Humanos dormiam duas vezes por noite. Por que isso desapareceu?

Durante boa parte da existência humana, a ideia de deitar e só levantar oito horas depois simplesmente não fazia sentido. O padrão que hoje tratamos como “sono normal” é, na verdade, um comportamento recente, moldado pela luz elétrica, pelas rotinas industriais e pelas maneiras modernas de contar o tempo.
Historicamente, era comum que as pessoas dormissem em dois períodos distintos a noite longa — o sono bifásico — se dividia naturalmente entre um primeiro sono e um segundo sono, separados por um intervalo desperto bem no meio.
Registros de diferentes regiões mostram que esse padrão não era uma extravagancia exótica ou rara; era cotidiano. Não apenas cartas e diários de séculos passados falam disso, como também textos de autores antigos, incluindo Homero e Virgílio, que mencionam a transição entre o primeiro descanso e as atividades noturnas antes de retornar para a cama.
Esse intervalo não era considerado insônia ou falha do corpo; ao contrário, era um momento reconhecido e até valorizado. Em muitas casas nas aldeias e cidades pré-industriais as famílias acordavam, conversavam, verificavam o fogo, observavam os animais ou simplesmente descansavam em silêncio sem pressa
Em alguns lugares, casais aproveitavam esse período para intimidade, enquanto outros se dedicavam a orações, leituras discretas ou reflexões sobre sonhos recém-vividos
Por que o sono bifásico
O ambiente moldava o ritmo das noites. Sem lâmpadas, telas ou iluminação urbana, a escuridão chegava cedo. As pessoas se recolhiam logo após o pôr do sol, o que fazia com que o descanso começasse muito mais cedo do que hoje.
Esse início precoce naturalmente levava a um despertar por volta da meia-noite, quando a melatonina estava em queda e o corpo não via problema algum em ficar desperto por um tempo antes de iniciar o segundo ciclo.
Paleontólogos e antropólogos ressaltam que o tempo noturno era percebido de forma diferente do nosso olhar contemporaneo. A noite não era uma linha contínua, mas um intervalo com um “meio”. Em períodos longos de inverno, isso tornava a escuridão menos pesada e mais organizada.
Documentos de comunidades rurais e sociedades agrárias afirmam que esse despertar era tão habitual que ninguém se preocupava com ele. Não havia expectativa de um sono “ininterrupto” que pudesse ser quebrado ou “perdido”
Como o segundo sono desapareceu
A chegada da iluminação artificial no século 18 alterou radicalmente a noite humana. Primeiro com lamparinas a óleo, depois gás e, por fim, eletricidade, a escuridão deixou de ser inevitável e ganhou concorrência. A vida social, o trabalho e o lazer começaram a invadir o horário antes reservado para dormir.
A luz forte no período noturno, além de oferecer novas possibilidades, bagunçou o relógio interno. A supressão da melatonina fez o corpo demorar mais para entrar na fase profunda do sono e reduziu a probabilidade de despertar natural no meio da noite.
Com a Revolução Industrial, fábricas adotaram horários fixos. Tornou-se conveniente — até exigido — que trabalhadores dormissem em um único bloco para garantir produtividade. O padrão se consolidou rapidamente se tornando símbolo de disciplina e modernidade
Pesquisas recentes observando populações sem eletricidade mostram que o modelo bipartido ainda surge espontaneamente. Comunidades agrícolas em Madagascar, por exemplo, continuam frequentemente a adotar dois períodos de descanso ao longo da noite
O que isso diz sobre a insônia hoje
Quando alguém desperta às três da manhã e acredita que algo está errado, a sensação de estranhamento vem mais da cultura do que da biologia. O corpo humano ainda carrega a antiga tendência de fragmentar o sono em dois turnos.
Especialistas em sono explicam que despertar entre ciclos é comum. É o modo como reagimos ao despertar que cria ou não um problema. Se permanecemos deitados olhando o relógio o tempo parece se alongar de maneira desconfortavel.
Técnicas de terapia cognitivo-comportamental orientam justamente o contrário: levantar-se, manter a luz baixa, fazer uma atividade calma, como ler, e retornar à cama quando o sono reaparece sem culpa ou cobrança.
Além disso, estudos do Environmental Temporal Cognition Lab da Keele University mostram que nossa percepção do tempo muda em ambientes menos iluminados. Quando o humor está mais baixo, minutos parecem durar muito mais do que realmente duram
Em outras palavras: não é apenas a dificuldade de dormir que incomoda, mas a maneira como nossa mente mede e interpreta esse intervalo.
Talvez, ao entendermos que esse despertar noturno foi a regra por milênios, e não a exceção, possamos lidar com ele de forma mais leve. Em um mundo obcecado por eficiência, recuperar a naturalidade do descanso pode ser um ato de cuidado consigo mesmo — e de reconexão com algo muito antigo que ainda vive em nós.
Via The Conversation
