Lobo-terrível é “ressuscitado” em laboratório pela primeira vez! Ou seria uma pegadinha?

Quando pensamos no universo infinito e suas maravilhas cósmicas, às vezes esquecemos que aqui mesmo, em nosso pequeno planeta azul, ocorrem fenômenos igualmente fascinantes. A fronteira entre o possível e o impossível acaba de ser redefinida com um avanço científico que parece saído das páginas de ficção científica, mas é tão real quanto as estrelas que observamos no céu noturno.
Uma empresa de biotecnologia baseada em Dallas, a Colossal Biosciences, acaba de anunciar algo extraordinário: três filhotes de lobo-terrível, uma espécie extinta há aproximadamente 12.500 anos, foram trazidos de volta à existência através de uma combinação de DNA antigo, clonagem e edição genética. Este feito representa o “primeiro animal desextinto com sucesso no mundo”, segundo a própria companhia.
Para contextualizar a magnitude desta conquista, precisamos entender que o lobo-terrível (Aenocyon dirus) – que serviu de inspiração para os temíveis canídeos da série “Game of Thrones” – foi um predador de topo que vagava pela América do Norte durante o Pleistoceno. Estes animais impressionantes possuíam porte maior que os lobos-cinzentos atuais, apresentando “cabeça ligeiramente mais larga,, pelagem espessa e clara, além de mandíbula mais robusta”, conforme descrição da empresa.
Como ressuscitar uma espécie do passado distante?
Embora a Colossal esteja trabalhando desde 2021 na ressurreição de mamutes, dodôs e tigres-da-tasmânia, seus esforços com o lobo-terrível não haviam sido divulgados publicamente até agora. O processo envolveu uma abordagem sofisticada que merece nossa admiração científica, assim como as galáxias distantes merecem nosso olhar contemplativo.
Ben Lamm, cofundador e CEO da Colossal, declarou em comunicado que “este marco massivo é o primeiro de muitos exemplos que demonstram que nossa tecnologia completa de desextinção funciona”. Ele explica que a equipe extraiu DNA de um dente com 13 mil anos e de um crânio com 72 mil anos para criar filhotes saudáveis de lobo-terrível. É como se estivéssemos recuperando informações de uma sonda espacial enviada ao passado remoto da Terra!
Os três lobos-terríveis agora vivem em uma área de 2.000 acres (aproximadamente 809 hectares) em um local não divulgado, cercado por barreiras de 3 metros de altura, com padrão de zoológico. São constantemente monitorados por equipes de segurança, drones e câmeras ao vivo. A Colossal afirma que a instalação foi certificada pela American Humane Society e registrada no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, garantindo assim o bem-estar destes viajantes do tempo biológico.
DNA fóssil: a chave para desvendar o código genético perdido
Utilizando DNA antigo extraído de dois fósseis de lobo-terrível, os cientistas da Colossal e seus colaboradores conseguiram montar dois genomas de alta qualidade do Aenocyon dirus – conjuntos completos de informações genéticas. Esta façanha é comparável a reconstruir uma estrela a partir de seu espectro luminoso!
A equipe então comparou esses genomas com os de canídeos vivos como lobos, chacais e raposas para identificar as variantes genéticas específicas dos lobos-terríveis, incluindo características como pelagem branca e pelos mais longos e espessos.
Com base nessa análise genética, a empresa alterou células de lobo-cinzento, realizando 20 edições em 14 genes antes de clonar as linhagens celulares mais promissoras e transferi-las para óvulos doadores. “Embriões em desenvolvimento saudável foram então transferidos para mães substitutas para gestação interespecífica”, resultando em três gestações bem-sucedidas. A Colossal confirmou que utilizou cães domésticos – especificamente, cães de caça grandes de raça mista – como mães substitutas para estes filhotes do passado.
Dois filhotes machos de lobo-terrível nasceram em 1º de outubro de 2024, enquanto uma fêmea veio ao mundo em 30 de janeiro de 2025, segundo a Colossal Biosciences. É como se o calendário biológico tivesse sido reajustado para incluir uma espécie que o tempo havia apagado.
