Por que Neil deGrasse Tyson?

Por , em 16.03.2014
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Por que Neil deGrasse Tyson?

Alguns fãs e entusiastas do clássico programa Cosmos, me perguntaram em off por que o astrofísico Neil deGrasse Tyson fora escolhido para ser o sucessor de Carl Sagan na apresentação da nova série que estreou no Brasil na semana passada.

Para responder em apenas uma linha eu resumi:

— Pelos seus méritos como cientista e como divulgador da ciência, ué!

E fiquei estarrecido pelo pouco que sabiam sobre o eminente astrofísico.

Será que esses leitores estariam desinformados?

Repensando a questão, percebi que Neil deGrasse Tyson não possuía no Brasil a visibilidade que eu imaginava, principalmente na comunicação de massa, como a TV aberta, por exemplo.

E que mesmo para esses fãs contumazes de programas de divulgação científica sua figura não era tão célebre assim.

Percebi também, que nessas décadas que separam a estreia desse segundo programa Cosmos e da estreia da série original, a ciência tem perdido espaço na mídia mais popular, não só no Brasil, mas também nos países desenvolvidos.

➤ Hilária entrevista com o astrofísico Neil deGrasse Tyson

Muitos poderão me responder que a internet tende a suprir tal defasagem. Será?

Nó próprio EUA a educação científica está às moscas, com os índices de interesse nessa área cada vez menores. O número de cientistas importados da Ásia e da América do Sul está cada vez maior.

Com a redução da verba destinada à pesquisa espacial, a própria NASA tem que depender muitas vezes da ‘carona’ das naves russas para cumprir com sua agenda, além de mendigar no senado alguma ajuda financeira para pagar sua folha.

Seriam apenas sintomas da globalização e da crise financeira norte americana?

Para piorar o quadro, o desinteresse pela carreira de cientista (ou qualquer carreira na qual o profissional tenha que pensar) atinge países com uma tradição inatacável nessa área, tais como a Alemanha e o Japão.

Alguns afirmam que a diferença salarial entre um cientista e outra profissão menos “pensante”, não compensaria a diferença nas horas de dedicação e estudo envolvendo toda aquela terrível matemática.

Percebemos, ainda, que na TV e no cinema mundial o cientista é apresentado de forma caricata, perpassando geralmente por alguns estereótipos que já viraram clichês: tais como o “nerd” horroroso sem nenhuma habilidade social e muito próximo de um completo idiota; o “inocente” útil manipulado por inescrupulosos vilões ou o próprio vilão com ânsia de provar suas ideias, dominar o mundo, desrespeitar as leis da natureza,  produzir drogas, armas, monstros, etc. etc. etc.

Numa era em que a ciência tem desempenhado papel preponderante na evolução da tecnologia esbarramos num analfabetismo científico que parece grassar em todas as esferas.

Evidentemente muitos apontam a ciência com a raiz de todos os males e que existem coisas que o Homem não deveria mexer.

No entanto, temos que recordar que a população mundial continua crescendo e que a economia enfrenta problemas emergentes para resolver as demandas em alimentos, moradias, empregos, etc.

➤ Neil DeGrasse Tyson explica de onde vieram os átomos de nosso corpo

Os avanços médicos e a evolução nas técnicas agrícolas permitiram esse crescimento populacional no passado, coadunada ao aumento da esperança de vida da população mundial.

Mas será que conseguirá sustentar essa demanda no futuro?

E agora? O que fazer?

Recordando também que ainda boa parte da humanidade não tem acesso à eletricidade ou mesmo à água tratada. Afinal o contraste vergonhoso entre ricos e pobres persiste, tanto entre indivíduos como entre nações.

Será que os problemas ambientais e sociais e tecnológicos poderiam ser resolvidos sem a ajuda da ciência?

Será que divulgar a ciência ajudaria a dirimir as dúvidas sobre sua real utilidade?

Tá. Existem os canais educativos em todos os países. E daí?

As grandes descobertas da ciência permanecem ignoradas pela maioria da população humana simplesmente porque essa maioria da população humana não está usufruindo da maioria dos benefícios resultantes dessas grandes descobertas da ciência.

