Por que nós temos tipos sanguíneos?

Por , em 29.07.2014

Mais de um século depois de sua descoberta, nós ainda não sabemos realmente para que servem os tipos sanguíneos. Será que eles realmente são importantes? Por que 40% dos caucasianos têm sangue tipo A, comparado a apenas 27% dos asiáticos? De onde é que diferentes tipos de sangue vêm e o que eles fazem?

Para tentar entender um pouco mais sobre o assunto, a solução é falar com hematologistas, geneticistas, biólogos, virologistas, cientistas de nutrição e se debruçar longamente sobre o tema.

Em 1900, o médico austríaco Karl Landsteiner descobriu os tipos sanguíneos, ganhando o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por suas pesquisas em 1930. Desde então, os cientistas desenvolveram ferramentas cada vez mais poderosas para sondar a biologia dos tipos de sangue, conseguindo fazer coisas como traçar sua ascendência distante e detectar sua influência sobre a nossa saúde. No entanto, eles descobriram que, em muitos aspectos, os tipos sanguíneos permanecem estranhamente misteriosos. Os cientistas ainda não encontraram uma boa explicação para eles existirem.

“Não é incrível?”, diz Ajit Varki, biólogo da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA). “Quase cem anos depois de o Prêmio Nobel ter sido concedido por esta descoberta, nós ainda não sabemos exatamente para que eles servem”.

Como tudo começou

Sabemos que somos tipo A, O, B ou AB, graças a uma das maiores descobertas da história da medicina. É só porque os médicos estão cientes destas diferenças que podem salvar vidas com a transfusão de sangue em pacientes. Porém, ao longo da maior parte da história, a noção de colocar o sangue de uma pessoa em outra não passava de um delírio.

Médicos renascentistas refletiram sobre o que aconteceria se eles colocassem o sangue de outros nas veias de seus pacientes. Alguns chegaram a pensar que isso poderia ser um tratamento para todos os tipos de doenças, até insanidade. Finalmente, em 1600, alguns médicos testaram a ideia, com resultados desastrosos. Um médico francês injetou sangue de bezerro em um louco, que prontamente começou a suar, vomitar e produzir urina da cor de fuligem de chaminé. Depois de mais uma transfusão, o homem morreu.

Tais calamidades fizeram com que as transfusões amargassem uma péssima reputação por 150 anos. Mesmo no século XIX, apenas alguns médicos ousaram experimentar o procedimento. Um deles foi o britânico chamado James Blundell. À semelhança de outros médicos de sua época, ele observou muitas mulheres morrerem de hemorragia durante o parto. Após a morte de uma paciente em 1817, ele descobriu que não podia resignar-se à forma como as coisas eram. “Eu não poderia deixar de considerar que a paciente poderia muito provavelmente ter sido salva pela transfusão”, escreveu mais tarde.

Blundell se convenceu de que os desastres anteriores com transfusões de sangue tinham acontecido graças a um erro fundamental: usar “o sangue dos brutos”, como ele dizia. Os médicos não devem transferir sangue entre as espécies, concluiu, porque “os diferentes tipos de sangue diferem de maneira significativa entre si”.

Então, resolveu que pacientes humanos só deveriam receber sangue humano, mas ninguém havia tentado realizar tal operação até então. O médico concebeu um sistema de funis, seringas e tubos que poderia canalizar sangue de um doador para um paciente doente. Depois de testar o aparelho em cães, Blundell foi chamado à cama de um homem que estava sangrando até a morte. “A transfusão por si só poderia lhe dar uma chance de vida”, relatou em seus estudos.

Vários doadores o forneceram um total de 400 ml de sangue, que foram injetados no braço do homem. Após o procedimento, o paciente disse a Blundell que se sentia melhor – “menos zonzo” -, porém, morreu dois dias depois.

Ainda assim, a experiência convenceu Blundell que a transfusão de sangue seria um grande benefício para a humanidade, e ele continuou colocando sangue em pacientes desesperados nos anos seguintes. Ao todo, ele realizou dez transfusões de sangue. Apenas quatro pacientes sobreviveram.

