O segredo dos gatos ruivos foi finalmente descoberto depois de 60 anos de pesquisa

Após seis décadas de investigações, cientistas conseguiram identificar o gene que provoca a cor laranja nas pelagens dos gatos domésticos. O mistério, que intrigava geneticistas ao redor do mundo, agora tem uma explicação genética clara, que revela como essa característica se relaciona com o sexo dos felinos.
O gene misterioso
Em dois estudos independentes, equipes de pesquisadores chegaram à conclusão de que a pelagem laranja dos gatos é resultado da ausência de um segmento de DNA, localizado em uma parte não codificadora das proteínas do genoma felino. Essa descoberta foi possível graças a uma análise profunda das células da pele dos gatos, onde a cor laranja se origina. O gene Arhgap36, responsável por essa coloração, apresenta uma expressão 13 vezes maior nas células da pele de gatos laranjas quando comparados aos gatos de outras cores. Surpreendentemente, os cientistas esperavam encontrar uma mutação na parte do gene que codifica proteínas, mas o que encontraram foi uma deleção no segmento anterior, afetando toda a expressão do gene.

A deleção, que abrange 5 kilobases do DNA, foi identificada em todos os gatos laranja analisados pelos cientistas, após examinarem um banco de dados com 188 gatos — sendo 145 laranjas, 6 tricolores/chitae 37 gatos não laranjas. Este achado reforça a hipótese de que a mutação responsável pela cor laranja se localiza no cromossomo X, o que explica por que o número de gatos laranja machos é muito superior ao de fêmeas. Para as fêmeas, a pelagem laranja se apresenta em padrões variados, com a mistura de outras cores, como preto e branco.
Por que os gatos laranja são, na maioria das vezes, machos?
A explicação para essa disparidade de sexo na cor laranja está intimamente relacionada ao funcionamento do cromossomo X. Enquanto os machos possuem apenas um cromossomo X, as fêmeas têm dois. Isso significa que, nos machos, o gene mutado aparece apenas uma vez, enquanto nas fêmeas ele pode ser expresso em ambas as cópias do cromossomo. Mas aqui entra um aspecto curioso: em mamíferos, uma das duas cópias do cromossomo X é desativada aleatoriamente em cada célula, o que pode levar a uma pelagem multicolorida nas fêmeas. Em raros casos, se ambas as cópias do cromossomo X carregam a mutação, a fêmea poderá ter a pelagem completamente laranja, semelhante à dos machos.
Esse fenômeno também explica a variedade de padrões de pelagem encontrados nas fêmeas, como o típico tricolor, ou gato de chita — uma mistura de preto, laranja e branco. No entanto, essa diversidade de cores é apenas a superfície do que esse estudo revela sobre a genética felina.

A cor não está relacionada à inteligência dos gatos
Embora os gatos laranja tenham uma fama bem-humorada de serem os menos inteligentes da espécie, essa ideia não tem base científica. Não há qualquer evidência de que a mutação responsável pela cor laranja afete as capacidades cognitivas dos felinos. Pelo contrário, a sobreexpressão do gene Arhgap36 ocorre apenas em células pigmentares da pele, não em áreas do cérebro ou órgãos vitais.
O gene Arhgap36 já é conhecido por causar problemas de desenvolvimento em outras espécies, quando está subexpressado ou superexpressado. No entanto, nos gatos laranja, ele não apresenta efeitos adversos à saúde, nem no desenvolvimento mental dos felinos. O que a mutação realmente faz é alterar a forma como a melanina, o pigmento responsável pela cor do pelo, é produzida, resultando em tonalidades de laranja e vermelho.
O que a ciência descobriu sobre a mutação das pelagens laranja
Outro estudo, liderado pelo geneticista Hidehiro Toh, da Universidade de Kyushu, também identificou o gene Arhgap36 como o responsável pela pelagem laranja nos felinos. Os cientistas descobriram que a expressão aumentada desse gene inibe os genes responsáveis pela produção de pigmentos escuros (eumelanina), substituindo-os por pigmentos mais claros, como os responsáveis pelas tonalidades de amarelo e vermelho (feomelanina).
Essa descoberta é um marco no entendimento da biologia dos gatos e poderá ter implicações mais amplas na genética dos mamíferos, especialmente em relação ao estudo dos cromossomos sexuais e suas influências nas características fenotípicas.
Ambos artigos científicos estão aguardando revisão por pares e pode ser encontrados aqui e aqui.
