Tatuagens milenares de mumías reveladas com lasers: o que elas nos contam

As tatuagens de mumías com mais de 1.200 anos, encontradas no Perú, agora podem ser apreciadas em detalhes impressionantes graças a uma técnica moderna que combina lasers e fotografia de exposição prolongada. Essa descoberta abre uma janela para compreender melhor as práticas culturais da civilização Chancay, que viveu na região muito antes da chegada dos europeus.
O brilho do passado: como lasers trouxeram arte antiga à vida
No Vale do Huaura, no Perú, o cemitério de Cerro Colorado revelou, em 1981, cerca de 100 mumías Chancay, muitas delas tatuadas. Embora as marcas fossem visíveis a olho nu, a passagem do tempo tinha borrado e desbotado os desenhos originais, tornando quase impossível interpretar o que representavam. Foi então que a equipe liderada por Michael Pittman, da Universidade Chinesa de Hong Kong, decidiu utilizar lasers para resgatar essas histórias ocultas na pele.
O método é simples, mas engenhoso: os lasers fazem a pele das mumías brilhar em um tom intenso, enquanto a tinta das tatuagens não fluoresce. Essa diferença cria um contraste marcante que permite visualizar não apenas as marcas superficiais, mas também a tinta que penetrou nas camadas mais profundas da pele. A melhor parte? Nenhum dano é causado aos restos mortais.
Agulhas de cactos e ossos afiados: o processo artesanal
Os pesquisadores acreditam que essas tatuagens, tão delicadas e detalhadas, foram feitas usando agulhas de cactos ou ossos afiados mergulhados em tinta. A alternativa, um método mais agressivo de “cortar e preencher”, não teria permitido tamanha precisão. Segundo Pittman, a fineza dos desenhos demonstra o elevado nível de habilidade dos artistas Chancay.

Outro ponto fascinante é a recorrência de padrões geométricos como triângulos e losangos, que também aparecem em cerâmicas e tecidos da cultura Chancay. Esse detalhe sugere uma integração cultural profunda entre diferentes formas de expressão artística. Algumas figuras de cerâmica, inclusive, retratam humanos com desenhos semelhantes aos encontrados nas tatuagens, consolidando a importância simbólica dessa prática.
Similaridades entre o antigo e o moderno
Nem todas as tatuagens eram elaboradas. Algumas apresentavam desenhos simples e pequenos, enquanto outras demandavam dedicação e tempo para sua criação. Esse contraste reflete uma diversidade que também vemos hoje, onde as tatuagens podem ser tanto expressões pessoais quanto demonstrações de status social.
Os Chancay pareciam valorizar bastante essa forma de arte, dado o elevado número de mumías com tatuagens. Isso levanta questões interessantes sobre o papel das tatuagens em sua sociedade: seriam rituais, sinais de pertencimento ou apenas decorações pessoais? Estudos futuros, utilizando a mesma técnica de fluorescência a laser, podem ajudar a responder essas perguntas, além de explorar como outras culturas antigas usavam essa forma de arte.
Um método com potencial global
A técnica empregada pela equipe de Pittman não apenas trouxe à luz detalhes das tatuagens Chancay, mas também abriu um leque de possibilidades para estudar outros povos antigos. A combinação de lasers e fotografia de longa exposição pode ser aplicada em diversas culturas que também usaram tatuagens, permitindo que cientistas descubram padrões, materiais utilizados e significados culturais.
Com tantas histórias tatuadas esperando para serem contadas, a técnica promete revolucionar a maneira como entendemos as práticas corporais de civilizações passadas.
O artigo científico foi publicado na revista PNAS.
