Adoçante comum em refrigerantes pode danificar barreira cerebral crítica, aumentando o risco de AVC

Por , em 31.12.2025

Nos últimos anos, o eritritol conquistou espaço nas prateleiras e nas cozinhas como um substituto aparentemente “mais leve” do açúcar tradicional. Ele aparece em barras de proteína, bebidas esportivas, chocolates “zero” e toda uma constelação de alimentos divulgados como aliados da dieta. Porém, novas evidências sugerem que esse adoçante pode estar interferindo em um dos sistemas de proteção mais sensíveis do nosso corpo: a barreira hematoencefálica, estrutura responsável por controlar com rigor o que entra e o que não entra no cérebro. É como se um vigia experiente começasse, aos poucos, a cochilar no trabalho.

Pesquisadores da University of Colorado observaram que o consumo de eritritol pode fragilizar células que compõem essa barreira. Em estudos laboratoriais, níveis do adoçante comparáveis aos encontrados após o consumo de um refrigerante adoçado com ele causaram danos celulares que tornam o cérebro mais suscetível à formação de coágulos – cenário que está diretamente ligado ao risco de acidente vascular cerebral.

Essa descoberta se junta a um conjunto crescente de estudos observacionais que já relacionavam desde antes a presença de eritritol no sangue a taxas maiores de infarto e AVC. Embora correlação não seja prova definitiva de causalidade, o acúmulo de indícios começa a soar como aquele alarme persistente que era fácil de ignorar no começo, mas vai ficando alto demais para passar despercebido.

Como o eritritol pode afetar o cérebro

Quando os cientistas expuseram células da barreira hematoencefálica ao adoçante, observaram um aumento significativo do estresse oxidativo. Nesse processo, moléculas altamente reativas, conhecidas como radicais livres, se acumulam, ao mesmo tempo em que as defesas antioxidantes naturais do corpo diminuem. O equilíbrio delicado se perde e as células começam a falhar ou mesmo morrer.

No quarto parágrafo deste estudo também ficou evidente que o eritritol interfere na capacidade dos vasos sanguíneos de se ajustarem ao fluxo necessário. Normalmente, o corpo usa duas moléculas para fazer esse controle: o óxido nítrico, que relaxa os vasos, e a endotelina-1, que os contrai. Aqui, o adoçante reduz o óxido nítrico e aumenta a endotelina-1, favorecendo um estado de contração permanente. Isso pode impedir que o cérebro receba a quantidade de oxigênio de que precisa.

E há um terceiro elemento preocupante: o adoçante parece atrapalhar a liberação de um composto chamado ativador de plasminogênio tecidual, uma espécie de “detergente natural” do corpo, responsável por dissolver coágulos antes que se transformem em problemas sérios. No mundo real, isso seria como retirar o caminhão de socorro que limpa a estrada quando um acidente interrompe o trânsito.

Eritritol no cotidiano alimentar

O eritritol pertence à família dos álcoois de açúcar, compostos que ocorrem naturalmente em pequenas quantidades em frutas e também no próprio corpo humano. O fato de não ser químico sintético ajudou a afastá-lo por um tempo das revisões rígidas que recaíram sobre outros adoçantes artificiais. No entanto, nos últimos anos, a escala de consumo industrial cresceu muito: hoje ele está presente em milhares de produtos.

Outro motivo para seu sucesso é o paladar. Enquanto adoçantes como sucralose podem ser centenas de vezes mais doces que o açúcar comum, o eritritol oferece cerca de 80% da doçura, o que facilita seu uso como substituição direta em receitas sem criar sabores exagerados. Por isso, desde sobremesas “fit” até cafés adoçados em academias de bairro, ele se tornou quase invisível e onipresente.

Entretanto, é justamente essa sensação de segurança e familiaridade que pode ter permitido que seus possíveis efeitos de longo prazo passassem despercebidos por anos. Supermercados em grandes cidades brasileiras, por exemplo, exibem fileiras de produtos “keto”, “low-carb” e “sem açúcar”, mas dificilmente alguém sabe qual adoçante está ali ou como ele atua no organismo.

A ciência ainda está em desenvolvimento

As descobertas recentes não encerram o debate. Os próprios pesquisadores reconhecem limitações. Os experimentos foram conduzidos em células isoladas, fora de sistemas vasculares completos, e isso significa que ainda não podemos afirmar com segurança absoluta que os mesmos efeitos ocorreriam exatamente da mesma forma dentro do corpo humano. Estudos mais sofisticados, incluindo modelos de “vasos sanguíneos em chip” que simulam o comportamento real do organismo, estão em andamento.

Mesmo assim, é difícil ignorar que os dados laboratoriais se alinham com os resultados de estudos populacionais. Em uma pesquisa de larga escala acompanhando milhares de participantes, aqueles com níveis mais elevados de eritritol no sangue tinham aproximadamente o dobro de probabilidade de sofrer um evento cardíaco grave. Nessa etapa, a palavra “producao” de evidências começa a ficar difícil de descartar.

Além disso, a questão do equilíbrio entre risco e benefício é particularmente sensível aqui. Para pessoas com diabetes, por exemplo, o eritritol pode ajudar a controlar picos de glicose e evitar complicações metabólicas severas. Mas, se esse mesmo adoçante puder enfraquecer defesas críticas do cérebro e do sistema circulatório, então talvez o ganho venha acompanhado de um custo silencioso o corpo pode não perceber no curto prazo.

Há ainda o fato de que o Brasil e muitos outros países enfrentam uma epidemia de doenças cardiovasculares. Num cenário em que alimentação moderna já pressiona o coração por múltiplos caminhos, adicionar um fator oculto e pouco discutido pode acabar sendo o empurrão final para muitos indivíduos predispostos.

Os consumidores, portanto, ficam diante de um dilema complexo. Trocar açúcar por adoçantes é uma estratégia muito adotada, mas ainda estamos aprendendo que nem todo substituto é necessariamente neutro. Alguns efeitos podem aparecer de maneira lenta, gradativa e silenciosa

Pensando nos próximos passos

No fim das contas, talvez o caminho não seja simplesmente substituir açúcar por algo que parece mais “leve”, mas repensar a relação emocional e cultural que temos com o sabor doce. Adoçar tudo pode ser um hábito aprendido, não uma necessidade fisiológica. Se o eritritol estiver realmente interferindo na barreira que protege o cérebro, talvez seja o momento de refletir quase poeticamente sobre o quão raro e delicado é o acesso à mente humana – e como hábitos cotidianos podem influenciá-lo sem que percebamos.

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