Calendário Olímpico em um computador de 2000 anos

Publicado em 6.08.2012

 

Por Mustafá Ali Kanso

Um dos mais polêmicos achados arqueológicos do mundo – o mecanismo de Anticítera ou máquina de Antikythera – tem mais uma de suas funções reveladas: a previsão dos ciclos de quatro anos dos jogos olímpicos e outros jogos pan-helênicos correntemente usados no helenismo clássico como base para a sua cronologia.

Tendo sido descoberto no início do século XX juntamente com várias outros objetos nos restos de um naufrágio de um antigo navio romano à profundidade de aproximadamente 43 metros na costa da ilha grega de Anticítera (entre a ilha de Citera e a de Creta), sua importância e complexidade não foram compreendidos até recentemente.

A construção foi datada do século 1 a.C, sendo que artefatos desse nível de tecnologia e de complexidade só foram registrados a partir do século XVI, quando relógios e mecanismos astronômicos começaram a ser construídos na Europa Ocidental.

O professor Michael Edmunds da Universidade de Cardiff, que liderou seu estudo mais recente afirmou: “Este dispositivo é simplesmente extraordinário, é o único de seu tipo. O design é de rara beleza e sua precisão nas previsões astronômicas é impressionante. Considerando o cuidado de sua construção e a unicidade de seu funcionamento, tenho que considerar este mecanismo, do ponto vista histórico, como sendo mais valioso que a pintura Mona Lisa”.

Compõe atualmente do acervo do Museu Arqueológico Nacional de Atenas, acompanhado de uma réplica elaborada por Derek de Solla Price, sendo que diversas outras réplicas estão em exposição em vários museus em todo o mundo, tais como Museu do Computador Americano em Bozeman, Montana, Museu das Crianças de Manhattan, em Nova York, em Kassel, Alemanha, e no Musée des Arts et Métiers, em Paris.

O mecanismo encontrado mede aproximadamente 340 × 180 × 90 mm (o tamanho aproximado de um laptop) e compreende 27 engrenagens de bronze, feitas a mão, organizadas primitivamente em uma caixa ou moldura de madeira, constituindo-se no mais antigo computador analógico conhecido, concebido para representar mecanicamente a órbita da Lua, de outros planetas do Sistema Solar e do próprio Sol além de indicar, como afirmado anteriormente, os ciclos de 4 anos dos jogos olímpicos e de outros eventos tais como eclipses solares.

O artefato é também notável por empregar a engrenagem diferencial, que se acreditava ter sido inventada apenas no século XVI, e pelo nível de miniaturização e complexidade de suas partes, comparável às dos relógios produzidos a partir do século XVIII.

Estima-se que em sua construção tenham sido utilizadas muito mais engrenagens que as encontradas, supondo-se que muitas se perderam, provavelmente durante os 2000 anos em que o dispositivo ficara submerso até seu resgate em 1901.

Todas as inscrições encontradas no mecanismo foram feitas em grego koiné, sugerindo que o mecanismo tenha sido construído no mundo helênico em 97 a.C provavelmente em uma academia fundada pelo filósofo estoico Posidônio na ilha grega de Rhodes, que na época era conhecida como um centro de astronomia e engenharia mecânica; esta hipótese sugere ainda que o mecanismo possa ter sido projetado pelo astrônomo Hiparco, uma vez que contém em sua dinâmica de funcionamento vários elementos de sua célebre Teoria Lunar.

Recentes descobertas sugerem ainda que o conceito para sua construção tenha origem mais provável nas colônias de Corinto, o que pode implicar uma conexão com o grande Arquimedes de Siracusa.

A polêmica sobre sua funcionalidade e precisão, ganhou força pela divulgação de várias teorias que aventam a existência de civilizações mais avançadas que contribuíram para o avanço da humanidade em tempos imemoriais compondo uma tecedura intricada de descobertas arqueológicas no mínimo inquietantes. Descobertas essas agrupadas em torno do conceito de OOPART (Out of Place Artifact).

Aliás, esse é um dos meus temas preferidos, inclusive abordado em alguns de meus contos, tais como os premiados “Propriedade Intelectual” e “Singularis Verita” (A Cor da Tempestade, Multifoco – Rio de Janeiro – 2011) e no meu romance “O Mesmo Sol que Rompe os Céus” (ainda no prelo), reportando-se a essas tão estranhas teorias que tendem a nos apresentar “verdades muito singulares”.

Polêmicas à parte, esse artefato pode ser prova de que a história, como nos foi ensinada na escola é, no mínimo, incompleta ou subestima a nossa capacidade de evolução e de criação; podendo atuar também como um convite à superação de nossos preconceitos.

Nesse nosso calendário Olímpico, a meu ver, não há nada mais competitivo do que isso:

- Superarmos nós mesmos, todos os dias, ante o girar das engrenagens insólitas de um computador de dois mil anos.

-o-

Em tempo: O termo “OOPART” foi criado pelo biólogo e escritor escocês naturalizado americano, Ivan Sanderson Terence e é pouco aceito pela ciência oficial. É empregado para designar objetos relevantes para a história, arqueologia e paleontologia e que foram descobertos fora de contexto ou em sítios incomuns.

O termo também inclui artefatos aparentemente “impossíveis” de serem encontrados naquele local, por serem anacrônicos ou por possuírem uma tecnologia contrastante com os demais artefatos encontrados. Mas – bem – isso já é assunto para outro artigo – não perca!

-o-

Assista o vídeo da BBC World Service sobre o Mecanismo de Anticítera:

Computador de 2000 anos é desvendado.