Alguns outros médicos também realizaram experimentos com a transfusão de sangue, com taxas de sucesso igualmente sombrias. Foram várias abordagens, incluindo as tentativas na década de 1870 de usar leite em transfusões (que eram, obviamente, inúteis e perigosas).

Detalhes essenciais

Blundell estava correto em acreditar que os seres humanos só devem receber sangue humano, porém não sabia de outro fato importante: os seres humanos só devem receber sangue de outros seres humanos específicos. É provável que a ignorância do pesquisador quanto a este fato simples tenha levado à morte de alguns de seus pacientes.

O que torna essas mortes ainda mais trágicas é que a descoberta dos tipos sanguíneos, ocorrida algumas décadas mais tarde, foi o resultado de um procedimento bastante simples.

As primeiras pistas sobre por que as transfusões de início do século XIX tinham falhado eram coágulos de sangue. Quando, no final de 1800, os cientistas misturaram o sangue de pessoas diferentes em tubos de ensaio, notaram que, por vezes, as células vermelhas do sangue grudavam umas às outras. Mas como o sangue geralmente vinha de pacientes doentes, os cientistas descartaram a aglutinação, considerando-a algum tipo de patologia que não valia a pena investigar. Ninguém tinha se preocupado em testar o sangue de pessoas saudáveis, até que Karl Landsteiner se perguntou o que aconteceria. Imediatamente, ele pôde ver que, às vezes, as misturas de sangue saudável também aglutinavam.

Landsteiner, em seguida, começou a mapear o padrão de aglutinação, coletando sangue de membros de seu laboratório, incluindo dele próprio. Ele dividiu cada amostra em células vermelhas do sangue e plasma e, em seguida, combinou o plasma de uma pessoa com as células de outra.

Landsteiner descobriu que esta aglomeração ocorria somente se ele misturava o sangue de certas pessoas. Ao trabalhar com todas as combinações, ele separou o participantes em três grupos, dando-lhes os nomes totalmente arbitrários de A, B e C. Depois disso, C passou a ser chamado de O e, alguns anos mais tarde, outros pesquisadores descobriram o grupo AB. Em meados do século XX, o pesquisador norte-americano Philip Levine descobriu outra maneira categorizar sangue, baseado na existência ou ausência do fato Rh. Um sinal de mais ou menos no final das letras de Landsteiner indica se uma pessoa tem o fator ou não.

Quando Landsteiner misturou o sangue de pessoas diferentes, descobriu que havia certas regras. Se ele misturasse o plasma do grupo A com as células vermelhas do sangue de uma outra pessoa do grupo A, o plasma e as células permaneciam líquidos. A mesma regra aplicava-se ao plasma e os glóbulos vermelhos do grupo B. Contudo, se Landsteiner misturasse o plasma do grupo A com as células vermelhas do sangue do grupo B, as células aglutinavam (e vice-versa).

O sangue de pessoas do grupo O era diferente. Quando Landsteiner misturava glóbulos vermelhos A ou B com plasma O, as células aglutinavam. Mas ele podia adicionar plasma A ou B aos glóbulos vermelhos O sem qualquer aglomeração.

É esta agregação que faz com que as transfusões de sangue sejam tão potencialmente perigosas. Se um médico acidentalmente injetar sangue tipo B em alguém com sangue A, o corpo desta pessoa fica cheio de pequenos coágulos, que atrapalham a circulação, causam sangramento intenso, falta de ar e, potencialmente, morte. Entretanto, se esta mesma pessoa recebe sangue do tipo A ou O, fica bem.

Landsteiner não sabia o que precisamente distinguia um tipo sanguíneo do outro. Gerações posteriores de cientistas descobriram que as células vermelhas do sangue em cada tipo são adornadas com moléculas diferentes na sua superfície. No sangue tipo A, por exemplo, as células constroem essas moléculas em duas etapas, como dois andares de uma casa. O primeiro andar é chamado antígeno H. Logo acima deste primeiro andar, as células constroem um segundo, chamado antígeno A.

