5 estudos científicos despublicados em 2012

Por , em 21.02.2013

Hoje em dia, quando surge um artigo falando sobre descobertas revolucionárias na medicina, é bom não ficar muito esperançoso. Não por causa de hipérboles jornalísticas, ou por que a cura ainda deve demorar anos depois da publicação do resultado inicial. Aparentemente, devemos ser cautelosos porque um número cada vez maior de estudos científicos acabam se mostrando equívocos e sendo despublicados (retirados da publicação científica sem poderem mais ser considerados textos científicos revisados por semelhantes).

Pior – um estudo publicado em outubro de 2012 no periódico Proceedings of the National Academy of Science (“Procedimentos da Academia Nacional de Ciências” ou PNAS) alega que muitos dos artigos são despublicados devido a algum tipo de fraude, e não de erros honestos como se pensava. Isso, é claro, se este trabalho não for uma fraude também.

Movidos por ambição (um trabalho que seja publicado em uma revista científica confiável significa mais verbas, avanço na carreira, e propostas de trabalho e parceria, além do fato de que o primeiro a publicar algo sobre um assunto importante é lembrado, enquanto o segundo não), alguns cientistas acabam forjando dados, plagiando o trabalho de outros ou ignorando evidências contrárias.

Veja aqui cinco casos de despublicação que aconteceram em 2012:

5. Hyung-In Moon é um gênio, segundo Hyung-In Moon

1-

O cientista coreano Hyung-In Moon levou a ideia de revisão por pares (a revisão de um trabalho científico por cientistas da mesma área confiáveis) para um nível completamente diferente. Ele revisou os próprios trabalhos, usando nomes falsos para dar a impressão de legitimidade. E, por incrível que pareça, os revisores fajutos estavam bem impressionados pelo trabalho de Moon.

No fim, o “cientista” admitiu falsificar dados de vários trabalhos, incluindo um estudo sobre doença hepática causada pelo álcool, e outro sobre a substância de uma planta que seria supostamente anticancerígena. Ele já despublicou 35 de seus trabalhos.

4. Zero para o trabalho de matemática

2-

Os editores científicos deveriam, mas não desconfiaram deste trabalho apresentado em 2010. Não estranharam nada – nem sequer o fato do resumo ter só uma frase (“Neste estudo, um aplicativo de computador foi usado para resolver um problema matemático”), ou o endereço de e-mail de um dos co-autores ser ohm@budweiser.com.

Os editores de Computers and Mathematics with Applications (“Computadores e Matemática com Aplicações”) publicaram um trabalho de uma página feito pelos fictícios M. Sivasubramanian e S. Kalimuthu em janeiro de 2010, e só o despublicaram em abril de 2012, apesar de ter pérolas como “este é um problema problemático”.

Duas das referências no trabalho são sobre trabalhos anteriores feitos pelo mesmo M. Sivasubramanian, que de alguma forma foram publicados, uma é sobre uma loja que vende jogos matemáticos, e outras três referências são a websites que não existem.

Finalmente, o trabalho foi despublicado por que “não contém conteúdo científico”. A publicação foi atribuída a “um erro administrativo”.

3. Sem dor, sem ganho?

3-

Alguma vez você já se perguntou se a frase “no pain, no gain” (“sem dor, sem ganho”) tem algum fundo de verdade, ou se o fracasso pode ser melhor para você que o sucesso?

O psicólogo holandês Diederik Stapel pensou neste assunto profundo. Sua pesquisa descobriu que, paradoxalmente, o fracasso pode fazer você se sentir melhor que o sucesso: propagandas de cosméticos fazem as mulheres se sentirem feias; o poder aumenta a infidelidade entre homens e mulheres; comparar-se com outros pode ajudar você a perseverar em coisas como estudos e dietas, mas não te faz feliz, e assim por diante.

Estas são só algumas das descobertas de Stapel. Seu trabalho apareceu em jornais importantes. Sua aparência bonita e seus tópicos de pesquisa inteligentes o tornaram o queridinho da mídia, aparecendo até no The New York Times e programas de notícias televisivas.

O único problema é que a sua pesquisa parece ter sido falsificada, quase ou inteiramente. Até agora, 31 de seus trabalhos foram despublicados, de acordo com o Retraction Watch.

2. Os testículos dos coelhos estão seguros, por enquanto

4-

Estudos que tentam encontrar alguma relação entre o uso de celulares e câncer geralmente são baseados em estatísticas fracas. Mas esta aqui usou dados falsos.

Em 2008, um trabalho publicado no International Journal of Andrology (“Periódico Internacional de Andrologia”) apontou que os celulares diminuíam a contagem de esperma e causavam alterações adversas nos testículos de coelhos. O estudo, apesar de ser pequeno e publicado em um periódico obscuro, ganhou a atenção da mídia. Humanos cautelosos, ao lerem sobre os riscos, podem ter movido seu celular do bolso da frente para o de trás das calças.

Em março de 2012, os autores despublicaram o trabalho. Parece que o autor principal não tinha autorização de publicação de seus coautores. Também, de acordo com o aviso de retirada, havia “ausência de evidência que justificasse a precisão dos dados apresentados no artigo”.

