Cidade australiana erradica a dengue com programa inovador

Por , em 3.08.2018

A dengue está longe de ser um problema apenas para o Brasil. A doença tem avançado globalmente em tempos recentes. No entanto, uma cidade na Austrália – país que sofre com índices recordes de contaminação com 2.000 pessoas infectadas apenas no ano passado – conseguiu reverter essa tendência e erradicar a doença por completo.

Desde 2014 a cidade de Townsville, no estado australiano de Queensland, não registra um caso sequer de dengue. A solução encontrada foi liberar milhões de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, tornando-os incapazes de transmitir o vírus da dengue.

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O projeto

Nesta cidade de apenas 187.000 habitantes, pesquisadores da Universidade Monash em parceria com o World Mosquito Program fizeram dos próprios residentes locais os agentes nessa empreitada. O projeto recrutou 7.000 famílias na área metropolitana da cidade para abrigar uma pequena cuba de ovos de Aedes aegypti infestados de Wolbachia. Eventualmente, 4 milhões de mosquitos infectados se misturaram com a população selvagem e espalharam a bactéria durante os períodos de acasalamento. O artigo dessa pesquisa foi publicado no Gates Open Research.

Os pesquisadores australianos afirmam que esta foi a primeira vez que a dengue foi completamente erradicada em uma cidade inteira.

Para além da dengue

Esses resultados promissores colocam agora a atenção em outras doenças causadas pelo mesmo mosquito. Os pesquisadores acreditam que seja possível obter resultados semelhantes no combate à zica e chikungunya. “Nós queremos causar um impacto significativo sobre essa doença. Quando o assunto é dengue e zica, nada está funcionando em termos de controle. Há evidências de índices crescentes da doença bem como uma grave pandemia de zica que se espalhou pelas Américas recentemente e pelo resto do mundo”, disse Scott O’Neill, diretor do World Mosquito Program, em matéria publicada no site do jornal The Guardian.

Pesquisadores liberam centenas mosquitos da dengue infectados com bactéria

O mesmo projeto já está em andamento na cidade no Rio de Janeiro, onde os mosquitos já foram liberados nas áreas mais críticas da cidade. No entanto, ainda que a tecnologia seja promissora, suas experiências até o momento foram majoritariamente em áreas de no máximo 1.5 km². A cidade de Townsville foi a primeira experiência bem-sucedida em larga-escala, abarcando uma área total de 65 km². Além do Rio de Janeiro, o projeto já atua em 12 países, em diferentes estágios de progresso desde pesquisa até a liberação do mosquito infectado, tais como em Medellín na Colômbia e em Jogjacarta na Indonésia.

No longo prazo, se o uso da bactéria Wolbachia for comprovadamente seguro e eficaz, o próximo passo está no combate à malária. A doença afetou 216 milhões de pessoas em 2016 ao redor do mundo, causando 445.000 mortes. “Existem dados laboratoriais que mostram que essa investida pode ser eficaz também no combate à malária, mas isso é algo para o futuro “, disse O’Neill.

Outras Tentativas

Esta não é a primeira experiência científica que tenta erradicar a dengue através da modificação dos próprios mosquitos. Pesquisas genéticas já experimentaram com mosquitos resistentes ao vírus ou mosquitos machos que morrem com o tempo, o que levaria a uma queda vertiginosa na quantidade dos insetos. A própria bactéria Wolbachia poderia ser usada para infectar apenas os machos e quaisquer ovos fertilizados com fêmeas não infectadas seriam estéreis, o que também causaria uma eventual extinção do mosquito.

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O método Wolbachia do World Mosquito Program, no entanto, apresenta várias vantagens. Modificação genética é um assunto polêmico e pode esbarrar em reações públicas. Da mesma forma, a erradicação do próprio mosquito pode gerar impactos negativos no meio ambiente. O World Mosquito Program defende que seu projeto tem pouco impacto no meio ambiente uma vez que a bactéria Wolbachia já se espalha naturalmente pelo mundo mundo, com pouco risco de espalhar um patógeno para outras espécies.

Uma outra vantagem está no custo. Atualmente o programa custa em torno de $15 por pessoa, mas os pesquisadores já planejam formas de reduzir este valor para $1 por pessoa, facilitando a sua implantação em regiões mais pobres do mundo, justamente onde existe maior urgência. [The Guardian, Smithsonian, BBC]

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1 comentário

  • Theo Miliani:

    E mais uma vez, o dia foi salvo…Graças as meninas super poderosas!!!!!

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