Formiga Infernal: fóssil brasileiro de formiga extinta é descoberto

Por , em 29.04.2025
Fotografia mostra o fóssil de uma formiga com 113 milhões de anos, preservado em calcário no nordeste do Brasil — o registro mais antigo de uma formiga já descoberto. Divulgação: Anderson Lepeco / Current Biology

Um fóssil intrigante de formiga infernal, datado da era Cretácea, foi descoberto em Myanmar, capturando um inseto entre suas mandíbulas e um chifre. Esta descoberta não só revela um vislumbre fascinante do passado antigo, mas também representa a primeira evidência de formigas infernais no megacontinente Gondwana, no hemisfério sul pré-histórico.

Formigas infernais no antigo gondwana

A descoberta deste fóssil é particularmente significativa porque amplia o entendimento sobre a distribuição geográfica das formigas infernais. Até então, os fósseis mais antigos dessas formigas haviam sido encontrados em Myanmar, conservados em âmbar, com aproximadamente 100 milhões de anos. Outros fósseis semelhantes foram desenterrados no Canada e na França, áreas que faziam parte do megacontinente do hemisfério norte, Laurasia.

Segundo o pesquisador Lepeco, a diversidade de formas e nichos que as formigas ocuparam em sua história inicial é notável. Elas não apenas se diversificaram rapidamente, mas também demonstraram uma incrível capacidade de migração e adaptação a diferentes continentes, espalhando-se por todo o globo.

Segundo o entomologista Anderson Lepeco, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e autor principal do estudo publicado nesta semana na revista Current Biology, a aparência do inseto poderia facilmente ser confundida com a de uma vespa por olhos não treinados. Lepeco também explicou que essas formigas provavelmente utilizavam suas mandíbulas para manipular suas presas de maneira específica.

O desaparecimento das formigas infernais

Durante a era Cretácea, um período de grande diversificação das formigas, surgiram linhagens únicas como as formigas infernais. No entanto, essas linhagens não deixaram descendentes após a transição para a era Cenozoica, cerca de 66 milhões de anos atrás, quando ocorreu o evento de extinção K-Pg, mais conhecido pelo impacto de um asteroide que extinguiu cerca de 76% da vida na Terra.

Reconstrução em microtomografia computadorizada do recém-descoberto Vulcanidris cratensis.

Christine Sosiak, entomologista do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa, que não participou desta nova pesquisa, observa que as formigas infernais desaparecem do registro fóssil no final do Cretáceo, há 78 milhões de anos. Até agora, depósitos fósseis próximos ao limite de extinção K-Pg não apresentam qualquer vestígio dessas formigas Ela sugere que é possível que tenham sido extintas durante o evento K-Pg, mas é um pouco mais plausível que sua extinção tenha ocorrido antes, dado o contexto ecológico e climático em mudança do Cretáceo.

A especialização que levou a extinção

Marek Borowiec, entomologista da Universidade Estadual do Colorado, que também não esteve envolvido na pesquisa, especula que a especialização extrema das formigas infernais em sua forma de caça pode ter sido sua ruína. Ele explica que, se elas dependiam de tipos específicos de alimento e tinham métodos de caça muito especializados isso teria limitado sua capacidade de diversificação e sobrevivência, caso esses alimentos se tornassem escassos ou desaparecessem.

Essas formigas infernais representavam um exemplo impressionante da diversidade de estratégias evolutivas que surgiram durante o Cretáceo. Infelizmente, como muitos outros organismos daquela época, elas não conseguiram sobreviver às dramáticas mudanças ecológicas que culminaram na extinção em massa que encerrou a era dos dinossauros. A natureza, com sua propensão para a inovação adaptativa, nos ensina que mesmo as estratégias mais engenhosas podem ser vulneráveis às mudanças repentinas.

Deixe seu comentário!