Ligação de doença de Parkinson com bactérias do intestino sugerem um simples e inesperado tratamento

Por , em 3.12.2024

A relação entre o intestino e o cérebro está ganhando destaque na pesquisa médica, especialmente em doenças neurodegenerativas como o Parkinson. Um estudo recente trouxe à tona um possível elo entre bactérias intestinais e a deficiência de vitaminas B2 (riboflavina) e B7 (biotina), sugerindo um caminho simples e promissor para tratamentos.

O papel da vitamina B no tratamento do Parkinson

O mal de Parkinson, que afeta cerca de 10 milhões de pessoas em todo o mundo, é notoriamente complexo. Seus sintomas, como constipação e distúrbios do sono, podem aparecer até duas décadas antes das manifestações mais severas, como perda de controle motor e demência. A conexão com o intestino já era suspeitada, mas novos dados mostram alterações no microbioma intestinal muito antes do início dos sintomas clássicos.

Cientistas da Universidade de Nagoya, no Japão, analisaram amostras fecais de 94 pacientes com Parkinson e 73 pessoas saudáveis, comparando os resultados com dados de outros países, incluindo China, Alemanha e Estados Unidos. Apesar das variações regionais nas bactérias intestinais, todas influenciavam os processos responsáveis pela produção de vitaminas B no organismo.

Cerca de 10 milhões de pessoas no mundo sofrem de Parkinson.

Como o microbioma intestinal se conecta à vitamina B e ao Parkinson

O estudo revelou que mudanças nas bactérias intestinais reduzem os níveis de riboflavina e biotina. Essas deficiências, por sua vez, levam a uma queda na produção de ácidos graxos de cadeia curta e poliaminas, moléculas cruciais para a integridade do muco intestinal. Como resultado, a barreira intestinal fica mais permeável, expondo o sistema nervoso a toxinas ambientais como pesticidas e produtos químicos de limpeza.

Essas toxinas podem desencadear a formação de fibrilas de α-sinucleína, que se acumulam nas células produtoras de dopamina no cérebro, agravando a inflamação e os sintomas motores do Parkinson.

Pesquisadores identificaram uma diminuição nas bactérias intestinais que possuem genes responsáveis pela produção das vitaminas essenciais B2 (riboflavina) e B7 (biotina) em indivíduos com Parkinson. Imagem: Reiko Matsushita

Tratamento com vitaminas: uma esperança para o Parkinson

A deficiência de vitaminas B não é apenas um detalhe curioso: ela pode ser um fator-chave. Estudos anteriores já indicaram que doses elevadas de riboflavina podem ajudar a recuperar funções motoras em pacientes que também eliminam carne vermelha da dieta. Esse achado reforça a ideia de que suplementar riboflavina e biotina pode ser uma abordagem eficaz, pelo menos para pacientes cujo microbioma desempenha um papel central na doença.

Os pesquisadores propõem ainda que uma análise personalizada do microbioma intestinal ou dos metabólitos fecais poderia identificar indivíduos com essas deficiências específicas. Para eles, administrar suplementos de vitaminas B nesses casos pode se tornar um tratamento eficiente e acessível.

Resumo dos achados do estudo e hipóteses baseadas em pesquisas anteriores. Imagem: Nishiwaki et al., npj Parkinson’s Disease, 2024

Pesquisas promissoras sobre vitamina B no tratamento contra Parkinson

Além das vitaminas, proteger o microbioma também envolve mudanças ambientais e alimentares. Reduzir a exposição a poluentes e promover dietas que favoreçam bactérias benéficas pode ser igualmente crucial. Como a diversidade bacteriana varia entre populações, estratégias personalizadas são fundamentais.

Alimentos ricos em vitaminas B2 (riboflavina) e B7 (biotina), amplamente disponíveis no Brasil, podem ser aliados na dieta de quem busca benefícios para o intestino e o cérebro. Fontes de riboflavina incluem leite, ovos, amêndoas, espinafre e carne vermelha magra, enquanto biotina pode ser encontrada em nozes, amendoim, ovos cozidos, batatas-doces e bananas. Esses alimentos são fáceis de integrar ao cardápio diário, contribuindo para um microbioma intestinal mais saudável, fator que estudos sugerem ser relevante no tratamento de doenças como o Parkinson.

Por enquanto, a pesquisa abre portas, mas deixa claro que o Parkinson é uma doença multifatorial, exigindo abordagens adaptadas para cada paciente.

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