Pessoas com sangue tipo B, por outro lado, constroem o segundo andar da casa de uma forma diferente. E as pessoas com o tipo O constroem uma casa de piso único, tendo apenas o antígeno H.

O sistema imunológico de cada pessoa torna-se familiarizado com o seu próprio tipo de sangue. Se as pessoas recebem uma transfusão do tipo errado de sangue, seu sistema responde com um ataque furioso, como se o sangue fosse um invasor. A exceção a esta regra é o sangue tipo O, já que tem apenas os antígenos H, que também estão presentes nos outros tipos de sangue. Para uma pessoa com tipo A ou B, ele parece familiar. Essa familiaridade faz com que as pessoas com sangue tipo O sejam doadores universais, e seu sangue seja especialmente valioso para hemocentros.

Landsteiner relatou sua experiência em um artigo conciso de 1900. “Pode-se mencionar que as observações relatadas podem auxiliar na explicação de várias consequências de transfusões de sangue terapêuticas”, concluiu. A descoberta de Landsteiner abriu o caminho para transfusões de sangue seguras e em grande escala, e até hoje os bancos de sangue usam seu método básico de aglutinação de glóbulos como um teste rápido e confiável para descobrir os tipos de sangue.

Todavia, ao mesmo tempo que Landsteiner respondeu uma questão antiga, levantou novas. Para que servem os tipos sanguíneos? Por que os glóbulos vermelhos se preocupam com a construção de suas casas moleculares? E por que as pessoas têm casas diferentes?

Respostas científicas sólidas para essas questões têm sido difíceis de encontrar. E, entretanto, algumas explicações não científicas ganharam enorme popularidade.

Dieta do Tipo Sanguíneo

Em 1996, um naturopata chamado Peter D’Adamo publicou um livro chamado “Eat Right 4 Your Type” (“Coma o certo para o seu tipo”, em tradução livre). D’Adamo argumentou que devemos comer de acordo com o nosso tipo sanguíneo, a fim de harmonizar com a nossa herança evolutiva.

Tipos de sangue, segundo ele, “parecem ter chegado em momentos críticos do desenvolvimento humano”. De acordo com D’Adamo, sangue tipo O surgiu em nossos ancestrais caçadores-coletores da África, o tipo A no alvorecer da agricultura e tipo B teria se desenvolvido entre 10 mil e 15 mil anos atrás, nas terras altas do Himalaia. O tipo AB, explica, é uma mistura moderna de A e B.

A partir desses pressupostos, o escritor, em seguida, alega que o nosso tipo sanguíneo determina do que devemos nos alimentar. Os portadores do tipo A, por exemplo, baseado na agricultura, deveriam ser vegetarianos. Pessoas com o antigo tipo O, de caçadores, devem ter uma dieta rica em carne e evitar grãos e laticínios. Segundo o livro, os alimentos que não são adequados para o nosso tipo de sangue contêm antígenos que podem causar vários tipos de doenças. D’Adamo recomenda a sua dieta como uma maneira de reduzir infecções, perder peso, combater o câncer e diabetes e retardar o processo de envelhecimento.

O livro já vendeu 7 milhões de cópias, foi traduzido para 60 idiomas e a ele se seguiu uma série de outros livros sobre dietas do tipo sanguíneo. D’Adamo também vende uma linha de suplementos adaptados a este tipo de regime em seu site. Como resultado, os pacientes muitas vezes perguntam aos seus médicos se a dieta do tipo sanguíneo realmente funciona.

A melhor maneira de responder a essa pergunta é executar um experimento. Em “Eat Right 4 Your Type”, o autor escreveu que estava no oitavo ano de um experimento que duraria uma década envolvendo dietas do tipo sanguíneo em mulheres com câncer. Dezoito anos mais tarde, no entanto, os dados deste ensaio ainda não foram publicados.

