Luto não é doença

Por , em 22.02.2012

Segundo editores da revista médica The Lancet, o sofrimento não é uma doença. Eles argumentam que tratar medicamente uma emoção humana normal é uma atitude não apenas perigosamente simplista, mas também falha.

Para os médicos tentados a prescrever pílulas, “seria melhor oferecer tempo, compaixão, memórias e empatia”, escrevem.

Os cientistas estão preocupados com movimentos que apareceram para categorizar emoções extremas como problemas que precisam de “conserto”.

Os temores foram provocados pela mais nova versão proposta pelos psiquiatras da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM-5. Embora este manual não seja utilizado por todos os psiquiatras do mundo, ainda é considerado influente.

Os cientistas também estão preocupados com as alterações propostas pela Organização Mundial de Saúde, para incluir uma categoria de “transtorno de dor prolongada” em sua Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Esta classificação é usada por muitos psiquiatras.

Eles observaram que o projeto do DSM-5 contém a “não exclusão de luto” antes do diagnóstico de um “transtorno depressivo maior”.

Eles relatam que isso “significa que os sentimentos de tristeza profunda, insônia, choro, incapacidade de concentração, cansaço e falta de apetite, que continuem por mais de duas semanas após a morte de um ente querido, podem ser diagnosticados como depressão, em vez de ser considerada uma reação normal ao luto”.

Muitos especialistas não concordam em tratar a dor do luto medicamente, usando o tratamento rotineiro com antidepressivos.

“O sofrimento não é uma doença, é mais útil pensar no luto como parte do ser humano e uma resposta normal à morte de um ente querido. Para aqueles que estão sofrendo, os médicos fariam melhor se oferecessem tempo, compaixão, lembrança e empatia ao invés de pílulas”, argumentam.

A Drª. Astrid James, vice-editora da revista The Lancet, disse que parece “muito cedo” para classificar alguém como doente mental apenas duas semanas após a morte de um ente querido. Ela acrescenta: “Precisamos ter cuidado para não tornar apenas médicas experiências que na verdade fazem parte da vida normal, e assegurar que as pessoas possam lamentar uma morte ao invés de serem reprimidas ou tratadas”.[Telegraph]

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5 comentários

  • marta simone david nichthauser:

    Viver um dia de cada vez. Aceitar a perda como parte da vida. Tudo passa, e com o tempo tudo se abranda.As cicatrizes ficam, como troféus de um passado ido e vivido. Luto não é doença, luto é sentimento e cada um tem o seu. Classificar o luto de doença é precificar a perda.

  • Flor de Lis:

    Acredito que vivenciar o luto seja o mais recomendado no momento em que se perde alguém querido. Assim como um momento feliz é vivenciado o luto tbm deve ser, para que futuramente o indivíduo não tenha uma explosão de sofrimento pior do que a que teria se tivesse vivido o luto em vez de reprimi-lo. Penso que o amor da família, dos amigos, a compreensão de todos e o auxílio mútuo é o melhor de todos os tratamentos. Com o passar do tempo a dor se transforma em saudade, mas sem desespero. E como disse alguém uma vez: a gente nunca deixa de sentir saudade, a gente apenas se acostuma com ela.

  • Marinea:

    O luto, a dor da perda, faz parte da vida, e precisamos aceitar que o ser humano é completo e complexo, e não apenas sorrisos e bem estar. Aceitar o luto é poder superá-lo, medicamentar é torná-lo inaceitável.

    • OLINDA:

      FÁCIL FALAR PARA QUEM NÃO ENTERROU O PRÓPRIO FILHO, NÉ!!!

  • Paulo Eduardo:

    De novo essa questão de transformar comportamentos naturais em doença!! Esses cientistas não tem compaixão não? Será que uma pessoa tem que ficar de luto em um dia e acordar com um sorriso na cara no outro dia? É preciso respeitar o tempo de recuperação de cada um e perder uma pessoa querida não é fácil para muitos que amam de verdade!!

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