Pesticidas comumente utilizados podem causar morte de abelhas

Publicado em 16.04.2012

No inverno de 2006, apicultores dos Estados Unidos notaram algo estranho: várias colmeias estavam morrendo sem nenhuma razão aparente. Conforme os meses se passaram, relatos de fenômenos similares na Europa começaram a se espalhar.

Os cientistas resolveram chamar o fenômeno de Desordem do Colapso das Colônias (DCC, ou CCD, na sigla em inglês). Desde então, pesquisadores do mundo todo têm perdido o sono tentando entender o que é e o que causaria essa desordem. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, sozinha, investiu 28 milhões de dólares (cerca de 53 milhões de reais) em pesquisas para entender o que estava acontecendo.

As abelhas não são importantes só para os apicultores. Elas são essenciais para todos no planeta, pois são as principais polinizadoras da maioria das angiospermas (plantas com flores), que correspondem a quase 90% de todos os vegetais no planeta. Somente nos Estados Unidos, elas prestam um serviço com a polinização das plantações equivalente a 15 bilhões de dólares, cerca de 28 bilhões de reais.

E muitas são as teorias para explicar a sua diminuição crescente: mudanças climáticas, destruição de seus hábitats, vírus paralisantes, infecções por fungos, entre outras propostas. Mas a teoria mais aceita é de que as abelhas sofrem os efeitos de neonicotinóides, uma classe bem utilizada de pesticida, introduzida na década de 1990.

Dois estudos recentes, publicados na “Science”, comprovam parcialmente essa ideia. O primeiro, liderado por Penelope Whitehorn e David Goulson, da Universidade de Stirling, no Reino Undo, examinou os efeitos desses inseticidas sobre as abelhas mamangabas, que polinizam principalmente plantações de morangos, amoras e feijões.

Extermínio das rainhas

Os pesquisadores criaram 75 colônias no laboratório e expuseram algumas, via pólen e água contaminadas, a altas doses de imidaclopride, o mais importante tipo de neonicotinóide do mercado. Outras colônias foram expostas a baixas doses ou nenhuma.

Depois de duas semanas de tratamento, as colônias foram colocadas na natureza e “abandonadas” por seis semanas, para que os cientistas observassem o que aconteceria. Todas as doses dadas foram insuficientes para matar os insetos diretamente. Mas esse resultado não surpreende, pois as empresas que produzem esses pesticidas têm consciência da importância das abelhas, e fazem produtos que não sejam fatais a elas.

Contudo, os cientistas da Universidade de Stirling descobriram que mesmo as doses não letais fazem mal às abelhas. Ambos os grupos de colônias – os que receberam altas e baixas doses – cresceram mais lentamente que as que receberam nenhuma dose, com 8 a 12% menos peso, em média.

Mas o mais assustador foi a descoberta que os pesticidas inibem a produção de rainhas, que são cruciais para estabelecer novas colmeias todos os anos. As colônias que não foram expostas ao pesticida produziram cerca de 13 rainhas, em média. Aquelas que receberam as baixas doses produziram duas, e aquelas que receberam altas doses produziram apenas 1,4 rainhas.

Mesmo assim, segundo os pesquisadores, as altas doses, às quais algumas colônias foram submetidas, são baixas, na verdade, se comparadas com as quantidades utilizadas no campo e na natureza, chegando a ser sete vezes maior.

O estudo, porém, não elucida por meio de quais mecanismos os pesticidas causam tais danos às rainhas e à colmeia.

Não há mais volta

No entanto, um segundo estudo, liderado por Mickaël Henry, do Instituto Nacional Francês para a Agricultura, em Avignon, na França, pode nos tirar essa dúvida. Inspirado em pesquisas anteriores, que afirmavam que os pesticidas em questão prejudicavam a memória das abelhas, suas habilidades de voltar para a colônia, entre outras, Henry decidiu fazer alguns testes.

Ele colou microtransmissores nas abelhas e expôs metade a doses realísticas de uma variedade de neonicotinóides, enquanto a outra metade não foi submetida às substâncias testadas. Henry descobriu que as abelhas expostas falharam duas vezes mais em retornar para a colmeia, em comparação com as do grupo de controle. Matematicamente falando, isso facilmente leva uma colônia ao colapso.

Mas todas essas descobertas podem ser apenas a ponta do iceberg. Segundo uma pesquisa publicada na “Naturwissenschaften”, por exemplo, esses inseticidas também diminuem a resistência das abelhas aos fungos. Devido a isso, alguns poucos países, como França, Alemanha e Eslovênia, já restringiram o uso dos neonicotinóides. [Economist]

Autor: Luan Galani

é jornalista. Entusiasta da Teoria-M, é um rato de biblioteca apaixonado pelo que a ciência pode nos proporcionar. Nas horas vagas, é um amante inveterado de música erudita, que pede perdão aos russos por ainda considerar Mozart a grande lenda.

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