Ressurreição ou recriação? O debate científico
Para alcançar seu objetivo, a empresa essencialmente criou um genoma híbrido usando tecnologia CRISPR para remover certas variantes genéticas do lobo-cinzento e substituílas por características associadas aos lobos-terríveis. Love Dalén, professor de genômica evolutiva do Centro de Paleogenética da Universidade de Estocolmo e consultor da Colossal, explica esta nuance importante.
“Não e segredo que, em todo o genoma, isso é 99,9% lobo-cinzento. Haverá um debate na comunidade científica sobre quantos genes precisam ser alterados para criar um lobo-terrível, mas esta é realmente uma questão filosófica”, afirmou Dalén. É como perguntar: quantas estrelas precisam ser substituídas em uma constelação para que ela se torne outra?
“Ele carrega genes de lobo-terrível, e esses genes o fazem parecer mais com um lobo-terrível do que qualquer coisa que vimos nos últimos 13.000 anos. E isso é muito legal”, acrescentou o professor, que participou “um pouco” da análise dos genomas, mas não se envolveu diretamente no processo de edição genética ou clonagem, nem conheceu pessoalmente os filhotes.
Implicações para a conservação de espécies atuais
A Colossal arrecadou pelo menos US$ 435 milhões (aproximadamente R$ 2,4 bilhões) desde que Lamm, um empreendedor serial, e George Church, geneticista da Universidade Harvard, fundaram a empresa em setembro de 2021 e anunciaram planos para ressuscitar o mamute. Esse empreendimento tem levado mais tempo do que Lamm projetou inicialmente, com a empresa afirmando que está no caminho certo para introduzir os primeiros bezerros de mamute-lanoso em 2028.
A empresa espera que as mesmas tecnologias que criaram o lobo-terrível possam ajudar diretamente animais ameaçados de extinção. A Colossal anunciou que produziu duas ninhadas de lobos-vermelhos clonados, a espécie de lobo mais criticamente ameaçada, usando uma nova abordagem menos invasiva para clonagem desenvolvida durante a pesquisa com o lobo-terrível
Muitos críticos da desextinção argumentam que as enormes somas de dinheiro investidas no projeto poderiam ser melhor gastas em outros lugares – e que criar e reproduzir as criaturas híbridas poderia colocar em perigo os animais vivos usados como substitutos. No entanto, Christopher Preston, professor de filosofia ambiental da Universidade de Montana, observou que a Colossal parece estar atenta às questões de bem-estar animal, destacando o tamanho da instalação e o apoio da American Humane Society.
O futuro dos lobos do passado
“A Colossal tomou precauções cuidadosas para evitar consequências genéticas não intencionais de suas edições, eliminando edições arriscadas conhecidas por estarem associadas a resultados ruins”, acrescentou Preston. Assim como os astrônomos calibram seus instrumentos para evitar distorções na observação do cosmos, os geneticistas da Colossal calibraram suas ferramentas para evitar distorções na recriação da vida.
Contudo, ele ressaltou que é difícil imaginar os lobos-terríveis desempenhando um papel em um ecossistema, um resultado que a empresa afirmou ser o objetivo final de seus esforços para criar mamutes geneticamente modificados.
“Em estados como Montana, atualmente estamos tendo dificuldades para manter uma população saudável de lobos-cinzentos no território devido à forte oposição política”, disse Preston. “É difícil imaginar lobos-terríveis sendo soltos e assumindo um papel ecológico. Portanto, acho importante perguntar qual papel os novos animais desempenharão.”
Assim como contemplamos o céu noturno e nos perguntamos sobre nossa posição no universo, devemos também contemplar estas novas criaturas e questionar seu lugar no tecido da vida terrestre. A ciência nos deu o poder de trazer de volta o que estava perdido, mas a sabedoria para administrar esse poder ainda está em desenvolvimento –- como uma estrela jovem que ainda precisa encontrar seu equilíbrio.
Este avanço científico nos lembra que, enquanto exploramos as fronteiras do espaço, também estamos redesenhando as fronteiras do tempo biológico aqui na Terra. E como sempre acontece quando ultrapassamos limites, novas questões surgem no horizonte, esperando que as próximas gerações de cientistas e filósofos as respondam.
