Por que gente rica é tão babaca?

Por , em 30.09.2019

Se gente rica é babaca, eu não sei. Mas é bem provável que você tenha tido uma experiência ou conheça uma história babaca envolvendo alguém com muito dinheiro.

Por quê? O que leva as pessoas financeiramente avantajadas a se distanciarem de seus colegas menos abastados e a se tornarem mais insensíveis e menos empáticas em relação a eles?

O autor de best-seller Christopher Ryan (“Sexo Antes de Tudo”, “Civilized to Death”), com formação em literatura e psicologia, reuniu dados científicos interessantes e destilou algumas das razões que poderiam explicar o que ele chama de RAS ou “Rich Asshole Syndrome” (em tradução livre, “síndrome do rico babaca”).

Riqueza e generosidade

Como um rico babaca ele mesmo, Ryan notou sua insensibilidade alheia pela primeira vez enquanto viajava pela Índia sem conseguir ignorar as crianças famintas babando por seus pratos de comida em cada restaurante que se sentava nas ruas de Nova Délhi.

Ao contrário das ruas de Nova York, sua cidade atual, na qual Ryan já tinha criado mecanismos para se proteger de qualquer empatia – “existem abrigos que podem ajudar esses sem-teto”, “se eu der dinheiro a eles provavelmente vão gastar em bebida ou drogas” -, o autor não tinha como usar nenhuma de suas desculpas para negligenciar os pequenos desnutridos indianos.

Foi quando ele se deu conta de que todo o dinheiro que vinha gastando em restaurantes americanos e viagens asiáticas poderia tirar milhares deles da miséria. E, ainda assim, Ryan não fez nada sobre isso.

Diversas pesquisas científicas já mostraram que ricos são menos generosos que pobres. Os motivos para tanto não são simples, contudo. Por exemplo, um estudo da Universidade de Toronto (Canadá), liderado pela pesquisadora Stéphane Côté, descobriu que “indivíduos de renda mais alta são apenas menos generosos se residem em uma área altamente desigual ou quando a desigualdade é retratada experimentalmente como relativamente alta”, sugerindo que a distância criada pela desigualdade financeira parece “quebrar” o fluxo natural de bondade humana.

Isso desafia a noção de que ricos são simplesmente mais egoístas – eles são tão propensos a ajudar o próximo num ambiente menos desigual quanto os pobres. O que provavelmente significa que um ambiente economicamente desigual afeta a tendência inerente humana de generosidade.

Literatura científica

Esse fato foi apoiado por outro estudo, realizado pelos neurocientistas Jorge Moll, Jordan Grafman e Frank Krueger. Utilizando dados de ressonância magnética do cérebro de diversos indivíduos, os pesquisadores demonstraram que o altruísmo é inerente à natureza humana – as pessoas sentem uma imensa satisfação ao ter um comportamento altruísta, relacionada a uma área primitiva do cérebro normalmente associada à alimentação ou sexo.

Em um experimento com 74 crianças em idade pré-escolar, os cientistas descobriram que as que doaram “fichas” a outras crianças tiveram leituras de ressonância magnética melhores. Isso prova que tendemos a derivar um senso de satisfação ao ajudar o próximo desde tenra idade. Porém, tal predisposição foi influenciada pelo ambiente social – crianças ricas compartilharam menos fichas.

No geral, pesquisas já mostraram que ricos doam menos dinheiro à caridade que os pobres – suas doações, mesmo que grandes, representam uma porcentagem menor de seus ganhos totais, e ainda vêm com vantagens como menos impostos.

Além da falta de generosidade, a “síndrome do rico babaca” já foi documentada por experimentos dos mais variados. Os psicólogos Dacher Keltner e Paul Piff, por exemplo, descobriram que carros caros eram quatro vezes menos propensos a parar em faixas de pedestres para pessoas atravessarem a rua do que carros baratos.

