Crânio de hipercarnívoro de 30 milhões de anos é “descoberta dos sonhos” de paleontólogos
No coração do deserto de Fayum, no Egito, onde hoje só há areia, existia, há milhões de anos, uma floresta vibrante e cheia de vida. Este local, que poderia parecer um paraíso para os habitantes de outrora, era na verdade o lar de um temível predador do tamanho de um leopardo, com mandíbulas potentes e dentes afiados como lâminas.
A Descoberta do Bastetodon syrtos
Recentemente, paleontólogos encontraram uma pista crucial sobre esse predador pré-histórico: um crânio quase completo, que pertenceu a uma criatura do extinto grupo de carnívoros conhecidos como Hyaenodonta. A equipe, liderada pela paleontóloga Shorouq Al-Ashqar, da Universidade de Mansoura e da Universidade Americana no Egito, batizou essa poderosa criatura de Bastetodon syrtos, em homenagem à deusa egípcia Bastet, que tinha cabeça de leoa e era protetora.
Al-Ashqar relembra o momento emocionante da descoberta. Após dias escavando camadas de rocha com cerca de 30 milhões de anos, quando já estavam prestes a encerrar o trabalho, um dos membros da equipe avistou dentes grandes emergindo do solo. O entusiasmo do grupo foi imediato, marcando o início de uma descoberta extraordinária: um crânio quase intacto de um antigo carnívoro de topo, um verdadeiro sonho para qualquer paleontólogo especialista em vertebrados.

Fayum: Um Tesouro Paleontológico
A depressão de Fayum, onde os ossos foram desenterrados, é um local de imensa riqueza fóssil, crucial para compreender um período de 15 milhões de anos na história da região durante o Paleogeno. Paleontólogos vêm trabalhando nesta área há mais de um século, desvendando o rico ecossistema que um dia existiu ali.
O pesquisador Matt Borths, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, destaca que Fayum é uma das áreas fósseis mais importantes da África. Sem ela, saberíamos muito pouco sobre as origens dos ecossistemas africanos e a evolução de mamíferos africanos como elefantes, primatas e hyaenodontes. Apesar de todos os ossos serem valiosos para entender a anatomia das criaturas extintas, o crânio oferece informações preciosas sobre as estratégias de sobrevivência de um animal.
O Hiper-Carnívoro do Passado
O crânio do Bastetodon revela dentição típica dos Hyaenodonta, permitindo sua classificação segura, além de oferecer insights sobre seu estilo de vida. Os pesquisadores afirmam que este animal era um hipercarnívoro, com uma dieta composta por mais de 70% de carne, semelhante aos gatos selvagens e crocodilos de hoje. Ele ocupava o topo da cadeia alimentar em seu ambiente.
A descoberta também possibilitou contextualizar fósseis descobertos há 120 anos. Esses restos pertenciam a um grupo de hyaenodontes do tamanho de leões que viveram na região de Fayum milhões de anos atrás. Quando foram analisados pela primeira vez, em 1904, eles foram agrupados com hyaenodontes europeus.

A Origem Africana dos Hyaenodontes
Al-Ashqar e seus colegas descobriram que esses fósseis, agora reunidos sob o gênero Sekhmetops (em homenagem à deusa egípcia da guerra, Sekhmet), surgiram na África em ondas, sendo distintos dos hyaenodontes europeus. Bastetodon também teve origem africana.
Dali, esses animais espalharam-se pelo hemisfério norte, chegando à Ásia, Europa, Índia e América do Norte. Contudo, sua permanência na África foi interrompida por mudanças ambientais que culminaram em sua extinção, abrindo espaço ecológico para outros predadores.
A descoberta do Bastetodon é um marco significativo na compreensão da diversidade e evolução dos hyaenodontes e sua distribuição global, afirma Al-Ashqar. A equipe está ansiosa para prosseguir com suas pesquisas e desvendar as complexas relações entre esses antigos predadores e seus ambientes ao longo do tempo e dos continentes.
O estudo foi publicado no Journal of Vertebrate Paleontology.
