Decisão “esquisita” de médico está melhorando a segurança em centros cirúrgicos

Por , em 8.03.2019

De vez em quando, mudanças pequenas e simples na forma que fazemos coisas corriqueiras podem trazer grandes consequências positivas. Um dia, o anestesista australiano Rob Hackett apareceu no centro cirúrgico usando uma touca cirúrgica com duas palavras escritas em letras garrafais: “ROB” e “ANESTESISTA”.

O resto da equipe, especialmente os profissionais mais antigos, não perderam tempo para tirar sarro dele. “Você não se lembra do seu próprio nome?”, questionaram alguns, dando risada. Mas havia uma razão muito mais importante por trás de sua decisão de inventar moda. Ele queria evitar confusões em momentos de estresse e emergências.

“Em uma parada cardíaca em um centro cirúrgico com cerca de 20 pessoas, eu tive dificuldade para pedir que alguém me passasse umas luvas porque a pessoa para quem eu estava apontando pensou que eu estava apontado para a pessoa que estava atrás dela”, relembra Hackett. “É muito mais fácil coordenar as coisas quando você sabe o nome de todos”.

Um dos pontos do checklist de todas as cirurgias de todos os hospitais do mundo diz que a equipe tem que se apresentar antes de começar o procedimento. Mas isso raramente acontece, e de qualquer forma nem sempre é fácil lembrar do nome de pessoas novas.

Uma cirurgia comum pode reunir cerca de 20 profissionais em um centro cirúrgico entre instrumentadores, circulantes, cirurgiões e anestesista. Todos eles usam máscara, touca, avental e o resto do aparato de higiene e proteção. Então como diferenciar um do outro para haver uma boa comunicação e trabalho em equipe?

Desafio da touca


“O #DesafioDaToucaDeCirurgia é uma iniciativa da Rede de Segurança de Pacientes em resposta a preocupações sobre como erros facilmente evitáveis e comunicação ruim que estão contribuindo para o aumento de eventos adversos em nossos pacientes”, esclareceu Hackett.

Segundo o médico, estudos nos EUA e no Reino Unido demonstram que essa simples ideia pode reduzir erros humanos nos cuidados médicos. “Estudos do Reino Unido mostraram aumento da lembrança do nome da equipe de 42 para 85%, e aumento de apresentações durante o checklist cirúrgico de segurança de 38 para 90%. Simulações na Universidade Stanford nos EUA demonstrou grande aumento de eficiência de comunicação”.

A fácil identificação da equipe cirúrgica também é muito positiva para parturientes e seus acompanhantes durante o parto. As pacientes se sentem mais seguras ao conseguir identificar as pessoas ao seu redor.

No desafio, profissionais do meio médico do mundo inteiro estão compartilhando selfies no Twitter com a hashtag #TheatreCapChallenge. Eles afirmam que essa simples medida pode economizar segundos vitais em situações de vida ou morte.

Economia financeira


A ideia também traz economia financeira. O modelo de touca com o nome impresso ou bordado é de tecido, e pode ser lavada e reutilizada várias vezes. Assim, a equipe deixaria de usar as toucas descartáveis. “Um hospital com 20 centros cirúrgicos vai descartar mais de 100 mil toucas todo ano. Essas toucas são feitas de viscose, uma substância cuja produção é particularmente prejudicial ao meio ambiente”.

Embora seja possível aplicar fitas de curativo ou escrever diretamente na touca descartável, o resultado visual não é tão bom quanto o nome aplicado no tecido.

Piadas e rejeição

Hackett acredita que o motivo das piadas e da rejeição principalmente dos profissionais mais antigos pode ser explicada pela dissonância cognitiva. “Ela afeta as pessoas que se sentem definidas por suas decisões, frequentemente aqueles no topo da hierarquia. Para aceitar mudanças, eles vão precisar aceitar que o que estava acontecendo anteriormente não era bom. Isso pode significar que eles precisam aceitar que nós prejudicamos pessoas, até matamos pessoas por anos, e isso pode ser muito difícil de encarar”, explica Hackett. [Bored Panda]

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