmente pelo exemplo que eu encontro em cada uma das pessoas que trabalham ao meu lado.

Então por que ainda temos essa imagem distorcida de nós mesmos?

Para concluir, gostaria de usar uma historieta que escrevi há alguns anos, a pedido de uma amiga querida, que foi idealizada especialmente para os nossos alunos do Ensino fundamental.

Talvez uma fábula nos ajude a iluminar a outra:

 Uma questão Nacional

Apareceu lá em casa o cachorro mais feio do mundo. 

Parecia um novelo esfiapado. Um pacote de pulgas muito magricelo, trêmulo e estabanado.  

Porém, algo naquele bicho me comoveu. 

Talvez seus olhos úmidos, as vastas orelhas caídas ou a forma suplicante com a qual me olhava. 

Fora muito maltratado. Fiquei profundamente penalizado. 

Ele era apenas um filhote e já descobrira toda a crueldade do mundo. 

No alto de meus dez anos de idade não tive coragem de espantá-lo. 

Eu sabia que meus pais jamais me deixariam ter um cachorro, quanto mais um tão estropiado quanto àquele. 

Prometi, então, entregá-lo ao canil da prefeitura, onde eles recolhiam os cachorrinhos órfãos, até que alguém o adotasse. 

Porém ninguém adotaria aquilo.  

O coitadinho mal parava em pé de tão fraco. Talvez fosse pela fome. Talvez fosse pela doença. Talvez fosse por ambos. Não podia entregá-lo à prefeitura naquele estado. 

Depois de uma negociação com os familiares, contando com o apoio de meus irmãos realizei uma operação de emergência. 

Ração especial, anti-pulgas e vermífugos aos quilos. 

Consegui a assistência de um primo que estudava veterinária e em poucos dias o pobrezinho já conseguia sair da casinha, um tanto trêmulo, para me fazer festa quando eu voltava da escola. 

Meu vizinho, o “seu” Roby, que se dizia estrangeiro, adorava fazer piadas políticas. 

Logo, transformou meu cãozinho em seu alvo predileto. 

— E então, como vai o Brasil? Está se recuperando?  — Perguntou ele, numa manhã de domingo, quando me avistou brincando com o cãozinho. 

Seu quintal estava abarrotado de parentes que se acotovelavam ao redor de uma churrasqueira fumacenta. 

Todos esticaram seus pescoços por cima da cerca. 

— Como disse? — perguntei, enquanto jogava uma bolinha para me amigo canino. 

— Esse seu vira-lata, o nome dele é Brasil, não é? – Insistiu o malvado enquanto mastigava um pedaço de pão com linguiça. 

A parentada do ilustre ao ver um cão tão feio e raquítico rachou o bico de tanto rir. 

Aquilo me pegou de surpresa. Ainda não havia escolhido um nome pro bicho. 

No fundo eu sabia que se eu o batizasse eu me apegaria. 

Olhei para o pobrezinho. Saltitava borbulhando de alegria, indo e vindo com aquelas perninhas finas e a bolinha amarela na boca.

 Seus olhos estavam repletos de felicidade. 

Tinha alimento, abrigo e mais que tudo um amigo para brincar. 

Meu coração sofreu um aperto. 

Ele ainda não tinha um nome.  Talvez eu tivesse vergonha da aparência daquele pobre animal? 

No entanto, aquela magreza cadavérica, aliada ao pelo falho e sem vida não o impediam de correr e se divertir e também de aprender alguns truques. 

Era o próprio retrato da vitalidade. Completamente alheio à selvageria da vizinhança que fazia dele um objeto repulsivo capaz de ofender toda uma nação. 

Às vezes existe vantagem em se ser um simples cachorro. Exime-se da triste tarefa de se destilar o teor destrutivo das palavras. 

Por isso respondi altivo àquela provocação. 

— É sim! O nome dele é Brasil. Por quê? 

— Esse seu cachorro acha bonito ser feio, né? 

Novas gargalhadas. 