Parece que pior mesmo que a parca divulgação científica em nosso planeta tem sido a gestão da ciência. Ou do que é feito com as descobertas nas áreas mais emergentes. Será que essa gestão tem sido realizada apenas para atender à parcela mais rica da população?

➤ Uma onda de razão [vídeo]

Enquanto alguns têm acesso à ressonância magnética a maior parte sequer conhece a água tratada.

Enquanto isso a mídia mundial investe em reality shows criando celebridades temporárias para vender cerveja e sabão em pó.

Não. Não vou culpar a janela pela feiura da paisagem.

Cabe apenas a constatação de que se tais programas destinados ao grande público se mantém na grade da TV aberta décadas a fio é por que possuem audiência.

Alguns apontam a simples constatação:

Não existe cultura sendo divulgada para as massas por que as massas não querem cultura.

Será?

Enquanto o impasse se mantém o nosso mundo continua carente de soluções.

-o-

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

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18 comentários

  • Gilmax Agapito:

    Grande Físico o Niel, tenho certeza que foi uma honra para ele assumir o papel do Carl.

  • Chaeltre:

    Foi um máximo conhecer esse pesquisador através da série. Gostei muito da abordagem e das história dos cientistas e da ciência. Não tenho tv a cabo mas tenho internet. Com essa ferramenta nada me impede de pesquisar, ir atrás do que é bom e tirar minhas conclusões.

  • Jucileude dos Santos Santos:

    Pra quem é apaixonado pelo assunto a tudo o q se refere sobre o UNIVERSO eu Achei o jeito a maneira do Neill explica maravilhoso perfeito.Eu não assisti a primeira vez q passou era muito pequena.Eu gravei todos os episódios..

  • Genioso Irreligioso:

    O povo prefere Big Brother Brasil a cultura! 🙁

  • Jansen Chaves:

    É uma pena que hoje em dia não aja mais programas que façam as crianças se interessarem por ciência, lembro com carinho de quando via o mundo de Beckeman, e outros programas infantis com cunho cientifico, hoje em dia é mais fácil encontrar crianças querendo ser cantoras de funk, do que querendo ser cientistas.

    • Marcelo Ribeiro:

      Meu filho assistiu todo o Beakman de cabo a rabo, junto com o pai, adora. Acho que tem no Netflix. Também está acompanhando o novo Cosmos avidamente.

  • mwcarval:

    opinião. Desde de muito pequenos a sociedade já insere na cabeça de nossas crianças que “existe um Deus”, “existe o místico”, ” existe a magia”, “a bíblia é uma verdade absoluta” e torna muito mais difícil o futuro entendimento da verdade para estas pessoas, famílias fanáticas tendem a criar filhos fanáticos . Eu sou um claro exemplo disso estudei em uma escola onde ensino biblico fazia parte das minhas disciplinas, aprendia um dia sobre o evolucionismo e no outro em como Deus criou…

    • mwcarval:

      adão e eva, um verdadeiro absurdo, um chute no saco de toda história gloriosa da ciência. Foi difícil a aceitação de que tudo que busquei nesta área de conhecimento religioso não passava de um palpite, um achismo sem evidências e sem prova alguma, mas, eu sempre tive uma natureza rebelde e tenho sorte em hoje conhecer a ciência. Uma pena que isso não ocorra em todos os casos e vejo várias mentes inteligentes e jovens protegendo ideias totalmente vazias, um desperdício.

  • Weverton Castanho:

    Alguns anos atrás lembro-me de comentários em um artigo sobre uma nova versão de Cosmos, então podemos dizer que isso já vinha sendo alimentada a algum tempo, e pelo que me recordo Ann Druyan comentou o nome de Niels deGrasse Tyson nesse artigo. Acredito que com a compra da bibilioteca de Carl Sagan por MacFarlane pode ter dado um grande empurrão nesse projeto que já há muito ficou guardado. Não sei dizer se Niels seria o novo substituto de Carl Sagan, mas se for desejo muito sucesso a ele!

  • Josney:

    Excelente texto!

    Apesar das massas serem manipuladas, e no link abaixo tem um texto que descreve melhor, vejo que muitos estão conseguindo fazer a diferença e “acordar” os que ainda dormem ou estão em transe. Sua atitude, ainda mais como professor, é exemplar!

