Buraco negro emite jatos de plasma em tempo real: uma descoberta única

Por , em 17.01.2025
Galáxia ativa 1ES 1927+654, destacada na imagem, tem apresentado mudanças extraordinárias desde 2018, quando ocorreu uma grande explosão detectada em luz visível, ultravioleta e raios-X. Essa galáxia abriga um buraco negro central com cerca de 1,4 milhão de vezes a massa do Sol e está localizada a aproximadamente 270 milhões de anos-luz da Terra. Entre 2018 e 2024, observações registraram fenômenos inéditos em tempo real, incluindo a formação de jatos de plasma. Crédito: NASA/Goddard Space Flight Center

Em uma reviravolta inesperada para a astrofísica, cientistas conseguiram observar pela primeira vez, em tempo real, a formação de jatos de plasma emanando de um buraco negro supermassivo. Este evento extraordinário foi documentado por uma equipe internacional de pesquisadores e publicado na revista The Astrophysical Journal Letters. O protagonista dessa história é a galáxia ativa 1ES 1927+654, localizada na constelação de Draco, a cerca de 270 milhões de anos-luz da Terra.

Desde 2018, essa galáxia tem chamado atenção por sua atividade anômala. Ela abriga um buraco negro central com massa estimada em 1,4 milhão de vezes a do Sol. Embora inicialmente o buraco negro consumisse matéria de forma moderada, ele apresentou um aumento dramático na luminosidade em luz visível, ultravioleta e raios-X. E, nos anos seguintes, o que parecia ser apenas um pico isolado de atividade revelou-se uma sequência de eventos nunca antes observados.

A história de um despertar violento

O primeiro sinal de que algo incomum estava acontecendo surgiu em 2018, quando o buraco negro aumentou sua emissão de luz visível em mais de 100 vezes em poucos meses. Para comparação, mudanças desse tipo eram, até então, consideradas possíveis apenas em escalas de milhares ou até milhões de anos. Esse comportamento atraiu a atenção de cientistas ao redor do mundo, que iniciaram um monitoramento intenso.

Depois de um período de relativa calmaria em 2020, o buraco negro voltou a surpreender em 2023, emitindo ondas de rádio com intensidade 60 vezes maior do que o observado anteriormente. Utilizando a técnica de Interferometria de Base Muito Longa (VLBI, na sigla em inglês), os pesquisadores capturaram imagens de alta resolução que mostravam jatos de plasma sendo formados e se expandindo para fora do buraco negro. Este é o primeiro registro direto desse fenômeno em tempo real.

Por que jatos de plasma importam?

Jatos de plasma, como os observados em 1ES 1927+654, desempenham um papel fundamental na evolução das galáxias. Essas estruturas podem se estender muito além da própria galáxia hospedeira, influenciando a formação de estrelas e redistribuindo energia no meio intergalático. Segundo Eileen Meyer, professora associada de física na Universidade de Maryland e autora principal do estudo, entender como esses jatos se formam é essencial para compreender a dinâmica do universo.

“Conseguimos observar detalhes incríveis do momento em que um jato de plasma ‘se acende’, incluindo a movimentação de bolhas de plasma que se originam perto do buraco negro e se expandem a uma velocidade estimada entre 20% e 30% da velocidade da luz”, explicou Meyer. Este estudo fornece evidências diretas de que os jatos são os responsáveis pelas intensas emissões de rádio, descartando outras hipóteses.

Um quebra-cabeça para a astrofísica

Os cientistas ainda têm muito a descobrir sobre os chamados núcleos galácticos ativos, como 1ES 1927+654. Uma das principais questões é por que apenas uma fração dos buracos negros que acumulam matéria geram jatos de plasma. Além disso, os mecanismos exatos que conectam o disco de acreção – uma região em forma de disco onde a matéria é aquecida antes de ser consumida pelo buraco negro – à criação de jatos ainda são motivo de debate.

Sibasish Laha, cientista do Centro de Tecnologias de Ciências Espaciais da Universidade de Maryland e coautor do estudo, enfatiza que essa observação é um marco. “Pela primeira vez, temos a oportunidade de compreender como um buraco negro interage com sua galáxia hospedeira em tempo real. Isso é crucial para desvendar os processos que moldam as galáxias ao longo do tempo cósmico”, disse.

Tensão e adrenalina em tempo real

Estudar fenômenos tão dinâmicos como 1ES 1927+654 exige agilidade. A astronomia de tempo real, também chamada de “astronomia de domínio do tempo”, desafia os cientistas a reagirem rapidamente a eventos imprevisíveis. “Receber um alerta no meio da noite e ter que agir imediatamente faz parte do trabalho”, comenta Meyer. “Cada hora pode fazer a diferença.”

Essa dedicação foi recompensada quando a equipe conseguiu acesso a observações não programadas em telescópios ao redor do mundo – algo extremamente raro, já que o tempo de telescópio costuma ser agendado com anos de antecedência.

Um novo paradigma para jatos compactos

Os jatos observados em 1ES 1927+654 são relativamente pequenos em comparação com as estruturas colossais de outras galáxias ativas. Meyer sugere que eles se enquadram em uma categoria conhecida como objetos compactos e simétricos (CSOs), que são menores e de vida mais curta. Esses jatos podem ser alimentados por eventos como a destruição de uma estrela ou de uma nuvem de gás que chega muito perto do buraco negro.

Uma hipótese intrigante é que o evento de 2018, que desencadeou uma explosão de luz visível, pode ter sido causado por uma “evento de perturbação por marés”, em que um objeto massivo é dilacerado pela gravidade do buraco negro. Se isso for confirmado, 1ES 1927+654 pode oferecer pistas valiosas sobre como esses eventos se desdobram em galáxias ativas.

Perspectivas futuras

Com uma grande quantidade de dados em mãos, os próximos passos incluem colaborações com teóricos para refinar os modelos de formação de jatos. Enquanto isso, o monitoramento da galáxia continuará, pois 1ES 1927+654 parece estar longe de encerrar seu espetáculo. Segundo Meyer, “Ainda há muito o que aprender sobre os mecanismos que geram esses jatos. Mas o que sabemos é que estamos testemunhando algo incrivelmente raro.”

O artigo científico foi publicado na revista The Astrophysical Journal Letters.

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