Os parentes esfomeados tinham se transformando em plateia e agora se agarravam à cerca com olhar transbordando expectativa. 

— Olha só quem está falando de feiúra Brasil, esse velhinho que cresceu do avesso – respondi com irreverência. 

Para minha surpresa as risadas foram ainda mais intensas. 

“Seu” Roby se irritou com a virada da torcida e por isso contra-atacou. 

 — Ele está abanando o rabo ou é o rabo que está abanando ele? 

Mais risadas. 

— Pelo menos sabemos em que lado do corpo ele tem o rabo . 

Risadas e alguns gritos. 

— O que ele come para ser assim tão magro? Arame farpado? 

Alguns risos forçados. 

— Claro. Se ele comesse pão com linguiça além de muito feio seria espinhento, pançudo e teria um bafo de matar. 

Muitas risadas e aplausos. Alguns tiveram que se sentar para não caírem da cerca. 

Eu tinha descoberto naquele momento, e da pior forma, como um público pode ser traiçoeiro. 

Assim resolvi sair de cena enquanto o vento soprava ao meu favor. 

Peguei Brasil em meus braços e me refugiei dentro de casa. 

Contei aquele episódio aos meus pais. 

Eles ficaram mais indignados que eu. 

Para a nossa sorte — minha e de Brasil — conquistamos esses dois grandes aliados em nossa campanha de revitalização nacional. 

Em poucos meses Brasil estava belo, forte e impávido. Um verdadeiro colosso. 

A magreza fora substituída por uma musculatura robusta e ágil.  

O pelo acastanhado crescera vistoso e brilhante e não eram poucos os que paravam no portão para elogiar aquela metamorfose. 

Além da beleza, Brasil demonstrava ser muito esperto e aprendia com rapidez muitos truques.   

Truques que eu usava para conquistar, junto a meus pais, a permanência definitiva de Brasil em nossas vidas. 

Seu Roby perdeu a graça para fazer piadas. 

Num dia me abordou na rua só para perguntar qual fora o segredo daquela transformação. 

Eu respondi na lata: 

— Bastou o Brasil encontrar alguém que o amasse de verdade.

 

Artigo de Mustafá Ali Kanso 

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[Leia os outros artigos  de Mustafá Ali Kanso  publicado semanalmente aqui no Hypescience. Comente também no FACEBOOK – Mustafá Ibn Ali Kanso ]

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LEIA A SINOPSE DO LIVRO A COR DA TEMPESTADE DE Mustafá Ali Kanso

[O LIVRO ENCONTRA-SE À VENDA NAS LIVRARIAS CURITIBA E SPACE CASTLE BOOKSTORE].

Ciência, ficção científica, valores morais, história e uma dose generosa de romantismo – eis a receita de sucesso de A Cor da Tempestade.

Trata-se de uma coletânea de contos do escritor e professor paranaense Mustafá Ali Kanso (premiado em 2004 com o primeiro lugar pelo conto “Propriedade Intelectual” e o sexto lugar pelo conto “A Teoria” (Singularis Verita) no II Concurso Nacional de Contos promovido pela revista Scarium).

Publicado em 2011 pela Editora Multifoco, A Cor da Tempestade já está em sua 2ª edição – tendo sido a obra mais vendida no MEGACON 2014 (encontro da comunidade nerd, geek, otaku, de ficção científica, fantasia e terror fantástico) ocorrido em 5 de julho, na cidade de Curitiba.

Entre os contos publicados nessa coletânea destacam-se: “Herdeiro dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” que juntamente com obras de Clarice Lispector foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Prefaciada pelo renomado escritor e cineasta brasileiro André Carneiro, esta obra não é apenas fruto da imaginação fértil do autor, trata-se também de uma mostra do ser humano em suas várias faces; uma viagem que permeia dois mundos surreais e desconhecidos – aquele que há dentro e o que há fora de nós.

Em sua obra, Mustafá Ali Kanso contempla o leitor com uma literatura de linguagem simples e acessível a todos os públicos.

