Formigas feridas enquanto caçam cupins são socorridas por formigas-médicas

Por , em 27.02.2018

As Matabele (Pachycondyla analis) são formigas grandes e pretas que vivem na Costa do Marfim, e são especialistas em caçar cupim. Biólogos observaram que elas agem como paramédicas em momentos de crise, fazendo triagem e tratando os ferimentos das companheiras feridas em combate.

A descoberta foi descrita na revista Proceedins of the Royal Society B, e documenta um sistema sofisticado que ajuda a determinar qual formiga tem mais chance de sobreviver a um ferimento de luta. A pesquisa foi feita por cientistas da Universidade Wurzburg (Alemanha).

Formigas normalmente vivem em sistemas em que a morte de alguns indivíduos não impacta o bem estar do grupo, então as formigas trabalhadoras costumam ter uma vida muito curta enquanto a rainha produz novos ovos rapidamente. Por isso a descoberta deste “Siate” no formigueiro chama tanta atenção.

“O benefício de ajudar formigas feridas neste cenário é pequeno, porque substituí-las seria mais fácil”, dizem os pesquisadores.

Essas formigas saem em grupos de 200 a 600 indivíduos para atacar cupins e carregar seus corpos de volta para casa. Mas os cupins têm uma cabeça dura e não se rendem sem uma boa luta. Muitas formigas invasoras acabam ficando sem pernas ou com mandíbulas de cupins presas no corpo.

Surpreendentemente, o grupo não abandona todos os feridos. Antes de voltar para casas eles procuram por companheiros feridos, que enviam sinais de estresse com feromônio. Depois de 24h de repouso no ninho, essas formigas voltam ao trabalho com apenas cinco ou quatro patas, mas com a mesma velocidade que suas companheiras de seis patas. Os pesquisadores observaram que um terço das formigas caçadoras acabam perdendo uma perna em algum momento de sua carreira.

Mas as formigas com ferimentos graves são deixadas para trás. Ferimentos grandes podem ficar infeccionados com facilidade e espalhar doenças no ninho, especialmente levando em consideração que há pouca diversidade genética na família de formigas e quase todas teriam problemas com uma epidemia infecciosa.

5 bizarras formigas

Quem decide se o resgate vale a pena?

Neste trabalho, os pesquisadores tentaram descobrir se quem determina se o resgate será feito ou não são as socorristas ou as formigas machucadas.

Na pesquisa, 208 grupos de caçadoras foram observadas, de 16 colônias diferentes no parque nacional Comoe (Costa do Marfim). Eles escavaram 14 colônias e examinaram a população, verificando que cada colônia tem entre 900 a 2.300 indivíduos. Alguns deles foram levados para ninhos em um laboratório para ter o comportamento documentado.

Essas formigas foram expostas a outras formigas feridas para ver como elas reagiriam. Algumas das feridas haviam perdido apenas duas pernas, enquanto outras haviam perdido cinco. Os pesquisadores observaram que quem determina se o resgate será feito ou não é a formiga ferida, e não a socorrista. Dependendo de seu estado, a formiga machucada tinha comportamento diferente, comunicando à outra se ela deveria ser recolhida ou não.

As formigas menos feridas andavam mais lentamente e tropeçavam mais e ficavam em posição fetal quando outra formiga saudável a examinava. Essa posição provavelmente era escolhida por facilitar o transporte. Elas pareciam andar mais lentamente para chamar a atenção das companheiras, mas se eram ignoradas, continuavam acompanhando o ritmo das outras.

Já as formigas gravemente feridas se debatiam ferozmente, tornando impossível que as outras as carregassem. Depois de algumas tentativas, as formigas socorristas desistiam e iam embora. Esses insetos não tentavam se salvar.

Hospital das formigas

No ninho, as formigas paramédicas retiravam qualquer pedaço de cupim, como mandíbula, dos insetos machucados, e limpavam ferimentos abertos lambendo-os por vários minutos. É possível que a saliva delas seja antimicrobiana para ajudar a combater infecções.

Os resultados causariam inveja em qualquer hospital humano: apenas 10% das formigas que foram tratadas morreram. Sem tratamento, 80% das formigas feridas levemente morrem.

Já as que tinham ferimentos piores, receberam menos tratamento das formigas-enfermeiras, e quando ficava claro que não iriam se recuperar, eram levadas para fora do ninho e morriam em menos de 24 horas.

O próximo passo dos pesquisadores é investigar como a triagem é realizada. “Como as formigas sabem onde o ferimento está? Como sabem quando parar de tratar o ferimento?”, escrevem os autores. [Phys.org]

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