Cientistas transferem pensamentos diretamente entre cérebros de humanos via internet

Por , em 24.09.2015

Imagine um jogo de perguntas e resposta jogado por duas pessoas que não estão no mesmo lugar e não podem falar uma com a outra. Rodada após rodada, um jogador faz uma série de perguntas e adivinha com precisão o objeto que o outro está pensando como resposta.

Não é o roteiro de um filme de ficção científica, mas sim a descrição de uma nova pesquisa da Universidade de Washington, nos EUA, que utilizou recentemente uma conexão direta cérebro-cérebro para permitir que participantes transmitissem sinais de um para outro através da internet.

O experimento, detalhado na revista PLoS ONE, é o primeiro a mostrar que dois cérebros podem ser diretamente ligados para permitir que uma pessoa adivinhe com precisão o que está na mente de outra.

“Este é o experimento mais complexo cérebro-cérebro já feito até agora em humanos”, disse o principal autor do estudo, Andrea Stocco, professor assistente de psicologia e pesquisador do Instituto para Aprendizagem & Ciência do Cérebro da Universidade.

Como funciona a transmissão de pensamentos

O primeiro participante (entrevistado) veste uma “toca” ligada a uma máquina de eletroencefalografia (EEG) que registra a atividade elétrica do cérebro. Ele vê um objeto (por exemplo, um cão) na tela do computador, e o segundo participante (entrevistador) vê uma lista de possíveis objetos e questões associadas.

Com o clique de um mouse, o entrevistador envia uma pergunta e o entrevistado responde “sim” ou “não”, concentrando-se em uma das duas luzes LED piscando em diferentes frequências conectadas ao monitor.

Ambas as respostas enviam um sinal para o entrevistador através da internet e ativam uma bobina magnética posicionada atrás de sua cabeça. Mas apenas o “sim” gera uma resposta intensa o suficiente para estimular o córtex visual e fazer com que a pessoa veja um flash de luz conhecido como “fosfeno”.

Através das respostas a estas simples perguntas “sim” ou “não”, o entrevistador identifica o item correto.

O experimento

O experimento foi realizado em salas escuras de dois laboratórios da Universidade, localizados a cerca de um quilômetro de distância, e envolveu cinco pares de participantes que jogaram 20 rodadas do jogo de perguntas e respostas.

Cada jogo tinha oito objetos e três perguntas. As sessões eram uma mistura aleatória de 10 jogos reais e 10 jogos de controle, estruturados da mesma maneira.

Precauções

Os pesquisadores tomaram muitas medidas para garantir que os participantes não “trapaceassem”.

Por exemplo, para que não usassem outro tipo de comunicação que não a direta entre cérebros, os participantes colocaram tampões de ouvido para que não pudessem ouvir os diferentes sons produzidos pelas diferentes intensidades de estímulo das respostas.

Como o ruído viaja através do osso do crânio, os pesquisadores também mudaram as intensidades de estimulação de jogo para jogo, usando três intensidades diferentes para cada resposta “sim” e “não” aleatoriamente, reduzindo ainda mais a chance de que o som fornecesse pistas.

Os pesquisadores também reposicionaram a bobina na cabeça do entrevistador no início de cada jogo, e nos jogos de controle, adicionaram um espaçador de plástico não detectável a touca do participante, que enfraqueceu o campo magnético o suficiente para evitar a geração de fosfenos.

Os participantes não foram informados se haviam identificado corretamente os itens, e apenas o pesquisador ao lado de cada entrevistado sabia se o jogo era real ou uma rodada de controle.

Resultados

Os participantes foram capazes de adivinhar o objeto correto em 72% dos jogos reais, em comparação com apenas 18% das rodadas de controle.

Suposições incorretas nos jogos reais podem ter sido causadas por vários fatores, por exemplo, incerteza sobre se um fosfeno tinha aparecido ou não.

“Eles têm que interpretar algo que estão vendo com seus cérebros,” disse o coautor do estudo, Chantel Prat, professor adjunto de psicologia. “É algo que nunca viram antes”.

Os erros também podem resultar do fato de os entrevistados não saberem as respostas às perguntas, ou de focarem em ambas as respostas, ou pela interrupção da transmissão do sinal do cérebro por problemas de hardware.

O futuro está aqui

Em 2013, pesquisadores da Universidade de Washington foram os primeiros a demonstrar uma ligação direta cérebro-cérebro entre seres humanos. Naquele experimento, a equipe usou tecnologia não invasiva para enviar sinais cerebrais de uma pessoa a fim de controlar os movimentos de outra, através da internet.

O novo experimento evoluiu dessa pesquisa. O próximo passo é explorar a possibilidade de “tutoria por cérebro”, a transferência de sinais diretamente de cérebros saudáveis para cérebros deficientes ou impactados por fatores externos, como um acidente vascular cerebral, ou simplesmente a transferência de conhecimento do professor para aluno.

A equipe também está trabalhando na transmissão de estados cerebrais – por exemplo, o envio de sinais de uma pessoa alerta para uma sonolenta, ou de um aluno focado para um que tenha déficit de atenção e hiperatividade.

Muitos avanços tecnológicos ao longo do século passado, do telégrafo a internet, foram criados para facilitar a comunicação entre as pessoas. Esse é mais um desses avanços.

“A evolução tem gasto uma quantidade colossal de tempo para encontrar maneiras de nós e outros animais levarmos informações para fora de nossos cérebros e comunicá-las a outros animais nas formas de comportamento, fala e assim por diante”, disse Stocco. “Mas isso requer uma tradução. O que estamos fazendo é pegando sinais do cérebro e, com tradução mínima, colocando-os no cérebro de outra pessoa”.

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