Futurologia é arte divinatória?

Publicado em 13.01.2013

Na esteira de nosso artigo da semana passada sobre o possível investimento bilionário da União Europeia na elaboração de sistemas capazes de prever o futuro, muitos de meus leitores questionaram se o termo futurologia se refere realmente a algo científico.

Existe muita confusão nessa área em virtude da ação, nem sempre honesta, de algumas pessoas e de algumas instituições que praticam algum tipo de arte divinatória e a denominam – de forma equivocada – Futurologia.
Futurologia é uma ciência.

Seu principal foco de estudo é o futuro. Não se destina a prever o que vai acontecer no futuro e sim o que pode acontecer no futuro.

A futurologia utiliza-se dos dados colhidos durante os movimentos históricos do passado e do presente buscando linhas norteadoras de tendências apoiadas em pontos chaves. Pontos que podem indicar padrões. Padrões que podem indicar possibilidades.

São inferências fundamentadas na razão, tendo a observação, a lógica matemática e a estatística compondo seu mais importante instrumental.

Num exemplo singelo do nosso cotidiano, quando buscamos uma estratégia para escapar dos engarrafamentos típicos do horário de “rush” estamos usando um determinado conjunto de inferências fundamentado no conhecimento prévio de um padrão.

Sabemos que todos os dias úteis entre 18h00min e 20h00min ocorrem engarrafamentos nas ruas que compõe o trajeto do local de trabalho até a residência. Assim, para evitar a perda de tempo no trânsito podemos decidir:

1. Sair mais cedo do trabalho, ou
2. Sair mais tarde do trabalho, ou
3. Buscar um trajeto alternativo com menor fluxo de veículos.

E assim por diante.

Em qualquer alternativa utilizamos os recursos da observação, da terminação de padrões e de exercícios de lógica, construindo inferências, obviamente fundamentados na razão. E a partir daí traçamos um plano de contingência para evitar esse futuro.

Como podemos ver, a futurologia constrói cenários por meio da conjugação de possibilidades pelas quais se busca a antecipação de evoluções, de crises, etc. – daí sua grande proximidade com a estratégia.

Sua linguagem é clara e objetiva sendo geralmente apoiada por índices de probabilidade.

Por exemplo:

Entre as 18h00min e 20h00min a chance de que ocorram engarrafamentos na Marginal Tietê em São Paulo nos dias úteis de dezembro de 2013 é de 99,99%.

– Meu plano de contingência para esse caso seria o de fazer “ happy hour” com os amigos em um café próximo do escritório até o horário do “rush” passar.

Por outro lado as artes divinatórias buscam prever o futuro valendo-se de forças ou poderes sobrenaturais, tendo como base um oráculo e/ou recursos “místicos”, tais como bolas de cristal, cartas de tarot, búzios, tábuas ouija, pêndulos, tábuas astrológicas, etc., fundamentando-se na fé de seus praticantes pela respectiva arte.

Sua linguagem é geralmente simbólica, cifrada ou hermética.

Assim meu caro leitor quando receber um folder com os dizeres:

Madame Zucreide Futuróloga
Prevê o futuro valendo-se do Fantástico Tarot Jedi

Leia-se:

Madame Zucreide Cartomante
Prevê o futuro valendo-se do fantástico tarô Jedi

Com isso você evitará confundir uma ciência com um dos tipos mais comum de fé em arte divinatória – que é a fé nas cartas do tarô.

Longe de querer esgotar o assunto, paro por aqui, rogando ao leitor que pratica qualquer arte divinatória, ou que estuda o assunto, que aponte as demais diferenças que não foram nesse artigo apresentadas.

-o-

[Imagem: Bola de Cristal - Javier Pais ]

 

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

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Navegando entre a literatura fantástica e a ficção especulativa Mustafá Ali Kanso, nesse seu novo livro “A Cor da Tempestade” premia o leitor com contos vigorosos onde o elemento de suspense e os finais surpreendentes concorrem com a linguagem poética repleta de lirismo que, ao mesmo tempo que encanta, comove.

