Acabamos de descobrir que o melhor tratamento pra diabetes é uma cirurgia

Aparentemente, os médicos descobriram que o melhor tratamento para diabetes é cirurgia.

Pelo menos, é isso que dizem as novas diretrizes clínicas publicadas no Diabetes Care, um jornal da Associação Americana de Diabetes, avaliado por 45 sociedades profissionais em todo o mundo.

De acordo com tais diretrizes, o procedimento operatório que envolve a manipulação do estômago ou intestino deve ser considerado uma opção de tratamento padrão para os candidatos apropriados.

Esta recomendação segue vários estudos clínicos que mostram que a cirurgia gastrointestinal pode melhorar os níveis de açúcar no sangue, de forma mais eficaz do que qualquer outra intervenção farmacêutica ou de estilo de vida. Pode, inclusive, levar à remissão a longo prazo da doença.

Cirurgia de perda de peso

De fato, as diretrizes chegam quase 100 anos após as primeiras observações clínicas de que o diabetes poderia ser melhorada ou até curada por uma operação cirúrgica.

O número de adultos em todo o mundo com diabetes quadruplicou de 108 milhões em 1980 para 422 milhões em 2014. Cerca de 90% dessas pessoas têm diabetes tipo 2, uma das principais causas de insuficiência renal, cegueira, danos nos nervos, amputações, ataque cardíaco e acidente vascular cerebral.

Menos de 50% das pessoas com diabetes tipo 2 controlam adequadamente seus níveis de açúcar no sangue, seja alterando sua dieta ou regime de exercícios, seja com remédios.

As novas diretrizes recomendam que os procedimentos de cirurgia metabólica sejam considerados especificamente para o tratamento de diabetes em pessoas que não controlaram adequadamente seus níveis de açúcar no sangue por outros meios, e cujo IMC (índice de massa corporal) seja maior que 30.

Esses procedimentos incluem o que é comumente chamado de cirurgia bariátrica ou de perda de peso. Existem diferentes abordagens. Os cirurgiões podem, por exemplo, remover uma porção do estômago da pessoa. Ou podem dividir o estômago em dois e encaminhar o intestino delgado para a parte superior.

A decisão

O que os médicos descobriram é que o trato gastrointestinal é um alvo biológico apropriado para intervenções destinadas a tratar a diabetes.

Tal achado se baseia em descobertas de um grande corpo de trabalho, incluindo 11 estudos clínicos randomizados realizados ao longo da última década. Nestes estudos, a maioria das pessoas tratadas cirurgicamente (até 80% em uma pesquisa recente que durou 5 anos) alcança remissão aparente da diabetes, ou seus níveis de açúcar no sangue podem ser estabilizados usando medicação ou exercício e dieta.

Os efeitos da cirurgia na doença são dramáticos. No entanto, demorou quase um século para os descobrirmos. Um grande obstáculo parece ter sido a falta de um mecanismo plausível para explicar como a cirurgia gastrointestinal é capaz de resolver os sintomas da diabetes.

A mesma ausência de compreensão sobre o mecanismo atrasou a prescrição da aspirina analgésica para pessoas com doenças cardíacas no século XX. As observações clínicas no início da década de 1950 sugeriram que a aspirina poderia prevenir trombose, mas estudos em grande escala para testar a capacidade da droga de prevenir ataques cardíacos só começaram na década de 1970.

Não é só perda de peso

Agora já sabemos que os efeitos dramáticos da cirurgia na diabetes não são apenas uma consequência da perda de peso.

As alterações na anatomia gastrointestinal podem influenciar diretamente a homeostase da glicose.

Ao longo da última década, os esforços para explicar essa ligação identificaram vários mecanismos potenciais. Por um lado, a cirurgia parece alterar a quantidade e o tempo da secreção de hormônios intestinais, o que, por sua vez, influencia a produção de insulina. As experiências também sugerem que a cirurgia pode aumentar a produção de certos ácidos biliares que tornam as células mais sensíveis à insulina ou aumentam a absorção de glicose pelas próprias células intestinais, reduzindo assim os níveis de glicose no sangue.

As mudanças induzidas por cirurgia na composição da microbiota intestinal e na eficiência da detecção de nutrientes intestinais também parecem contribuir para os bons resultados.

Alternativas

Apesar das descobertas, os altos custos da cirurgia significam que, em países de baixa e média renda, onde as taxas da doença estão aumentando rapidamente, essa provavelmente não será uma opção disponível para a maioria dos pacientes.

Mas a inclusão da cirurgia como um tratamento eficaz poderia influenciar o cuidado do diabetes como um todo. O amplo endosso à operação deve inspirar inclusive novas abordagens. Pesquisadores e clínicos já estão tentando imitar os efeitos da cirurgia gastrointestinal usando intervenções menos invasivas.

Por exemplo, um dispositivo atualmente em teste na Europa envolve a passagem de um balão pela boca do paciente até o seu duodeno, onde ele é preenchido com água quente para tratar o revestimento celular.

A capacidade da cirurgia gastrointestinal de influenciar a homeostase da glicose e clinicamente reverter a diabetes sugere que a doença pode ser explicada, pelo menos em parte, por uma falha nos mecanismos através dos quais o intestino regula o metabolismo. Testar esta hipótese poderia fornecer informações sobre formas de prevenir e até mesmo curar a doença. [ScientificAmerican]

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