Dentes de 29 mil anos sugerem que crianças da Idade do Gelo usavam piercings nas bochechas.

Por , em 5.02.2025

Em um canto da história antiga, onde a ciência encontra o mistério, surge uma explicação fascinante para os desgastes dentários observados em restos humanos da última Idade do Gelo na Europa Central: piercings na bochecha. Esta hipótese, lançada por um pesquisador em Portugal, pode finalmente esclarecer um enigma que tem desafiado os especialistas há décadas.

Um novo olhar sobre os caçadores-coletores Pavlovianos

O antropólogo biológico John C. Willman, do Laboratório de Pré-História da Universidade de Coimbra, sugere que os povos Pavlovianos, que habitaram a Europa Central há cerca de 25.000 a 29.000 anos, usavam labrets, um tipo de piercing na bochecha. Segundo seu estudo, publicado no Journal of Paleolithic Archaeology, esses adereços poderiam ser a razão por trás dos desgastes dentários incomuns encontrados em muitos restos Pavlovianos bem preservados.

Willman comenta que, ao trabalhar em sua tese de doutorado, ficou intrigado com os padrões de desgaste nos dentes caninos e molares de sítios Pavlovianos. Além do desgaste normal nas superfícies de mastigação, ele notou planos de desgaste planos nas superfícies ‘bucais’, ou seja, aquelas que enfrentam o interior da bochecha. Esse desgaste se assemelhava ao causado por labrets e outros piercings faciais observados em casos bioarqueológicos e clínicos.

Curiosamente, pesquisas anteriores ofereceram outras explicações, como a hipótese de que os Pavlovianos mantinham pequenas pedras na boca para estimular a salivação. No entanto, a análise de Willman, que incluiu exames de restos dentários e fotos, levou à conclusão de que os labrets eram uma causa provável das superfícies bucais planas.

Um ritual de passagem ou moda pré-histórica?

Os desgastes dentários identificados em adultos, adolescentes e até crianças Pavlovianas, com idades entre seis e dez anos, sugerem que o uso de labrets poderia ter sido uma prática cultural comum, talvez um rito de passagem relacionado à idade. Willman propõe que as crianças recebiam um labret em um lado do rosto em tenra idade, enquanto os adultos frequentemente apresentavam evidências de piercings em ambos os lados.

Embora não tenham sido encontrados labrets em sepulturas Pavlovianas, o pesquisador sugere que eles poderiam ter sido feitos de materiais perecíveis como madeira ou couro, que não resistiram ao tempo. Outra possibilidade é que os Pavlovianos não enterravam seus mortos com esses adornos.

Essa teoria, mesmo sem provas físicas diretas, oferece uma nova perspectiva sobre os comportamentos sociais e culturais dos povos da Idade do Gelo. Afinal, as superfícies bucais desgastadas são uma manifestação física de práticas Pavlovianas que marcaram suas experiências de vida.

Redescobrindo tendências antigas

Se você pensava que piercings na bochecha eram uma moda moderna, é hora de reavaliar. Esta pesquisa não só sugere que tais adereços eram populares há milênios, mas também destaca a complexidade e a diversidade das culturas antigas. Assim como hoje, onde a moda pode ser uma expressão pessoal ou um símbolo de status, parece que nossos ancestrais já exploravam maneiras de se destacar.

A descoberta de Willman não apenas redefine nossa compreensão dos Pavlovianos, mas também nos lembra que, por trás de cada osso antigo, há histórias não contadas de vida humana. Esperamos que futuras pesquisas e achados arqueológicos possam lançar mais luz sobre essas práticas intrigantes.

Para mais informações sobre este estudo, você pode acessar o artigo completo no Journal of Paleolithic Archaeology.

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