Recentemente, pesquisadores da Cruz Vermelha na Bélgica decidiram ver se havia alguma outra evidência em favor da dieta. Eles procuraram experimentos que medissem os benefícios de dietas baseada em tipos sanguíneos na literatura científica e, embora tenham examinado mais de mil estudos, seus esforços foram em vão. “Não há nenhuma evidência direta que apoie os efeitos na saúde da dieta ABO do tipo sanguíneo”, garante Emmy De Buck, da Cruz Vermelha belga.

Depois que De Buck e seus colegas publicaram seu estudo no “American Journal of Clinical Nutrition”, D’Adamo respondeu em seu blog. Apesar da falta de evidências publicadas para apoiar a sua Dieta do Tipo Sanguíneo, alegou que a ciência por trás disso é válida. “Há boa ciência por trás das dietas do tipo sanguíneo, assim como houve uma boa ciência por trás dos cálculos matemáticos de Einstein que levaram à Teoria da Relatividade”, afirmou.

Não obstante a comparação com Einstein, os cientistas que realmente pesquisam os tipos sanguíneos rejeitam categoricamente tal afirmação. “A promoção dessas dietas é errada”, declarou categoricamente um grupo de pesquisadores na revista “Transfusion Medicine Reviews”.

Ainda que algumas pessoas que seguem a Dieta do Tipo Sanguíneo tenham alcançado resultados positivos, Ahmed El-Sohemy, cientista nutricional da Universidade de Toronto, no Canadá, diz que não existem motivos para pensar que os tipos de sangue tenham alguma relação com o sucesso da dieta.

El-Sohemy é um especialista no campo emergente da nutrigenômica. Ele e seus colegas reuniram 1.500 voluntários em um estudo, acompanhando os alimentos que consomem e monitorando sua saúde. Eles estão analisando o DNA destas pessoas para ver como seus genes podem influenciar a forma como o alimento interage com seu organismo. Eles descobriram que duas pessoas podem responder de forma muito diferente à mesma dieta baseada em seus genes.

“Quase todas as vezes que dou palestras sobre isso, alguém no final me pergunta, ‘Ah, isso é como a Dieta do Tipo Sanguíneo?'”, conta El-Sohemy. “Nenhuma das coisas no livro é apoiada pela ciência”, diz, categórico.

El-Sohemy e seus colegas dividiram os participantes de sua pesquisa por suas dietas. Alguns faziam as dietas à base de carne que D’Adamo recomenda para o tipo O, alguns comiam uma dieta principalmente vegetariana, como recomendado para o tipo A, e assim por diante. Os cientistas deram a cada pessoa no estudo uma pontuação considerando o quão bem se adaptaram a tal regime.

Os pesquisadores descobriram que algumas das dietas poderiam fazer bem às pessoas. Pessoas que ficaram com a dieta do tipo A, por exemplo, apresentaram pontuações menores no Índice de Massa Corporal, cinturas menores e pressão arterial mais baixa. As pessoas na dieta tipo O tinham triglicerídeos mais baixos. A dieta do tipo B – rica em produtos lácteos – não trouxe benefício algum.

“O problema”, explica El-Sohemy, “é que isso não tem nada a ver com o tipo de sangue das pessoas”. Em outras palavras, se você tem sangue tipo O, você ainda pode se beneficiar da dieta para o tipo A tanto quanto alguém com sangue tipo A – provavelmente porque os benefícios de uma dieta principalmente vegetariana podem ser aproveitados por qualquer pessoa. Qualquer pessoa em uma dieta tipo O corta uma grande quantidade de carboidratos, o que beneficiaria praticamente qualquer um. Da mesma forma, uma dieta rica em produtos lácteos não é saudável para qualquer pessoa – não importa o seu tipo de sangue.

Evolução do sangue

Um dos apelos da Dieta do Tipo Sanguíneo é a história das origens dos nossos tipos sanguíneos diferentes. Mas essa história tem pouca semelhança com a evidências reunidas pelos cientistas sobre a sua evolução.

