Déficits sociais do autismo são revertidos por droga anticâncer

Por , em 14.03.2018

Uma nova pesquisa da Universidade de Buffalo, nos EUA, ofereceu evidência inédita de que é possível reverter os sintomas comportamentais do autismo, utilizando um único composto que visa conjuntos de genes envolvidos na doença.

Um artigo sobre as descobertas foi publicado na prestigiada revista científica Nature Neuroscience.

Um possível tratamento, finalmente

As dificuldades sociais enfrentadas por pacientes com diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA) estão entre as mais devastadoras consequências dessa condição.

Atualmente, não há tratamento para este sintoma primário do autismo, mas felizmente isso pode mudar em breve.

A terapia testada no novo estudo envolve uma dose muito baixa de romidepsina, uma droga anticancerígena já aprovada para comercialização, e se provou muito eficaz em restaurar déficits sociais em modelos animais.

Sucesso

O tratamento de três dias reverteu déficits sociais em ratos que tinham deficiência em um gene chamado Shank 3, um importante fator de risco para o autismo.

O estudo se baseou em uma pesquisa anterior da principal autora do artigo, Zhen Yan, professora de fisiologia e biofísica na Universidade de Buffalo.

Ela descobriu que a perda de Shank 3 perturba as comunicações neuronais e afeta a função do receptor NMDA (N-metil D-Aspartato), crítico na regulação da cognição e emoção, liderando os déficits sociais comuns no autismo.

Os cientistas conseguiram reverter esses déficits com uma dose muito baixa de romidepsina, que restaura a expressão e a função de vários genes usando um mecanismo epigenético.

O efeito benéfico durou três semanas, abrangendo o período juvenil até a adolescência tardia dos animais, um estágio crítico de desenvolvimento das habilidades sociais e de comunicação. Isso é equivalente a vários anos em seres humanos, de forma que o tratamento poderia se provar duradouro.

A sacada

Estudos de genética humana já haviam sugerido que anormalidades epigenéticas provavelmente desempenhavam um papel importante no autismo.

Muitas das mutações do transtorno do espectro autista resultam de fatores de remodelação da cromatina, um complexo de material genético que fica dentro de núcleos celulares.

Yan sabia que havia uma extensa sobreposição de genes de risco para autismo e câncer, muitos envolvendo fatores de remodelação da cromatina. Logo, ela teve a ideia de utilizar medicamentos epigenéticos aprovados para tratamento do câncer direcionados ao autismo.

Sua equipe estava interessada em um tipo de remodelador de cromatina chamado “modificador de histonas”. As histonas ajudam a organizar o material genético no núcleo para que a expressão gênica possa ser regulada. Como muitos genes são alterados no autismo, os cientistas acreditavam que um modificador de histonas poderia ser abrangente o suficiente para o tratamento da condição.

Em particular, eles decidiram testar a histona desacetilase (HDAC), uma família de modificadores de histonas criticamente envolvida na remodelação da estrutura da cromatina e na regulação da transcrição de genes.

Resultados promissores

No autismo, o HDAC2 é anormalmente alto, o que torna impede o material genético de ser transcrito e expresso. Quando descontrolado, esse modificador pode levar a mudanças comportamentais como os déficits sociais da condição.

O remédio contra o câncer romidepsina é um inibidor de HDAC altamente potente. Nos ratos, permitiu que os genes envolvidos na sinalização neuronal fossem expressados normalmente.

E o efeito foi generalizado. Quando Yan e seus colegas realizaram triagem genômica, descobriram que a romidepsina restaurou a maioria dos mais de 200 genes reprimidos nos animais com autismo.

“A vantagem de ser capaz de ajustar um conjunto de genes identificados como chave no autismo pode explicar a eficácia e a duração deste agente terapêutico para a doença”, explicou Yan.

Os pesquisadores vão continuar estudando o tratamento, a fim de disponibilizar novos medicamentos para o autismo. [ScienceDaily]

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1 comentário

  • Jefferson Viana:

    Tenho uma curiosidade imensa ora saber como reagiria um autista grave, daqueles que não consegue falar com as pessoas , com a droga LSD

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