[Imagens:Wikipedia]

 

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

LEIA SOBRE O LIVRO A COR DA TEMPESTADE do autor deste artigo

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Navegando entre a literatura fantástica e a ficção especulativa Mustafá Ali Kanso, nesse seu novo livro “A Cor da Tempestade” premia o leitor com contos vigorosos onde o elemento de suspense e os finais surpreendentes concorrem com a linguagem poética repleta de lirismo que, ao mesmo tempo que encanta, comove.

Seus contos “Herdeiros dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.

Autor: Mustafá Ali Kanso

é escritor, professor, engenheiro químico, empresário da mídia educacional e divulgador científico em programas culturais da TV. Leia outros artigos dele.

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8 Comentários

    • Prezado GusC, você tem muito senso de humor. Diante dos despautérios do Rone100theone acho mais fácil rir num velório. Ganha de longe das infantilidades do Aguiarubra e do Boi Divino. O pior não é isso: o pior é que estes também usam os subprodutos da ciência (computadores, p. ex.) como se fossem resultado de suas divagações “espiritistas”. É para rir ou para chorar 347 vezes?

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    • …despautérios??? que palavra difícil hein??
      (“Grande disparate; despropósito; tolice crassa.”)
      pois é meu caro… o que eu escrevi não são ”
      “divagações “espiritistas”. , não sou espirita, nem criacionista fanático. E não adianta eu escrever algo pra mudar sua forma de pensar , eu somente á respeito.o espaço de idéias aqui é salutar mas não acho apropriado deboches sem proposito.

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  1. Interessante a matéria. Partindo do seguinte pressuposto: Há bilhões de anos Deus criou anjos e estes obviamente tem inteligência muito superior a do homem, conhecem todas as leis da física da química e todas as suas interações . Em um determinado momento alguns deles viveram aqui na Terra. ( prefiro não entrar no âmbito do porque nem como) Na própria bíblia diz que pouco antes do diluvio ” qualquer coisa que o homem fosse fazer não seria inalcançavel”. Então se você raciocinar desta forma, percebera que alguns objetos aparentemente á frente do tempo em complexidade e tecnologia podem ter vindo por ensinamentos e feitos não-humanos. Tudo o que for feito pelas mãos do homem agora e no futuro passará pelas mesmas leis da física em qualquer parte do Universo. Tenho certeza que está ” guerra ” ciência X religiões um dia acabara. Talvez para alguns isto parece utopia hoje. Mas não seria melhor você ter milhões, bilhões de anos á frente de pesquisas e descobertas científicas aqui na Terra e em outros planetas junto de pessoas pacíficas, em um mundo sem violência, guerras doenças ou morte e que amam umas ás outras e adoram Seu Criador?

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  2. P.: “…A polêmica sobre sua funcionalidade e precisão, ganhou força pela divulgação de várias teorias que aventam a existência de CIVILIZAÇÕES MAIS AVANÇADAS que contribuíram para o avanço da humanidade em tempos imemoriais compondo uma tecedura intricada de descobertas arqueológicas no mínimo inquietantes…”

    Comentário> isso me lembra algumas obras que li:
    >>> Eram os Deuses Astronautas?
    >>> O Despertar dos Mágicos
    >>> A Doutrina Secreta

    Também há lendas sobre continentes desaparecidos, como Mu e Atlântida.

    P.: “…O termo “OOPART” foi criado pelo biólogo e escritor escocês naturalizado americano, Ivan Sanderson Terence e é pouco aceito pela ciência oficial. É empregado para designar objetos relevantes para a história, arqueologia e paleontologia e que foram descobertos fora de contexto ou em sítios incomuns…”

    Comentário: O canal pago “History Channel” tem um série sobre “Inventos da Antiguidade” e um dos episódios apresenta essa máquina de Anticítera. O presente artigo atualiza espetacularmente as informações deste documentário do History Ch.

    Ao que me parece agora, esse programa ilustra perfeitamente esse conceito de OOPART.

    P.: “…esse artefato pode ser prova de que a história, como nos foi ensinada na escola é, no mínimo, incompleta ou subestima a nossa capacidade de evolução e de criação; podendo atuar também como um convite à superação de nossos preconceitos…”

    Comentário: História, Ciências, Geografia…Matemática, etc…Tudo que se ensina na escola e nos livros é incompleto e também distorcido.

    Por causa disso, formou-se o mito de que a Ciência resolve tudo para a Humanidade.

    Balela maior não existe. O mecanismo de Anticitera esconde só a ponta do iceberg de nossos preconceitos.

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    • É isso aí camarada!

      Essas constatações no Instituto do Sonho, mais o consenso psicológico de que nossa auto-identidade é construida, ou por via genética (karma!)ou por “epigenética” (influências do meio-ambiente externo e fisiológico) reforçam as teses espíritas ao invés de rechaçá-las, pois Kardec já discutia sobre esses fenômenos em meados do século XIX.

      Há mais mistérios entre os Céus e a Terra do que possam sonhar os fundamentalistas ateus e cristãos de plantão.

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    • …e o açougueiro cortou delicadamente os bifes e os entregou para a senhora de grandes orelhas verdes, desejando-lhe feliz raloín em Plutão, invocando nessa entrega os deuses saturnianos para que eles convertessem as azeitonas em mamonas assassinas, de forma que os degraus rsultantes conduzissem a uma espécie de patamar viscoso recoberto de materia espiritual, sutílima, a qual, em se pisando-a, fazia brotar nos pés do insaciável e diligente caminhante flores venusianas místicas que entoavam o Hino Nacional Brasileiro ao ritmo de um legítimo funk chinês, além do mais comestível com palitinhos, e recheados de frutos do mar…

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