Após Landsteiner ter descoberto os tipos de sangue humano em 1900, outros cientistas se perguntaram se o sangue de outros animais também vinham em diferentes tipos. Descobriu-se que algumas espécies de primatas tinham um sangue que se misturava bem com certos tipos de sangue humano, porém levou um tempo para os pesquisadores acharem uma utilidade para esses resultados. O fato de que o sangue de um macaco não se aglutina com sangue tipo A, por exemplo, não significa necessariamente que o macaco herdou o mesmo tipo de gene, compartilhado por um ancestral comum. O sangue tipo A pode ter evoluído mais de uma vez.

A incerteza lentamente começou a se dissolver na década de 1990, quando pesquisadores decifraram a biologia molecular dos tipos de sangue. Eles descobriram que um único gene, chamado ABO, é responsável pela construção do segundo andar da casa do tipo sanguíneo. A versão A do gene difere em algumas mutações-chave do B. As pessoas com sangue tipo O têm mutações no gene ABO que as impedem de fazer a enzima que constrói os antígenos A ou B.

Foi então que os cientistas puderam começar a comparar o gene ABO de humanos com outras espécies.

Laure Ségurel e seus colegas do Centro Nacional de Pesquisa Científica em Paris (França) conduziram o levantamento mais ambicioso de genes ABO em primatas até o momento. O grupo descobriu que os nossos tipos sanguíneos são muito antigos. Macacos gibões e os seres humanos têm variantes dos tipos sanguíneos A e B que vêm de um ancestral comum que viveu há 20 milhões de anos.

É possível que nossos tipos sanguíneos sejam ainda mais antigos, mas é difícil saber o quanto. Os cientistas ainda têm de analisar os genes de todos os primatas, por isso não conseguem ver quão disseminadas são nossas próprias versões de genes entre outras espécies. Contudo, as evidências reunidas até agora já revelam uma história turbulenta.

Em algumas linhagens, mutações “fecharam” um tipo sanguíneo ou outro. Os chimpanzés, nossos parentes mais próximos, têm apenas os tipos A e O. Gorilas, por outro lado, têm apenas o B. Em alguns casos, as mutações alteraram o gene ABO, transformando o sangue tipo A em B. Mesmo em humanos, surgem repetidamente mutações que impedem que a proteína ABO construa o segundo andar da casa do tipo sanguíneo. Estas mutações transformam os tipos de sangue A ou B em O. “Existem centenas de maneiras de ser tipo O”, diz Westhoff.

Afinal, por que existem tipos de sangue diferentes?

Não é difícil de deduzir que, já que os nossos tipos sanguíneos têm existido há milhões de anos, devem ter algum benefício biológico óbvio. Caso contrário, por que os glóbulos iriam se dar o trabalho de construir estas estruturas moleculares complexas?

No entanto, parece que não é tão simples assim. Os cientistas têm se esforçado para identificar os benefícios que gene ABO oferece. “Não há uma explicação boa e definitiva, embora muitas respostas tenham sido dadas”, diz Antoine Blancher, da Universidade de Toulouse, na França.

A manifestação mais evidente da nossa ignorância sobre a vantagem dos tipos sanguíneos veio à tona em Bombaim, na Índia, em 1952, quando médicos descobriram que alguns pacientes não tinham o tipo de sangue ABO – nem A, nem B, nem AB, nem O. Se A e B são edifícios de dois andares e O é uma casa de um andar, então, esses pacientes de Bombaim têm apenas um lote vazio.

Desde sua descoberta, esta condição – chamada fenótipo de Bombaim – apareceu em outras pessoas, embora continue a ser extremamente rara. E, até onde os cientistas sabem, ela não causa mal algum. O risco médico conhecido apenas apresenta-se quando é hora de uma transfusão de sangue. Aqueles com o fenótipo de Bombaim só podem aceitar o sangue de outras pessoas com a mesma condição. Mesmo tipo de sangue O, supostamente o universal, pode matá-los.

O fenótipo de Bombaim prova que não há uma vantagem de vida ou morte imediata em termos tipos sanguíneos ABO. Alguns cientistas pensam que a explicação para eles pode estar na sua variação. Isso porque diferentes tipos de sangue podem nos proteger de doenças diferentes.

