“Guerra contra as drogas” dos EUA tornou as piores, pesquisa confirma

Por , em 12.04.2019

A chamada “guerra às drogas” é um fracasso mundial. Mais do que isso: além de não funcionar, todos os esforços para combater o tráfico de entorpecentes nas últimas cinco décadas fez com que ele aumentasse e se espalhasse pelo mundo, aumentando o problema ao invés de solucioná-lo. As conclusões são de um estudo americano que associou o combate ao fluxo de cocaína para os Estados Unidos vindo da América do Sul à difusão das operações de tráfico de drogas ao redor do globo, o que as tornou mais difíceis de erradicar. A pesquisa foi publicada nesta semana na revista Proceedings of National Academy of Sciences.

“Este trabalho demonstra que as estratégias de combate às drogas do lado da oferta sozinhas, na melhor das hipóteses, são ineficazes e, na pior das hipóteses, intensificam o problema do tráfico”, diz o autor principal do estudo, Nicholas Magliocca, geógrafo da Universidade do Alabama, em matéria publicada no site da instituição.

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A abordagem usada pelos pesquisadores difere das abordagens anteriores porque modela dinâmicas de tráfego no nível local e em rede ao mesmo tempo. “É realmente surpreendente como o modelo corresponde às nossas observações. Nossa equipe é formada por pesquisadores que trabalharam em diferentes partes da América Central durante os anos 2000 e testemunharam um aumento maciço de drogas na região, que coincidiu com o revigoramento da guerra contra as drogas. Perguntamo-nos: o combate às drogas (nos EUA) levou os traficantes de drogas a esses lugares?”, questiona David Wrathall, geógrafo da Faculdade de Ciências Terrestres, Oceânicas e Atmosféricas da Universidade do Estado do Óregon (OSU), nos EUA, membro da equipe de pesquisa, em matéria publicada no site Technology Networks.

Para os pesquisadores, as descobertas são importantes porque, após cinco décadas, a guerra dos Estados Unidos contra as drogas ainda não se mostrou eficaz ou eficiente para lidar com o tráfico de cocaína. O estudo chega em um momento importante, já que o número de migrantes da América Central que tentam fugir para os EUA ou para outros lugares em função da violência relacionada às drogas em seus países de origem é cada vez maior.

Ação e reação

Os resultados, obtidos graças a um modelo de computador criado pelos pesquisadores chamado NarcoLogic, que mostra como os traficantes de drogas respondem a estratégias e táticas de combate ao tráfico, mostram que o tráfico de drogas se adapta facilmente às estratégias de combate usando uma estratégia muito simples: a mudança de lugar.

Os resultados mostram que as estratégias e táticas de combate ao tráfico usadas até aqui estão diretamente relacionadas à disseminação e fragmentação de rotas de tráfico. Quando os esforços são concentrados em um local, os traficantes de drogas simplesmente se mudam.

“Entre 1996 e 2017, a zona de trânsito do Hemisfério Ocidental cresceu de 2 milhões para 7 milhões de milhas quadradas, tornando mais difícil e custoso para a polícia monitorar e interromper as redes de tráfico. Mas como o tráfico se espalhou, isso desencadeou uma série de danos colaterais relacionados ao contrabando: violência, corrupção, proliferação de armas e extensa e rápida destruição ambiental, que tem sido o foco do meu trabalho”, diz Wrathall.

Desde que o governo Nixon lançou a guerra contra as drogas em 1971 e declarou que o abuso de drogas era o “inimigo público número 1”, os Estados Unidos gastaram estimados 1 trilhão de dólares em esforços de prevenção e repressão às drogas.

Isso inclui cerca de 5 bilhões de dólares por ano destinados apenas ao combate à cocaína, algo que não teve efeito sobre a oferta da droga ou seu preço, dizem os pesquisadores.

