“Extinto” desde a era dos dinossauros, peixe é filmado vivo pela primeira vez por cientistas

Por , em 11.11.2025

Em águas profundas do norte das Molucas, na Indonésia, mergulhadores técnicos registraram, pela primeira vez, imagens subaquáticas de um celacanto-do-Sulawesi (Latimeria menadoensis) em liberdade. O peixe surgiu a 144 metros de profundidade, pairando como quem observa o movimento da encosta vulcânica e dos corais de recife profundo, e depois sumiu no azul — uma aparição breve o bastante para virar história em minutos. Em outubro de 2024, o encontro ganhou forma de vídeo e, meses depois, virou análise científica revisada por pares.

A equipe descreveu o achado em um artigo da revista Scientific Reports, destacando que é a primeira documentação feita por mergulhadores do celacanto indonésio em seu habitat natural. O mesmo trabalho amplia a distribuição confirmada da espécie para o arquipélago das Molucas, um elo geográfico que faltava entre avistamentos anteriores.

Um mergulhador de águas profundas acompanha o celacanto de Sulawesi (Latimeria menadoensis) a cerca de um metro de distância, observado a 144 metros abaixo da superfície, na região norte de Maluku, Indonésia. Foto de Alexis Chappuis.

As imagens mostram um animal de cerca de 1,1 metro com a primeira nadadeira dorsal ereta — postura que especialistas interpretam como sinal de atenção ou atividade. O detalhe que intrigou os pesquisadores foi a posição em mar aberto, e não em fendas ou cavernas, contrariando a fama de “bicho de toca” que o celacanto carrega desde a literatura classica
O relato também inclui condições ambientais medidas no mergulho: visibilidade acima de 30 metros e água entre 19 e 20 °C, um retrato típico da zona mesofótica Indonesio

Os bastidores do mergulho, por sinal, merecem nota: os exploradores utilizaram rebreathers de circuito fechado com mistura trimix e seguiram protocolos rígidos de descompressão. Quem já mergulhou em paredões sabe que, a essa profundidade, a vontade de comemorar dá lugar a contas silenciosas de tempo e gases — o tipo de matemática que ninguém quer errar sob pena de estragar a festa do “fóssil vivo” que decidiu aparecer sem aviso.

O que as imagens revelam sobre o comportamento

O peixe foi visto duas vezes em dias próximos, a uma distancia de poucos metros de um dos mergulhadores. Pairava com batimentos compassados das nadadeiras lobadas, um voo lento que lembra um dirigível submerso. Em vez de se enfiar em uma cavidade, manteve-se no “meio do salão”, onde a luz é escassa e a parede rochosa desce para o escuro.

O registro reforça que o celacanto não é necessariamente estritamente cavernícola durante o dia. Essa observação, se repetida em novas campanhas, pode ajustar o desenho de áreas prioritárias de conservação, incluindo trechos de encostas expostas e não apenas sistemas de grutas.

Outra pista interessante veio da postura da nadadeira dorsal e da distância que o animal manteve dos mergulhadores. Em espécies de hábitos noturnos e grande longevidade, respostas comportamentais assim costumam indicar um repertório de vigilância refinado que equilibra curiosidade e cautela

Quem é o celacanto e por que ele importa

O celacanto pertence aos sarcopterígios, o grupo de peixes de nadadeiras lobadas que inclui, em sua árvore evolutiva, os ancestrais de todos os vertebrados terrestres. Os fósseis recuam mais de 400 milhões de anos, muito antes dos dinossauros; por isso, encontrá-lo vivo é quase como tropeçar num capítulo teimoso da história natural.

Celacanto-de-Sulawesi (Latimeria menadoensis). Fotografia de Mark Erdmann, via RedList.

Até 1938, quando um exemplar foi capturado no Índico, acreditava-se que os celacantos tinham desaparecido no fim do Cretáceo. Hoje sabemos de duas espécies: o africano (Latimeria chalumnae) e o indonésio (L. menadoensis), descrito em 1999 após um peixe surgir em um mercado de Manado. Para um animal que parece fora do tempo, ele continua bastante dependente do presente.

Base de dados como a FishBase situam o L. menadoensis em águas profundas, sem hábitos migratórios, normalmente entre 150 e 200 metros. A biologia é lenta: cr escimento devagar, maturação tardia e gestação plurianual. Esses traços formam a receita clássica de vulnerabilidade — populações pequenas, fragmentadas e suscetíveis a impactos que outros peixes suportariam melhor.

E a conservação, como fica

A Lista Vermelha da IUCN classifica o celacanto indonésio como Vulnerável, um alerta que conversa com o que se vê no mar: poucas observações, distribuição irregular e ameaças que vão de captura acidental a poluição e perda de habitat. Mesmo sem ser alvo de pescarias, ele entra nas redes erradas no lugar errado.

O problema ganha escala quando lembramos que a zona mesofótica sofre com lixo plástico, arrasto de fundo e, no horizonte, projetos de mineração em águas profundas. Em um paralelo doméstico, é como morar num prédio antigo enquanto alguém resolve reformar a garagem com marreta: a vibração sobe andar por andar.

A equipe manteve em sigilo as coordenadas exatas do encontro para evitar turismo de risco e assédio ao habitat. Ao mesmo tempo, abriu caminho para políticas públicas: o Ministério das Pescas da Indonésia analisa os dados para orientar estratégias de proteção em recifes profundos, algo que pode incluir a expansão de áreas marinhas protegidas e regras específicas de captura.

O que vem na sequência: ciência com lupa e sem alarde

As próximas expedições devem coletar eDNA — fragmentos de material genético na água — para investigar se o exemplar das Molucas integra uma metapopulação maior ou representa um ramo local. É um método não invasivo que combina com espécies raras e profundidades onde cada minuto é caro

Se o eDNA apontar continuidade genética com Sulawesi e Papua, teremos um corredor biogeográfico discreto que passa por encostas e vales submarinos. Caso contrário, a hipótese de linhagem diferenciada no arquipélago ganha força e muda a prioridade de conservação.

Curiosidades que cabem no laboratório e no bote

A morfologia do celacanto chama atenção pelas nadadeiras lobadas articuladas, que se movem de forma alternada lembrando passos — uma coreografia que inspirou comparações com a marcha dos primeiros tetrápodes. Não é exagero dizer que ver um deles nadando é assistir a um gesto antigo, preservado por paciência evolutiva.

Os olhos grandes e a retina adaptada à baixa luz combinam com a vida no “crepúsculo” do oceano, aquela faixa entre 100 e 200 metros em que a claridade ainda existe, mas a fotossíntese já não manda no jogo. É um reino de contrastes, onde os sons são amortecidos e os contornos parecem ter sido desenhados com carvão.

Outro traço curioso é o órgão rostral eletrossensor, uma estrutura cheia de canais gelatinosos na cabeça, possivelmente útil para detectar presas e navegar em ambientes pouco iluminados. Se o mar é um salão de baile, o celacanto dança guiado por um metrônomo discreto.

No fim, esse flagrante não prova estabilidade populacional; sugere rareza e resiliência. Um indivíduo filmado duas vezes pode ser a ponta visível de uma população discreta, ou um sobrevivente solitário em um cenário que muda rápido. Entre a empolgação e a cautela, fico com a imagem do “dirigível do Cretáceo” dividindo a água com dois humanos atentos — uma cena que lembra como a ciência depende de método, mas também de encontros improváveis.

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