O poder do mito – um convite à reflexão

Por , em 14.07.2014

Qual é o impacto da mitologia sobre o pensar e o sentir do século XXI

Como prometido trago nesse artigo o tema de uma de minhas palestras, apresentada na edição brasileira do MEGACON 2014 que ocorreu em Curitiba no dia 5 de julho último.

Esse tema compõe um ciclo de cinco palestras que aborda o contraponto entre o pensamento científico e as diversas explicações da realidade oriundas de outras formas de pensar, tais como o mítico,  religioso, filosófico, bem como aquele obtido pelo senso comum.

Ao contrário do que o título quer significar, não uso os mesmos pressupostos adotados pelo filósofo e linguista Joseph Campbell que busca destacar a importância da simbologia e do despertar da sensibilidade que o mito invoca. Esse poder de encantamento que toda boa narrativa desperta. Procurarei, como redenção, explorar essa ideia em artigos futuros.

Nessa primeira palestra do ciclo, que é uma das mais rápidas (cerca de 40 minutos) costumo convidar o público à reflexão, destacando primeiramente o mau uso que se pode fazer desse poder de encantamento que o mito exerce sobre as pessoas.

Atualmente conceituamos o mito como sendo o conjunto de histórias, geralmente fantasiosas, de caráter popular ou religioso de uma dada cultura que objetiva a explicação de acontecimentos ou fenômenos complexos que ultrapassam a capacidade de entendimento dessa mesma cultura.

O mito invariavelmente está associado a essa cultura, como é o caso, por exemplo, da cultura Grega.

Chamo a atenção, no entanto, para uma mitologia muito mais antiga que a Grega:

A mitologia egípcia.

Chega até nós, por meio de papiros ou em páginas de pedra, muito de sua exuberância e fecundidade.

Para citar apenas um exemplo, tomemos a Alquimia:

É uma arte sagrada que se fundamenta na saga de uma figura mitológica — o deus Thot — que se alça aos céus com asas de luz para receber o poder dos deuses e então retornar à Terra para comunicar e ensinar esse poder aos homens.

Essa narrativa fantástica parece ter bebido em fontes muito mais antigas oriundas da mesopotâmica ou da Pérsia, identificada com o fenício Cadmo ou o semita Enoque, e mesmo até na China antiga na personificação de outra entidade mitológica, Fo Hi, o criador do I Ching ou O Livro das Mutações.

Dá para se perceber nas asas dos Akpallus mesopotâmicos, ou nas de Mercúrio ou Hermes trismegistus as mesmas asas de Thot e também naquelas que fazem os anjos bíblicos subirem aos céus.

Seriam simples coincidências?

No entanto o enumerar das coincidências existentes entre essas cinco mitologias são tão abundantes e desconcertantes que até o historiador mais cético desconfia se tantos elementos em comum seriam frutos da casualidade ou se seriam na verdade resultados de um sincretismo mítico-religioso oriundo de uma fonte única, ou um centro irradiador, cujos conhecimentos prodigalizados foram se tergiversando com o tempo.

Esse mistério ainda pede para ser desvendado.

No entanto sobre a arte da terra negra, referindo-se ao ideário alquímico, temos que chega até nós — numa forma até certo ponto deturpada — seus preceitos medulares:

A alquimia propunha a execução do “magisterium” — um receituário para a preparação da pedra filosofal, ou seja, o grande e poderosíssimo agente alquímico a partir do qual o alquimista seria capaz de realizar muitos prodígios, tais como a produção:

1) de ouro sintético tão precioso quanto o natural – oriundo de formas menos nobres de metais como a prata, o chumbo e o ferro.

2) de um elixir da longa vida – uma poção da juventude que permitiria o alquimista viver indefinidamente sem jamais envelhecer.

3) de um remédio capaz de curar todas as doenças (a célebre panaceia) Assim, de posse da pedra filosofal — de um golpe — o alquimista se tornaria capaz de vencer três das principais mazelas físicas da humanidade: a pobreza, a doença e a velhice.

Quem não gostaria de ter em mãos tal preciosidade?

Ora, de uma forma alegórica, podemos inferir que a Tecnologia Química — como já dissemos aqui — é fiel ao ideário de sua predecessora: prolongando a vida e postergando a velhice por meio de medicamentos e cirurgias; além de gerar toda uma sorte de riquezas pela simples manipulação da matéria.

No entanto, observamos que o pensamento mítico se confunde com a realidade e que persiste entre nós a ilusão de que existe um jeito mágico de fazer as coisas.