É possível sentir-se como um espectador numa sala reservada, testemunha ocular de algo maravilhoso e até mesmo uma personagem parte do enredo.

A ficção mistura-se com a realidade rotineira de modo que o improvável parece perfeitamente possível.

Ao leitor um conselho: ao abrir as páginas deste livro, esteja atento a todo e qualquer detalhe; você irá se surpreender ao descobrir o significado da cor da tempestade.

[Sinospse escrita por Núrya Ramos  em seu blogue Oráculo de Cassandra]

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8 comentários

  • NITIFA:

    Meu filho é um dos poucos brasileiros admitidos nos jogos online.Ele comentou comigo esse preconceito contra brasileiros, infelizmente.

  • Adrielle Lopes:

    Nossa! Que belíssima fábula! Até me senti mais orgulhosa em ser brasileira. Este nosso país é como o cãozinho da história: só precisa de pessoas que o ame, que o alimente e que o fortaleça. Muito obrigada pela leitura muito inquietante, esperançosa e provocante. Em tempos de vésperas de eleição é bom ver um texto desse!!!

  • Marcio Silva:

    Essa é uma triste faceta de nosso cultura, presente em todos os cantos.
    Eu costumava jogar online, e quando saiu a versão oficial em português de um jogo, as opiniões se dividiram. Muitos nem avaliavam o trabalho de adaptação realizado pela empresa do jogo, apenas diziam que tinha ficado ruim, que a versão original era bem melhor. Era melhor simplesmente por ser em inglês. Ou pior, por não ter sido feita por brasileiros, ou para brasileiros. Do Brasil ou para o Brasil, é só lixo. Lamentável.

  • Maurício Roxy:

    Nesses tempos de política me ligaram com a finalidade de fazer pesquisas. Me fizeram várias perguntas, dentre elas, “O que você pensa da política atual? O que você achou do desempenho do Brasil na seleção? Diante essas perguntas rapidamente comecei a pensar nas possíveis respostas. Me observei pensando. Vi que minha concepção sobre o Brasil corria o risco de ser contagiada pelo pessimismo, mas ao mesmo tempo pensei: não é assim que se constrói um país. Legal a estória.

  • Filiphe Zucchi:

    Excelente matéria Mustafá. Parabéns!
    Concordo em absoluto com ela, porém, é realmente difícil tentar fazer algo inovador ou diferente em nosso país. Pior ainda é fazer com que a maioria das pessoas reconheçam.

    Novamente, a grande maioria acha que para tudo se “dá um jeitinho” e praticamente nada segue seu fluxo normal. O que faltou para o Brasileiro foi lutar por sua terra, por um ideal de verdade. É por isso que “não damos valor” a nada e por isso que estamos do jeito que estamos…

  • Guachaxara Carnes:

    Penso se este complexo não foi implantado por nossos ‘descobridores’ para que assim nos controlassem melhor… Hj, meu filho fala da ‘vergonha’ que é ser brasileiro em jogos online, onde ele mesmo, para ser aceito mais facilmente, precisou criar um perfil onde não menciona que é br. Presenciei um dia em que ele conversava com outro jogador e na conversa falou que era brasileiro. A primeira pergunta: “é do RJ? É da favela?” Acho que esta imagem cristalizou-se lá fora e vai demorar pra…

    • Filiphe Zucchi:

      Ghachaxara, sou fanatico por jogos online desde pequeno. Hoje com praticamente 30 anos ainda tiro meus sagrados momentos para jogar e JAMAIS falo que sou brasileiro.

      Ou você é “jogado para fora” da sala de jogo ou é tido como “hacker” e ladrão. Isso por que os Brasileiros são os que mais zoam e desrespeitam.

    • Cesar Grossmann:

      Meus filhos também não dizem que são do Brasil. Eles jogam na boa, respeitam todo mundo, mas quando dizem que são brasileiros passam a ser bloqueados e até chutados das salas de jogos.

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