Este tipo de música pode reduzir o enjoo por movimento em até 50%, segundo a ciência

Por , em 30.10.2025

Viajar de carro, ônibus, navio ou avião é um sonho para muitos, mas para uma boa parcela da população pode se transformar em um verdadeiro tormento. Estima-se que uma em cada três pessoas seja altamente vulnerável ao enjoo de movimento, aquele desconforto que mistura náusea, tontura e a sensação de que o corpo não acompanha a paisagem pela janela. Felizmente, uma pesquisa recente trouxe uma solução inesperada: a trilha sonora certa pode ser tão eficaz quanto um remédio, sem os efeitos colaterais sonolentos.

Música como remédio inesperado

Pesquisadores do Henan Institute of Science and Technology, na China, publicaram em setembro de 2025 seus achados no periódico Frontiers in Human Neuroscience. O estudo analisou como diferentes estilos musicais poderiam atenuar os sintomas de enjoo em voluntários submetidos a simulações de viagem.

A equipe utilizou eletroencefalogramas (EEG) para monitorar a atividade elétrica cerebral de 30 participantes durante uma experiência de direção simulada. Esse método permitiu identificar, em tempo real, os momentos em que os voluntários estavam mais propensos a sentir o desconforto. Com esses dados, os cientistas criaram um modelo computacional capaz de reconhecer os sinais do mal-estar.

Quando o sistema já detectava o enjôo, os pesquisadores testavam quatro categorias musicais: faixas alegres, tristes, agitadas e suaves. O desempenho foi comparado com um grupo de controle que descansava em silêncio.

O poder das melodias certas

Os resultados mostraram que músicas suaves reduziram os sintomas em 56,7% e canções alegres em 57,3%. Ou seja, quase metade do incômodo desapareceu apenas com a escolha da trilha sonora. As músicas agitadas ajudaram um pouco menos, enquanto as tristes se mostraram um verdadeiro “tiro no pé”, provocando até mais desconforto do que o silêncio absoluto.

Segundo os autores, o efeito pode estar ligado a dois mecanismos distintos: enquanto melodias suaves relaxam a mente e diminuem a tensão corporal que intensifica o enjoo, as músicas alegres distraem e acionam o sistema de recompensa do cérebro. Aquelas baladas melancólicas, por sua vez, tendem a amplificar emoções negativas e agravar o problema.

Vale lembrar que cerca de 70% dos astronautas já relataram algum grau de enjoo espacial, mostrando que o fenômeno não se restringe às estradas ou mares agitados. Nesse contexto, imaginar uma playlist especial para missões à Lua ou a Marte deixa de soar como brincadeira e passa a ser uma estratégia plausível.

Limitações e possibilidades futuras

Apesar de animador, o estudo tem limitações. Foram apenas 30 voluntários e a simulação aconteceu em ambiente virtual, não em um ônibus lotado ou em um barco balançando nas ondas do Pacífico. Ainda assim, o pesquisador Qizong Yue, da Southwest University e coautor do trabalho, afirmou que a música pode se consolidar como uma intervenção não invasiva, acessível e personalizada.

Em termos práticos, isso significa que, em vez de recorrer imediatamente a remédios que causam sonolência, como os anti-histamínicos, o viajante poderia simplesmente dar o play em sua playlist de faixas calmas ou divertidas. Claro que não elimina a necessidade de soluções médicas em casos graves, mas abre espaço para um recurso complementar promissor.

Além disso os cientistas destacam que os princípios teóricos que explicam o enjoo — relacionados ao conflito entre os sinais visuais e vestibulares — valem para qualquer meio de transporte. Ou seja, não importa se você está em um avião cruzando o Atlântico ou em um carro na estrada da Graciosa, o efeito da musica provavelmente será semelhante.

Outras técnicas para reduzir o enjoo por movimento

Embora a música tenha mostrado resultados promissores, existem outras formas já conhecidas e estudadas para diminuir os sintomas de enjoo em viagens.

Uma das mais recomendadas é manter o olhar fixo no horizonte ou em pontos estáveis do ambiente. Essa prática ajuda a alinhar as informações visuais com o sistema vestibular, reduzindo o conflito que gera o desconforto. Outra dica prática é escolher assentos estratégicos: no meio do navio, próximo às asas do avião ou no banco da frente do carro, onde os movimentos são menos intensos.

Alguns estudos também sugerem que gengibre pode ser eficaz no controle das náuseas. Cápsulas, balas ou até chá feito com a raiz são opções usadas há séculos em diferentes culturas. Além disso, evitar leituras prolongadas ou o uso de celulares em veículos em movimento pode fazer diferença, já que a discrepância entre o que os olhos focam e o movimento real costuma intensificar o mal-estar.

Respirar profundamente e de maneira ritmada, manter uma boa hidratação e fazer pausas regulares em viagens longas são medidas simples que ajudam. Em casos mais severos, os remédios tradicionais continuam sendo uma alternativa, mas sempre devem ser usados com acompanhamento médico.

Misturar técnicas pode ser ainda mais eficaz: imagine combinar uma playlist de músicas relaxantes com um saquinho de gengibre e o olhar voltado ao mar calmo. É quase transformar a viagem em uma experiência sensorial controlada — e com menos lembranças desagradáveis.

Sempre achei curioso como pequenos estímulos conseguem transformar completamente a experiência de uma viagem. Se antes bastava um saco de balas de hortelã para enganar o estômago, agora sabemos que algumas boas canções podem reduzir quase pela metade o sofrimento. A ciência confirma aquilo que qualquer adolescente já intuiu no banco de trás do carro: com fones de ouvido e a música certa, a jornada se torna muito mais suportável.

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