O termo magisterium, que traduz essa arte alquímica de fazer com que o Universo se curve perante a nossa vontade, derivou-se por corruptela da palavra persa “magi” (sábio) de onde surgiu “magister”, “magistério”, “mestre” e também o vocábulo “mago”. Que interessante coincidência!

Mais uma para nossa lista.

Para milhões de pessoas no mundo a magia não é mito. É pura verdade!

Lembre-se que o mito pode ser um fantasioso e belíssimo tapume que usamos para disfarçar a feldade de nossa ignorância.

Mas mesmo assim nos entregamos a ele.

Porém, não quero discutir esse mérito. Entraremos no campo da crença.

E como já disse aqui tantas vezes, cada um tem a liberdade de acreditar no que achar certo e válido. Quem sou eu para questionar esse direito?

Quero apenas chamar a atenção ao poder desse pensamento que perdura por milhares de anos em nossa civilização.

Por milhares de anos! O mesmo pensamento!

A mesma ideia que faz com que procuremos soluções milagrosas para os nossos problemas. Ouvimos do senso comum:

Não, eu não quero emagrecer.Eu quero ser emagrecido.

– Eu quero enriquecer! Mas sem nenhum esforço, por favor!

Mas será que o poder do mito se revestirá apenas nesse elixir que substitui e inebria nossa capacidade de alcançar a verdade?

Eu compartilho a opinião de Bill Moyers de que “mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido e de significação”.

Assim, quero convidar cada um a realizar essa simples reflexão, de que os anjos — sejam verdadeiros ou mitológicos — são dotados de asas para se elevarem do plano comum ao elevado. Do humano ao Divino.

Eu preferencialmente prefiro acreditar que nossas mãos são mais importantes que asas.

Com nossas mãos podemos mudar o mundo pelo poder do nosso trabalho.

Eu prefiro acreditar que é com as mãos empenhadas em grandes obras de bem que o homem realmente alcança os céus.

Por isso, vamos deixar que o mito nos inspire, nos empolgue e nos entusiasme  — porém — sem exercer esse seu fascínio tão inebriante que nos paralise.

Por isso, vamos ouvira a história para entender e divulgar sua moral, seu símbolo, sua inspiração — e ao mesmo tempo — vamos por nossas mãos à obra!

-o-

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

COMPRE O LIVRO A COR DA TEMPESTADE do autor deste artigo

 

 

 

 

 

 

 

 

NAS LIVRARIAS CURITIBA

Ou compre com desconto na SPACE CASTLE BOOKSTORE:

hypeScience_mustafa_spacecastle

Vote: 1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars

6 comentários

  • Saulo Nogueira:

    Busque a verdade, só ela liberta e tem o poder para salvar de tanta ilusão, trocara verdade é por um engano é uma péssima escolha…

  • Mustafá Ali Kanso:

    Caro Fábio,

    Existe um busca dos historiadores por um eixo comum irradiador de alguns conceitos coincidentes como aqueles transmitidos pela tradição alquímica. Principalmente no que tange às coincidências que envolvem culturas muito distantes no espaço e no tempo. Ainda é um pesquisa inconclusiva, como aquela que tenha encontrar uma língua ancestral da qual todas tenha surgido.

    Grato pela audiência e pelo interesse

  • Fábio Marconato:

    Sobre a unidade dos mitos das civilizações antigas, oque dizer sobre a Atlântida?
    Teria existido?

    • Cesar Grossmann:

      Unidade? A lenda de Atlântida aparece pela primeira vez nos diálogos Timeu e Crítias, do filósofo grego Platão. Numa viagem ao Egito, o legislador ateniense Sólon teria ouvido de sacerdotes de Sais a tradição sobre a Atlântida. Seu neto Crítias, por sua vez, a teria narrado a Sócrates.

      Mas ela não se encontra em nenhum outro lugar e não faz parte de nenhuma tradição de povo algum.

    • Fábio Marconato:

      Quando me referi a unidade quis fazer menção a dúvida apresentada no texto sobre a origem dos mitos nas culturas.
      A pergunta mais correta seria: Existia uma civilização mais antiga da qual as outras derivariam?

      Agradeço ao Cesar pela resposta. E gostaria de saber sua opinião.

    • Cesar Grossmann:

      Não sou expert na área, posso falar bobagem. Acho que tem certos momentos na vida das pessoas que são universais: a passagem para a vida adulta, a busca por sentido, a busca pelo seu lugar na sociedade, a separação do ambiente doméstico. E todos estes momentos geram angústias e crises, que acabam sendo plasmadas em mitos.

      Em outras palavras, os mitos são parecidos por que surgem em cérebros semelhantes, passando por experiências semelhantes.

      Se tiver algum especialista por aí,…

Deixe seu comentário!