Os mesmos pesquisadores também concluíram que ricos eram mais propensos a trapacear em jogos. Em um estudo, pessoas ricas disseram ter ganho um jogo que os pesquisadores projetaram para ser impossível de vencer.

Outro estudo mostrou que ricos costumam criar mais desculpas para mentir em negociações, a fim de ganhar dinheiro. Por fim, a dupla até descobriu que ricos são mais propensos a pegar doces de uma tigela que vem acompanhada de um aviso: “O que sobrar será doado a crianças de uma escola local”. Ou seja, ao que tudo indica, ricos literalmente não ligam de roubar doces da boca de crianças.

Talvez a mais absurda dessas pesquisas, porém, seja uma realizada por cientistas do Instituto Estadual de Psiquiatria de Nova York (EUA). O instituto analisou informações de 43.000 pessoas e chegou à conclusão de que ricos são mais propensos a sair de uma loja sem pagar por um produto. Esse estudo contraria o estereótipo do pobre faminto que rouba um pão: é mais provável que o rico saia da padaria sem pagar por seu bolo de bolachas champagne com cerejas. Por quê?

Distanciamento

De forma ampla, esses experimentos talvez indiquem que os ricos se preocupem menos com repercussões legais – talvez porque nunca tenham que enfrentá-las, talvez porque têm dinheiro de sobra para bancar advogados e processos legais se for o caso. Quando você tem dinheiro para fazer literalmente o que quiser, por que pararia na faixa de pedestres ou pagaria um valor tão ínfimo por uma mercadoria irrelevante?

Mas esse comportamento “babaca” ou egoísta vai além de repercussões legais. O que experiências científicas têm mostrado é que o dinheiro pode vir com uma “cegueira” ao sofrimento alheio, como uma espécie de adaptação psicológica ao desconforto trazido pela imensa desigualdade social.

Um estudo conduzido por Michael W. Kraus descobriu que pessoas com maior status socioeconômico são literalmente menos capazes de ler emoções nas expressões de outras pessoas. Outro experimento conduzido pelo neurocientista Keely Muscatell mostrou que o cérebro de pessoas ricas fica menos ativo que o de pessoas pobres ao olhar para fotos de crianças com câncer.

Será que, para ser rico, a pessoa tem que ser um pouco insensível para começo de conversa? Existem teorias, por exemplo, que julgam que psicopatas têm características essenciais, como a própria falta de empatia, para se dar bem em negócios.

Ryan não pensa que esse é o caso. Ele crê que ficar rico também tem a capacidade de “corroer” o resto de empatia que as pessoas poderiam ter. Em outras palavras, a fim de aproveitar todo o seu dinheiro, fazer mais dele ou qualquer coisa do tipo, é necessário que pessoas ricas “aprendam” a ignorar crianças famintas da Índia.

O dinheiro corrompe o homem?

Essa questão parece simplista, mas um dos experimentos psicológicos de Keltner e Piff de fato apontou que o dinheiro “corrompe” as pessoas em algum nível.

A dupla modificou um jogo no estilo “Banco Imobiliário” para refletir um ambiente de desigualdade financeira. No caso, um dos jogadores começaria com o dobro de dinheiro e a cada jogada poderia lançar dois dados ao invés de um, sendo que todos os seus ganhos representariam o dobro dos demais jogadores. Essas vantagens não eram segredo para ninguém, e o jogador “rico” era escolhido aleatoriamente.

Sem surpresa, o avantajado normalmente ganhava a partida. Talvez com um pouco de surpresa, no entanto, sempre exibia os sinais da “síndrome do rico babaca”: era muito mais propenso a contar vantagem, bater no tabuleiro com suas peças, celebrar entusiasticamente suas “habilidades superiores”, e até a comer mais doces de uma tigela disponível para todos.

Quando os cientistas perguntaram aos jogadores “ricos” por que eles venceram a partida, eles tendiam a focar em suas estratégias brilhantes, ao invés do fato de que todo o jogo era desenhado para que fosse quase impossível que perdessem.

