Esses tratamentos populares para dor nas costas não funcionam, segundo nova pesquisa

Se você já tentou de tudo para aliviar aquela dor persistente na lombar — de massagens com nomes esotéricos a comprimidos milagrosos — prepare-se para uma ducha fria de realidade: a maioria desses métodos funciona tão bem quanto uma bala de hortelã. Pelo menos é o que mostra uma revisão robusta publicada na BMJ Evidence-Based Medicine que analisou os efeitos analgésicos de tratamentos não cirúrgicos e não invasivos para dores lombares.
Depois de esmiuçar dados de 301 ensaios clínicos randomizados, abrangendo 56 tipos de terapias testadas em 44 países, os pesquisadores descobriram que apenas uma em cada dez intervenções populares oferece algum benefício real — e mesmo essas melhorias são modestas. Como quem ganha um prêmio de consolação, os pacientes experimentam alívio apenas um pouquinho maior do que os que tomaram placebo.
O estudo focou em dores lombares inespecíficas, ou seja, aquelas que surgem sem motivo claro — um tipo que representa entre 80% e 90% dos casos. Nessa categoria, não adianta procurar hérnia, fratura ou qualquer anormalidade: o motivo da dor continua um mistério digno de CSI.
Terapias mais testadas: quem reina no número de estudos, mas não nos resultados
Entre os tratamentos mais investigados estavam os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), os opioides, a acupuntura, a terapia com laser e a mobilização manual. AINEs, como o ibuprofeno, lideraram com 27 ensaios. Já os opioides, apesar de seu alto risco de dependência, foram alvo de 26 estudos. A acupuntura apareceu em 24, seguida de perto pela terapia a laser (25) e pela manipulação suave da coluna (19).
A grande maioria dos estudos avaliou pacientes com dor lombar crônica — aquela que persiste por mais de três meses — enquanto apenas 52 focaram em casos agudos. O método de avaliação da dor variava, mas geralmente usava escalas numéricas ou visuais.
Apesar de tantos dados, a qualidade das evidências não inspirava confiança: apenas 16% das comparações entre tratamentos tinham grau de certeza moderado; 36% foram classificadas como de baixa qualidade e quase metade caiu na categoria “muito baixa”, segundo o sistema GRADE, um padrão internacional de avaliação científica.
Afinal, o que realmente funciona (um pouco)?
Se você tem dor lombar aguda, a ma notícia é que praticamente nada se destaca como eficaz — exceto os já mencionados AINEs. Para os casos crônicos, a história muda um pouco. Exercícios físicos, manipulação espinhal, fitas adesivas terapêuticas (sim, aquelas que parecem coisa de atleta olímpico), antidepressivos e medicamentos que ativam receptores TRPV1 (envolvidos na sensação de dor) mostraram algum efeito positivo.
Mas não se empolgue: os benefícios são pequenos. Aquela melhora que mal dá para notar entre uma reunião chata e outra pode ser o máximo que você vai conseguir. Talvez o maior feito desses tratamentos seja o poder de alimentar a esperança — que, convenhamos, também tem seu valor.
Quando a ineficácia é quase uma tradição
Os autores também encontraram provas razoavelmente sólidas de que algumas terapias não fazem diferença nenhuma. No caso das dores agudas, exercício físico, injeções de corticoides e paracetamol mostraram-se inúteis. Para as dores crônicas, lidocaína e antibióticos ficaram com a medalha de… irrelevância.
Em vários casos, os resultados foram tão confusos que os pesquisadores não conseguiram concluir nada com confiança. Isso vale tanto para remedios (como antidepressivos combinados com paracetamol, bisfosfonatos e relaxantes musculares) quanto para abordagens alternativas como osteopatia, acupuntura, massagens e aparelhos de TENS de estimulação elétrica.
Não ajuda o fato de que muitos estudos tinham poucos participantes e usavam placebos de qualidade duvidosa. O que, claro, pode distorcer os resultados — e até deixar o placebo com cara de herói.
A lombalgia como mercado e mito
Hoje, a dor lombar é um dos maiores motivos de afastamento do trabalho no mundo. Não é surpresa que o mercado esteja recheado de promessas tentadoras — de colchões mágicos a cintas abdominais com tecnologia “espacial” O problema é que a ciência, essa criatura metódica e sem pressa, insiste em estragar a festa.
Como editor de jornalismo científico, vejo um padrão recorrente: tratamentos populares muitas vezes sobrevivem mais pela narrativa do que pela eficácia. A ideia de que “pelo menos não faz mal” precisa ser substituída por um novo mantra: “vale o custo, o tempo e a expectativa?”. E não estou falando só de dinheiro, mas de paciência e esperança investidas.
Aliás, a pesquisa aponta que uma das maiores necessidades hoje é a realização de ensaios maiores, melhor planejados e com controles de placebo mais consistentes. Parece básico, mas ainda estamos longe disso. Até lá, vamos continuar tropeçando em promessas e, quem sabe, nos apoiando no velho amigo calor úmido — que, mesmo sem evidência forte, continua ganhando a simpatia do público.
,Mesmo com tantos dados, o artigo ressalta: nenhuma das terapias analisadas mostrou efeitos significativamente robustos, o que vai ao encontro de diretrizes clínicas anteriores. A medicina, nesse caso, continua pedindo calma e ceticismo.