    Zeitgeist!

    http://anonymousnow.wordpress.com/2012/10/05/voce-e-alienado

  • Cesar Grossmann:

    Eu lembro às vezes de uma frase, “o que te faz falta você nem mesmo sabe o que é”. Tem tanta coisa que nos faz falta e não sabemos disso por que sequer sabemos que estas coisas existem. E acho que o primeiro passo é a educação escolar, apresentar para as crianças a ciência, como ela é. Já vimos aqui no HC várias crianças inventando coisas novas, e até mesmo fazendo ciência séria, quando tem a oportunidade.

    A nova série Cosmos não passa disso, a meu ver, mais uma semente de ciência, uma oportunidade. Tem tanta gente que vai aprender que existem perguntas que elas nunca perguntaram, e respostas para algumas delas. E também para algumas perguntas que todos temos.

    Vai ser uma oportunidade fantástica, se os fanáticos religiosos não deturparem e podarem tudo (o segundo capítulo de Cosmos é sobre evolução, acho que tem alguns países em que ele não será apresentado, ou será censurado até ficar irreconhecível, com o Tyson dizendo oi, e depois ciao, e acabou o programa…).

    • mwcarval:

      A Educação em nosso pais e em muitos outros precisa ser reformulada, a ciência precisa ser apresentada com mais ênfase, não apenas como mais uma matéria, mas, sim como um modo de pensar, como o próprio Carl Sagan dizia: “A ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos.” É muito perceptível a carência de entendimento do método científico para as pessoas que tomam ideias já refutadas como crenças(ex. astrologia) ou que acham que quase tudo nessa vida é questão de

  • Thiago Corrêa:

    Sinceramente, pelo o que eu vi do Tyson ele não é tão bom como o Sagan, digo na parte de ceticismo, senso crítico, teorizar etc… Mas ainda sim é um ótimo cientista.

    No momento não estou assistindo o novo Cosmos pq estou sem tv à cabo, mas em breve assisto.

    Sim, parece que aquele filme Idiocracia deve ter um pingo de verdade… rsrsrsrs… Hoje as pessoas parece que só estudam pelo dinheiro e não porque gostam.. Já dizia aquele cara la daquele filme: “Mas eu gosto de dinheiro!” kkkkkkkkkkkkk

    • Marcelo Ribeiro:

      Ele não é um cientista tão proeminente como o Sagan era, mas é um comunicador famosíssimo. A mim ele soa canastrão no jeito de falar muitas vezes, quando está recitando script. Quando ele fala naturalmente é bem melhor. De qualquer maneira raramente discordo dele.

  • Mannu <3 Sagan:

    Impossível não me emocionar com Cosmos! Eu já estava me sentindo pequena,quando o Neil perguntou : ” Está sentindo-se pequeno?”. Caramba,já vinha uma lágrima,mas,eu ri nessa hora. Ele sabe que quem é apaixonado pelo mistério do Universo,fica com o coração batendo mais forte assistindo aquela série. Muito boa,mesmo!

  • Rafael Andrette:

    Todo cientista vê o descrédito e dificuldade na realização do seu trabalho, muitos se sentem como peões de produção de artigos como se fossem trabalhadores braçais em uma fabrica. No Brasil ainda há a falta de contratação nas empresas privadas, falta de pesquisa fora das Universidades publicas e o longo caminho de formação de Mestre e Doutores que só conta com bolsas de baixo valor extremamente disputadas e um Pesquisador na casa dos 30 procurando seu primeiro emprego.

  • Teka Betine:

    Pra começar, sou sua fã.
    Quando vc diz “Não existe cultura sendo divulgada para as massas por que as massas não querem cultura.
    Será?”, eu penso que a mídia de modo geral tenta nos enfiar goela abaixo todo tipo de lixo: novelas, programas de TV e músicas de péssima qualidade. Acredito, sinceramente, que se existisse um investimento maior em programas culturais e educativos, teria sim audiência. É que cultura e educação não dá voto.

    • Cesar Grossmann:

      Teka, se todo mundo desligasse a televisão quando o programa fosse de baixa qualidade, as emissoras teriam que rever suas grades e programas. Mas eles tem IBOPE, e se tem IBOPE, é por que tem gente interessada. e o que tem mais IBOPE é o que mais interessa.

      Não tem outra explicação, a grande maioria da população gosta do que a TV atual apresenta.

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