Seus contos “Herdeiros dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.

Autor: Mustafá Ali Kanso

é escritor, professor, engenheiro químico, empresário da mídia educacional e divulgador científico em programas culturais da TV. Leia outros artigos dele.

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7 Comentários

  1. Ueh caramba, a “tábua astrológica não é matemática, vinda de cálculos dos planetas e outros astros?
    Se pegar esse conceito de futurologia e focar as pessoas “individualmente” para prever esse futuro, visando que são elas que provoca tudo, tal como os engarrafamentos, o que dará?
    Claro que as pessoas concordam que vivemos em um mundo de possibilidades, então porque o ceticismo quanto a erros e acertos? Estamos sujeitos a isso a todo momento mesmo…

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  2. Claro que pode-se estimar o futuro, tomando por base,o passado e calculando a evolução e outros e mais outros casos, o que havia a 1000 anos atraz, e o que pode-se imaginar daquí a 200 anos.

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  3. Temos que reconhecer que tanto a futurologia como as artes divinatórias estão sujeitas a erro ou acerto, pois ambos se baseiam em possibilidades. Além disso a futurologia é limitada tanto pela sua aplicabilidade como pelo banco de dados que pode consultar enquanto as artes divinatórias não conhecem esses limites já que trabalham com ‘forças superiores’ e ‘informações do além’. Outrossim, também temos que considerar que ambos tanto podem sofrer interferências alheias como utilizarem meios fraudulentos. No caso da futurologia, além da previsão do tempo, temos um dos seus trabalhos ligado à política em épocas de eleições. Além dos erros já constatados em suas previsões, muito já se cogitou de tais dados serem manipulados para favorecerem um ou outro candidato. No caso das artes divinatórias, em que pese o fato de não sabermos como a cartomante ou o Pai ou a Mãe de Santo obtém suas informações, temos que considerar ainda que todos eles podem ser municiados por informações de terceiros, interessados em que o prognóstico lhes favoreça ou prejudique o/a consulente. Além disso, os supostos conhecedores e praticantes das artes divinatórias podem ser falsos já que não há como se comprovar a idoneidade de tais personagens que se dedicam a esse lucrativo ramo de atividade.

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  4. Nenhum humano adivinha nada. Isso é para o Divino e não o homem. Bola de cristal, pêndulo radiestésico, oráculo e outros recursos, também se trata de ciência, só que, ainda não bem conhecida nem reconhecida pela ciência oficial. Claro que há muitas pessoas de má fé que aproveitam dos inocentes e os exploram dizendo que são cientistas. A ciência hermética diz que 1/3 do futuro podemos saber e modificar à nossa vontade. É o caso, entre outros, do engarrafamento na hora do rush citado por Mustafá. 1/3 podemos saber sem possibilidade de modificar. É o caso do cara que vive sempre embriagado, é certo que vai ter cirrose hepática entre outras doenças, precisa adivinhar? E 1/3, ninguém tem como saber. Aí só o Divino e não nós!

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  5. Se não me engano, essa prática da Futurologia é praticada por nosso consciente, nosso cérebro todos os dias sem mesmo percebermos… Até onde sei, ele utiliza dados, informações e experiências vividas pra indicar padrões, e de padrões que podem indicar possibilidades. São os “pressentimentos” sonhos com um possível futuro acontecimento e os “Déjà-vu vu” que temos!!
    Isso, se não estou errado, é uma posição da Psicologia… mas como não sou cientista, psicologo ou nada relacionado, posso (e muito) estar errado em tudo que escrevi, é um conceito que acredito… Corrijam-me aos erros, por favor, e concluam o que faltou, se faltou!!!

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  6. Muito bom. Como cientista, sou particularmente fã desta ciência e se pudesse trabalharia com isso.

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