“O que descobrimos em dezenas de estudos com milhares de participantes em todo o país é que, à medida que os níveis de riqueza de uma pessoa aumentam, seus sentimentos de compaixão e empatia diminuem e seus sentimentos de direito, de merecimento e sua ideologia de interesse próprio aumenta”, esclareceu Piff.

O outro lado da moeda

Longe de mim jogar a carta “coitadinhos dos ricos e seus jatinhos particulares”, mas é bom recordar que existem desvantagens em se ter muito dinheiro, a principal delas sendo um isolamento profundo.

O rico acaba distanciando-se não só dos pobres, mas também dos ainda mais ricos que ele – por exemplo, Ryan nota que milionários do Vale do Silício, ao invés de simplesmente aproveitarem seus montantes absurdos para “viver la vida loca”, trabalham exaustivamente mesmo tendo passado dos 50 anos porque sentem que ainda não alcançaram seus objetivos, seja por que conhecem pessoas ainda mais bem-sucedidas, seja para tentar vencer a inflação e fazer seu dinheiro continuar a crescer ao invés de simplesmente gastá-lo, como a maioria de nós pobres faz com os trocados a mais que a vida de vez em quando nos presenteia.

Além disso, ricos passam a ter comportamentos cada vez mais egoístas e autocentrados, que no fim levam a uma existência solitária. Compram um carro para não precisarem mais andar de ônibus, mudam-se para casas com muros altos em condomínios exclusivos longe de vizinhos chatos e ficam em hotéis com quartos gigantes e vazios quando viajam, ao invés de se hospedar em albergues coletivos e fazer tours barulhentos com milhares de outros turistas.

De forma simplista, ricos precisam se distanciar dos demais para não ter mais empatia em relação a eles, e estudo atrás de estudo tem confirmado que o preditor mais confiável de felicidade é se sentir parte de uma comunidade, ter apoio, ter uma rede social robusta.

Um dado interessante levantado por Ryan: na década de 1920, cerca de 5% dos americanos moravam sozinhos. Hoje, mais de um quarto vive solo, o nível mais alto de todos os tempos, enquanto o uso de antidepressivos aumentou mais de 400% nos últimos vinte anos e o abuso de analgésicos tem se mostrado uma epidemia crescente. Essa correlação não prova causalidade, mas o autor sugere que as tendências são de fato relacionadas.

“Talvez seja hora de fazer algumas perguntas impertinentes sobre aspirações anteriormente inquestionáveis, como conforto, riqueza e poder”, escreveu no portal The Wired.

Curando a síndrome

Você conhece algum rico babaca? Ryan sugere que há uma forma simples de curá-lo da síndrome. Ela deriva de um senso comum, porém já testado cientificamente: pessoas egoístas são detestadas, enquanto as generosas são mais respeitadas e conquistam mais influência social.

Keltner e Piff concluíram que pequenas intervenções psicológicas podem lembrar as pessoas disto, e fazer com que mudem de comportamento. Por exemplo, mostrar um vídeo de 46 segundos sobre pobreza infantil fez com que pessoas ricas se tornassem tão propensas quanto as pobres a ajudar um “estranho” que apareceu no laboratório durante um experimento.

Tais resultados indicam que as diferenças de comportamento entre pobres e ricos não são inatas ou categóricas, mas “maleáveis a pequenas mudanças nos valores das pessoas e a pequenos estímulos de compaixão”, de acordo com Piff, “restaurando níveis de igualitarismo e empatia”.

O isolamento garante aos ricos que não sintam “vergonha” pelo seu comportamento egoísta e por serem beneficiários de uma desigualdade de riqueza ultrajante. Mas isso não significa que ela não exista –está lá, e as pessoas podem ser lembradas disto muito facilmente, graças a nossa tendência inerente e biológica de doar e cooperar. [TheWired]

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