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“Os preços de cocaína no atacado nos Estados Unidos caíram significativamente desde 1980, as mortes por overdose de cocaína estão subindo e as forças de combate às drogas interceptam as remessas de cocaína a um ritmo baixo. Mais cocaína entrou nos Estados Unidos em 2015 do que em qualquer outro ano. E uma coisa que as pessoas que apoiam a proibição e aquelas que não apoiam podem concordar é que a mudança é necessária. Esse modelo pode ajudar a determinar como essa mudança deve ser”, sugere disse Wrathall.

A principal hipótese dos pesquisadores, confirmada ao comparar as previsões da NarcoLogic de onde, quando e como as remessas de cocaína foram traficadas de 2000-14 contra os padrões reais registrados nos bancos de dados, foi que as operações de tráfico não se tornaram mais difundidas e resilientes devido à ineficácia do combate às drogas, mas sim pelo simples fato da existência do combate às drogas.

“O estudo é uma vitória para a observação e a teoria. Este modelo recria com sucesso a dinâmica que nossa equipe havia observado. Isso nos diz que o aumento da proibição continuará a empurrar os traficantes para novas áreas, espalhando redes e permitindo que eles continuem a levar as drogas para o norte”, assegura Wrathall.

Guerra perdida

O novo estudo é apenas mais um dado científico mostrando que a guerra às drogas da forma como a conhecemos é uma causa perdida sob todos os aspectos. Alguns países do mundo, como o Uruguai e a Holanda (e mesmo alguns estados dos EUA) já caminham em direção a políticas de legalização e do tratamento do problema das drogas sob o ponto de vista da saúde pública. No Brasil, entretanto, este passo está longe de ser dado. Pelo contrário, o país caminha na direção oposta, apostando cada vez mais na repressão e em práticas que já se demonstraram ineficazes e contraproducentes.

Em março de 2018, uma resolução aprovada no então governo Temer dificultou ainda mais as coisas, ao desfazer políticas de redução de danos, sufocar o debate sobre a legalização e promover o aumento da repressão. Em matéria publicada no site da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo no início deste ano, pesquisadores mostram alguns dos aspectos do fracasso dessa política de drogas brasileira, inclusive do ponto de vista econômico..

“O professor do Departamento de Contabilidade e Atuária da FEAUSP Valmor Slomski afirmou que é possível observar o fracasso da política de drogas brasileira nos dados econômicos. ‘São Paulo tem 230 mil presos; desses, 85 mil são por tráfico’, disse. Calculando o custo total disso, o professor chegou ao número de 1 bilhão e 550 milhões de reais para o tesouro do Estado. Adiciona-se a esse valor R$ 32 milhões, custo anual resultante de todos os processos judiciais por tráfico, e temos o que o professor chama de “custo da hipocrisia”. Slomski ainda calculou a receita estimada de venda de drogas no estado: 12 bilhões e 900 milhões de reais, que, se tributados a valores de cigarro e álcool, resultariam em uma receita tributária de nove bilhões de reais por ano – destes, mais de um bilhão seriam destinados para os cofres do Estado de São Paulo”, aponta o texto.

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Outros especialistas apontam no mesmo texto outras incongruências da forma como as drogas são encaradas no Brasil. “Teresa Cristina Endo, professora de psicologia da PUC-SP e assessora técnica da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, explicou como as políticas de saúde pública relacionadas às drogas são precárias: ‘No Brasil, a história da saúde mental é movida pelo encarceramento das pessoas’. Na mesma linha, a convidada Maria Angélica Comis, vice-presidente do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas e Álcool, ressaltou que a criminalização só traz prejuízos para os usuários e para a população pobre: ‘O proibicionismo só esconde a real situação do uso de drogas’. Ambas concordaram que o modelo de redução de danos é o ideal – e que está longe de ser implantado no Brasil”.

O texto cita alguns exemplos de países que adotaram outro tipo de abordagem para lidar com a questão. Na Finlândia, por exemplo, o tratamento de pacientes é feito juntamente com a família do usuário e com o acompanhamento de um profissional de saúde mental. Estados brasileiros possuem ou já possuíram programas parecidos, focados na redução de danos, mas não é incomum que estes sofram cortes de verbas ou sejam desligados. [Science Alert, Technology Networks, Universidade do Alabama, Fea-USP]

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