Nova pesquisa aponta para cães-guaxinim em mercado de Wuhan como desencadeadores da pandemia

Por , em 20.09.2024

Um estudo recente levanta a possibilidade de que cães-guaxinim vendidos no mercado de Wuhan estejam no centro da origem da pandemia de COVID-19. Os resultados são polêmicos e alimentam o debate sobre como o vírus realmente se espalhou. Publicada na revista científica Cell, a pesquisa detalha como esses pequenos parentes das raposas, conhecidos por serem suscetíveis ao coronavírus, foram vendidos ao lado de outras espécies exóticas no mercado Huanan, o suposto local onde o surto começou.

Embora os cães-guaxinim possam parecer fofos, especialmente com suas carinhas semelhantes às de guaxinins, a ciência está menos interessada em sua fofura e mais em seu papel potencial como hospedeiros do vírus. A equipe de pesquisadores, que inclui renomados cientistas como Michael Worobey e Angela Rasmussen, analisou amostras genéticas coletadas no mercado de Wuhan, mostrando que o SARS-CoV-2, o vírus causador da COVID-19, coexistia com a presença de humanos e animais vulneráveis ao vírus em uma área específica do mercado.

O estudo não traz evidências definitivas de que os animais estivessem infectados, mas a equipe de cientistas acredita ser a hipótese mais plausível. Kristian Andersen, especialista em genômica de doenças infecciosas do Scripps Research Institute e coautor do estudo, afirma que o surgimento do vírus nesse cenário se encaixa nos dados, especialmente depois que o governo chinês compartilhou informações detalhadas em 2022. Para Andersen, os testes genéticos revelam uma coincidência perigosa entre a presença desses animais exóticos e a propagação inicial do vírus.

Essa investigação recente não é a primeira a relacionar o mercado de Wuhan ao início da pandemia. Em janeiro de 2020, amostras foram colhidas de superfícies em estandes de venda no mercado, que já havia sido fechado pelas autoridades de saúde chinesas. Essas amostras mostraram a presença tanto de material genético de animais exóticos quanto de RNA viral do SARS-CoV-2, reforçando a ideia de que a transmissão pode ter ocorrido entre humanos e animais selvagens.

No entanto, críticos, como Jamie Metzl, argumentam que os dados coletados são insuficientes. Metzl, um estudioso da genética e tecnologia, ressalta que as amostras foram coletadas de uma área específica do mercado, criando um viés na análise. Outros cientistas que compartilham dessa visão afirmam que a hipótese de vazamento de laboratório, vinda do Instituto de Virologia de Wuhan, não deve ser descartada.

A pesquisa também trouxe à tona algumas curiosidades sobre o mercado de Wuhan. A seção sudoeste, conhecida por vender animais exóticos vivos, parecia um zoológico improvisado. Entre as espécies à venda, estavam marmotas, ratos-bambu, porcos-espinhos malaios e os já mencionados cães-guaxinim. Fotografias tiradas em 2014 por Eddie Holmes, da Universidade de Sydney, mostram essas criaturas em gaiolas, empilhadas em um ambiente sombrio. Cinco anos depois, esse mesmo mercado se tornaria o foco de uma investigação global sobre a origem de uma pandemia.

Cães-guaxinim mantidos em gaiolas à venda na Barraca A do mercado úmido de Wuhan. A foto foi tirada em 29 de outubro de 2014. Créditos: Eddie Holmes, Universidade de Sydney, Austrália

Mesmo sem a famosa “cena do crime” – como um vídeo de um cão-guaxinim espirrando em um vendedor – os cientistas acreditam que os dados genéticos revelam uma imagem convincente do que pode ter acontecido. Michael Worobey, da Universidade do Arizona, destaca que as pistas genéticas, ainda que imperfeitas, alinham-se com o que seria esperado se a transmissão do vírus tivesse realmente ocorrido no mercado.

Embora muitos detalhes ainda estejam sendo debatidos, a investigação traz uma narrativa sólida sobre como a COVID-19 pode ter surgido. Para Worobey e sua equipe, o mercado de Wuhan foi o cenário perfeito para que um vírus exótico se espalhasse em meio a uma metrópole agitada. Eles acreditam que, mesmo sem provas definitivas, há muitas evidências sugerindo que o salto do vírus de animais para humanos ocorreu ali.

Ainda assim, os cientistas reconhecem que a ausência de provas diretas deixa espaço para incertezas. Como afirma Worobey, o quadro é incompleto, mas traz mais informações do que temos sobre muitas outras pandemias, como a gripe espanhola ou o surto de H1N1 em 2009. Para ele, o mercado de Wuhan exemplifica um perigo antigo que especialistas de saúde pública sempre alertaram: a mistura de animais selvagens e vírus em grandes centros urbanos. [NPR]

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