1. Cura para doença cardíaca usando células-tronco provavelmente é falsa

5-

O momento não poderia ser melhor. O biólogo Shinya Yamanaka, da Universidade Kyoto, tinha acabado de receber seu Nobel de 2012 pela descoberta das células-tronco pluripotentes induzidas (células iPS), que são células adultas reprogramadas para retornar ao estágio “embriônico”.

Pouco depois, o pesquisador Hisashi Moriguchi alegou, durante um encontro do New York Stem Cell Foundation, que havia avançado tal tecnologia para curar pacientes com falência cardíaca terminal. Fazia sentido, e o anúncio deu voltas ao mundo.

Igualmente rapidamente a alegação começou a ruir. Duas instituições listadas como colaboradoras com trabalhos relacionados do Moriguchi, a Escola de Medicina Harvard e o Hospital Geral Massachusetts, dos EUA< negaram que Moriguchi tivesse feito alguma das pesquisas que ele alegava ter feito lá. No dia 19 de outubro, a Universidade de Tokyo demitiu Moriguchi por desonestidade científica, mesmo que as investigações estivessem apenas começando.

Bônus: candidato certo para despublicação em 2013?

Se o caso de Hyung-In Moon parece absurdo, espere até conhecer Melba S. Ketchum, autora de recente estudo sobre o mítico “Pé Grande”. A pesquisadora conseguiu superar o coreano e mostrar que ele foi muito tímido na sua abordagem.

Isto por que a pesquisadora, após ter seu trabalho rejeitado por diversas revistas científicas, resolveu chutar o balde, e criou uma revista “científica” própria, que até agora só publicou um trabalho – o seu.

Colocamos este trabalho como um candidato para despublicação em 2013, mas considerando que o “DeNovo Scientific Journal” foi criado por Ketchum aparentemente apenas para publicar este trabalho, talvez não vejamos o mesmo ser efetivamente despublicado. Se o “Denovo” fosse uma publicação séria, certamente faria isso, no entanto. O que será que é mais improvável: a despublicação do artigo ou a existência do Pé Grande?[LiveScience]

Vote: 1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars

9 comentários

  • Capitu Nascimento:

    E depois da descoberta de tais “erros”,eu diria crimes,o que se faz?(retirar de circulação é pouco.Há ministério público para entrar com ação de lesa-pátria?Sim, porque a extensão de tais ações é incalculável, além da questão de danos morais á comunidade acadêmico-científica.
    Aproveito: a quem recorrer quando um trabalho de pesquisa é vetado,e, no entanto, está respaldado teoricamente,considerando tratar-se de uma instituição de renome internacional,porém com aparato religioso forte?

  • Ana Suzuki:

    Com fraude ou sem fraude a ciência está sempre sujeita a se desmentir. Haja vista que, quando inventaram o trem a vapor,
    os cientistas avisaram que não convinha aumentar a velocidade a 20 quilômetros por hora, porque, no mínimo, os olhos saltariam das órbitas.

  • Evandro Oliveira:

    O problema é o homem.. seja na politica, seja na Academia, na ciência, na escola, no trânsito, no supermercado, nas religiões… sempre há pessoas que buscma a falsidade, desonestidade em prol de vantagens próprias.

    É lamentável – não só na ciência.

    Como já alguem disse antes: “Maldito o homem que confia no homem.”

  • Henrique Martins:

    O Cara iria ganhar o Nobel Incrível !

  • jodeja:

    E agora? Os cientistas são iguais os políticos? Não se pode confiar neles? Deve haver gente honesta nesse meio, o difícil é encontrar essa gente.
    Os animais selvagens não ficam doentes nem fazem pesquisas. Eles são mais evoluídos que nós?

    • Cesar Grossmann:

      Jodeja, as fraudes constituem a exceção, não a regra. O número de fraudes aumentou, mas em geral os cientista são honestos. E são obrigados a isto, o trabalho deles vai ser revisado, então qualquer mal-feito é descoberto – por outros cientistas.

  • tommy lommy:

    Resta saber se as fontes DESTE artigo não são falsificadas também…

    • Cesar Grossmann:

      E agora? Ironias à parte, acho que este é um estudo que é fácil de verificar, e a estatística dele é simples de fazer, então, se os dados fossem falsos ou houvesse uma manipulação, não é difícil descobrir..

    • manfredgrellmann@hotmail.com:

      Este é um terreno pantanoso. Quando se publicam trabalhos científicos que não envolvem muito tempo (anos de estudos,medições etc.)é mais fácil descobrir fraudes.
      Mas um estudo que necessitou vários anos de trabalho ,para ser recomprovado precisa ,provavelmente,seguir método idêntico. Neste caso, alterar algum dado que seja para ajustar um resultado final desejado,demandaria repetir tempo semelhante. Nem sempre isto é feito,ou logo alguém se disponha a fazê-lo.Aí a fraude pode demorar para ser descoberta.
      O adjetivo: honesto existe por causa de seu complemento. Logo ,eles ocorrem em qualquer área.
      Nesta área nem sempre um premio é o motivo da desonestidade,mas sim :a fama.
      Fraudes nas áreas da ciência, são muito mais freqüentes do se pode imaginar.

Deixe seu comentário!