Os médicos começaram a notar uma ligação entre os tipos de sangue e diferentes doenças no meio do século XX, e a lista continua a crescer. “Ainda há muitas associações a serem encontradas entre os grupos sanguíneos e infecções, câncer e uma série de doenças”, explica Pamela Greenwell, da Universidade de Westminster (Inglaterra).

Greenwell explica que portadores do tipo A estão sob maior risco de contrair vários tipos de câncer – como algumas formas de câncer de pâncreas e leucemia -, doenças cardíacas, varíola e malária grave. Já pessoas com tipo O, por exemplo, são mais propensas a terem úlceras e o tendão de Aquiles rompido.

Estas ligações entre os tipos de sangue e doenças são misteriosamente arbitrárias e os pesquisadores só começaram a trabalhar nas razões por trás de algumas delas. Por exemplo, Kevin Kain e seus colegas da Universidade de Toronto, no Canadá, têm estudado por que as pessoas com o tipo O estão melhor protegidas contra a malária severa do que pessoas com outros tipos de sangue. Seus estudos indicam que as células do sistema imunológico reconhecem mais facilmente as células do sangue infectadas se elas são do tipo O, em vez de outros tipos de sangue.

Ainda mais intrigantes são as ligações entre os tipos de sangue e doenças que não têm nada a ver com o sangue. Um exemplo é o norovírus. Este patógeno desagradável é a ruína de navios de cruzeiro, pois pode se espalhar por centenas de passageiros, causando vômitos e diarreia violentos. Ele invade as células que revestem o intestino, deixando as células do sangue intactas. No entanto, o tipo sanguíneo das pessoas influencia o risco de serem infectadas por uma estirpe particular do norovírus.

A solução para este mistério particular pode ser encontrada no fato de que as células do sangue não são as únicas que produzem os antígenos do tipo sanguíneo. Eles também são produzidos por células nas paredes dos vasos sanguíneos, nas vias respiratórias, pele e cabelo. Muitas pessoas também secretam antígenos dos tipos de sangue em sua saliva. Os norovírus nos deixam doentes ao agarrar-se aos antígenos do tipo sanguíneo produzidos pelas células do intestino.

No entanto, um norovírus só pode se prender firmemente em uma célula se suas proteínas se encaixarem no antígeno de tipo sanguíneo da célula. Portanto, é possível que cada cepa de norovírus tenha proteínas que são adaptadas para se anexar firmemente a alguns destes antígenos, mas não todos. Isso explicaria por que o nosso tipo de sangue pode influenciar quais cepas de norovírus podem nos fazer mal.

Isso também pode ser um indício a respeito de por que uma variedade de tipos de sangue têm persistido por milhões de anos. Nossos ancestrais primatas foram trancados em uma gaiola interminável com inúmeros patógenos, incluindo vírus, bactérias e outros inimigos. Alguns desses agentes patogênicos podem ter se adaptado para explorar diferentes tipos de antígenos do tipo sanguíneo. Os patógenos que eram mais adequados para o tipo de sangue mais comum teriam se saído melhor, já que tinham o maior número de hospedeiros para infectar. Contudo, aos poucos, eles podem ter destruído essa vantagem por matar seus hospedeiros. Enquanto isso, primatas com tipos de sangue mais raros teriam prosperado, graças a sua proteção contra alguns dos seus inimigos.

Analisar essa possibilidade deixa tudo ainda mais intrigante, nos levando a crer que os tipos sanguíneos nada tem a ver com o sangue, em si. Eles podem ter surgido, e permanecido, como um mecanismo evolutivo de defesa contra determinadas doenças, estando diretamente ligados à sobrevivência da espécie. [Gizmodo]

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1 comentário

  • Tony Monteiro:

    Muito legal esse seu artigo! Estou fazendo uma pesquisa sobre a possibilidade do tipo sanguíneo “O” ser de origem alienígena! Abraços!

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