Estávamos errado sobre o jejum, descobre gigantesca revisão científica

Por , em 24.12.2025

Durante muito tempo acreditou-se que manter o corpo constantemente alimentado era essencial para o bom funcionamento do cérebro. Propagandas de lanches reforçam a ideia de que “você não é você quando está com fome”, e assim o medo de perder foco ou produtividade se consolidou como senso comum. Mas um amplo levantamento científico publicado, conduzido por David Moreau, mostra que o jejum intermitente e a alimentação restrita por tempo não reduzem o desempenho cognitivo em adultos saudáveis.

O jejum ativa mecanismos metabólicos antigos, refinados pela evolução para lidar com períodos de escassez. Após cerca de 12 horas sem comer, as reservas de glicogênio se esgotam e o corpo passa a queimar gordura, gerando corpos cetônicos como acetoacetato e beta-hidroxibutirato — um combustível alternativo para o cérebro. Essa transição metabólica, antes essencial a sobrevivência, agora é associada a benefícios modernos: maior sensibilidade a insulina, melhor controle glicêmico, ativação da autofagia (um processo de “limpeza” celular) e menor risco de doenças metabólicas crônicas.

O que a ciência realmente descobriu

A metanálise analisou 63 artigos científicos, totalizando 71 estudos independentes e 3.484 participantes testados em 222 medidas cognitivas. O conjunto cobre quase sete décadas, de 1958 a 2025, e revela que adultos saudáveis apresentam desempenho equivalente em testes de memória, atenção e função executiva, estejam alimentados ou em jejum. Em outras palavras, o cérebro não “desliga” só porque o estômago está vazio.

Curiosamente, crianças e adolescentes mostraram resultados piores ao jejuar. Os autores sugerem que o cérebro em desenvolvimento é mais sensível a falta de glicose. Portanto, a velha recomendação de enviar os pequenos a escola com café da manhã ganha respaldo científico — e talvez um toque de humor: o famoso “come antes de sair” das mães sempre teve fundamento biológico.

Outro detalhe observado é o efeito do tempo de jejum. Períodos mais longos tendem a reduzir a diferença entre quem comeu e quem não comeu, provavelmente por causa da mudança para combustível cetônico. No entanto, testes aplicados no fim do dia indicaram leve queda de desempenho, o que pode refletir o cansaço natural do ritmo circadiano. Já em tarefas neutras, sem estímulos de comida, jejuadores às vezes se saíram melhor — o problema é quando o teste envolve imagens de comida: aí a fome fala mais alto e a concentração se dispersa.

O que isso significa para o cotidiano

Esses resultados tranquilizam quem pratica o jejum intermitente ou a alimentação com janela restrita. Para adultos saudáveis, não há motivo para temer perda de foco ou raciocínio lento. Ainda assim, não se trata de uma receita universal. Profissionais que precisam manter alta atenção ao longo do dia, ou pessoas com condições médicas específicas, devem adotar o jejum com cautela e orientação médica.

Nos últimos anos, o jejum 16/8 (dezesseis horas de jejum e oito de alimentação ) e variações como o “one meal a day” ganharam popularidade entre adeptos do bem-estar rápido. Contudo, estudos da University of Nottingham indicam que os efeitos dessas versões mais extremas ainda não são totalmente compreendidos, especialmente em longo prazo.

No Brasil, onde a rotina mistura trabalho remoto, horários irregulares e tentações constantes de grupos de WhatsApp, entender como o jejum influencia o rendimento mental é ainda mais relevante. A metanálise de Moreau sugere que, ao menos para adultos saudáveis, nossa mente continua operando normalmente mesmo quando pulamos o lanche da tarde.

Uma ferramenta, não uma regra

Em última análise, o jejum parece menos uma moda e mais uma ferramenta pessoal — que pode funcionar para uns e incomodar outros. O essencial é compreender seus efeitos sem pânico, sem dogmas e com senso de autoconhecimento. É curioso pensar que, enquanto a ciência desmonta mitos antigos sobre alimentação e foco, ainda somos movidos pelos mesmos instintos primitivos que fizeram nossos ancestrais sobreviver em tempos de caça e espera.

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