Por que 90% dos humanos são destros? Cientistas parecem ter descoberto as causas

Por , em 26.05.2026

A mão direita domina a vida humana de um jeito tão discreto que quase passa por detalhe de decoração: tesouras, carteiras escolares, abridores, cadernos em espiral e controles foram pensados, muitas vezes, para quem escreve, corta e aponta com esse lado do corpo. O curioso é que isso não é apenas preferência individual. Em todas as culturas humanas, cerca de 90% das pessoas favorecem a mão direita, um padrão muito mais forte do que o observado em outros primatas.

Esse desequilíbrio sempre foi um problema interessante para a evolução humana. Macacos e grandes símios podem até ter preferências próprias, mas nenhuma outra espécie de primata conhecida mostra uma inclinação populacional tão intensa para um único lado.

Um estudo liderado por Thomas A. Püschel e colegas, da Universidade de Oxford e da Universidade de Reading, publicado na PLOS Biology, propõe que a resposta envolve dois traços centrais da nossa linhagem: o bipedalismo e o aumento do cérebro. A equipe analisou 2.025 indivíduos de 41 espécies de macacos e grandes símios, usando modelos estatísticos para testar hipóteses ligadas a dieta, habitat, ferramentas, tamanho corporal, vida social, locomoção e volume cerebral.

Quando as mãos deixaram de ser pés reservas

O primeiro fator é simples de entender: quando nossos ancestrais passaram a andar sobre duas pernas, as mãos foram liberadas de parte do trabalho de locomoção. Isso não significa que o primeiro hominínio bípede já saiu por aí preferindo a mão direita para tudo. A mudança foi mais lenta. Ficar ereto abriu espaço para carregar objetos, manipular alimentos, usar ferramentas e executar tarefas finas com mais frequência.

Na pesquisa, essa transformação aparece por meio do índice intermembral, uma medida que compara o comprimento dos braços com o das pernas. Humanos têm pernas relativamente longas e braços mais curtos em comparação com muitos primatas arborícolas. Esse formato corporal é uma assinatura anatômica do bipedalismo, e ele ajudou os pesquisadores a entender por que nossa linhagem se afastou tanto do padrão visto entre outros primatas .

Mas andar ereto, sozinho, não resolve o enigma. O caso de Homo floresiensis, o famoso “hobbit” da Ilha de Flores, na Indonésia, é importante justamente por isso. Essa espécie caminhava sobre duas pernas, mas tinha cérebro menor e preservava características anatômicas associadas a uma vida ainda parcialmente ligada à escalada. No modelo de Püschel e colegas, sua preferência estimada pela mão direita é bem mais fraca que a de outros representantes do gênero Homo. Ou seja, duas pernas ajudaram, mas não carregaram a história inteira nas costas.

O cérebro entrou na conversa

O segundo fator é o crescimento cerebral. Um cérebro maior permitiu ações mais complexas, sequenciais e coordenadas: lascar pedra, preparar alimento, repetir gestos úteis, imitar adultos, ensinar crianças e talvez associar movimento manual a comunicação. Ferramentas não são apenas objetos; elas exigem uma coreografia de decisões pequenas.

Essa ideia combina com uma pista neurológica conhecida. O hemisfério esquerdo do cérebro controla boa parte dos movimentos do lado direito do corpo, e também está muito envolvido em funções de linguagem na maioria das pessoas. Isso não quer dizer que destros sejam mais linguísticos, nem que canhotos sejam uma nota de rodapé biológica. Quer dizer apenas que lateralidade manual, controle motor e comunicação podem ter se influenciado ao longo da evolução.

E há sinais fósseis desse padrão. David Frayer e colegas publicaram no Journal of Human Evolution um estudo sobre marcas em dentes de Homo habilis com cerca de 1,8 milhão de anos. Os arranhões indicam que esses hominínios provavelmente seguravam material com a boca e uma das mãos enquanto cortavam com uma ferramenta na mão direita. O achado não encerra o debate, mas mostra que a predominância destra é provavelmente antiga, bem anterior ao mundo moderno.

Os canhotos continuam sendo parte do mistério

A nova pesquisa também ajuda a separar duas coisas que costumam ser confundidas: ter uma mão preferida e ter uma espécie inteira inclinada para o mesmo lado. Muitos animais favorecem uma pata, uma mão ou uma nadadeira em determinadas tarefas. O que torna os humanos incomuns é a regularidade do padrão coletivo. A direita virou maioria esmagadora, não unanimidade.

Isso torna os canhotos especialmente interessantes. Se a preferência pela mão direita fosse sempre vantajosa em qualquer cenário, seria razoável esperar que a esquerda desaparecesse com o tempo. Mas ela persistiu. Estudos sobre canhotos sugerem que a lateralidade humana envolve genética, desenvolvimento, ambiente e possivelmente vantagens minoritárias em algumas situações sociais ou motoras.

A própria Universidade de Oxford destaca que ainda há perguntas em aberto: por que os canhotos continuam existindo, qual foi o papel da cultura cumulativa na estabilização da mão direita e se preferências de membros em animais como papagaios e cangurus indicam padrões evolutivos parecidos em linhagens distantes.

Um hábito cotidiano com milhões de anos nas costas

O ponto mais forte do estudo não é dizer que existe um “gene da mão direita” ou uma causa única para a destreza humana. A proposta é mais interessante: a predominância da mão direita parece ter emergido da combinação entre um corpo adaptado para caminhar ereto e um cérebro capaz de organizar ações cada vez mais complexas. Uma mudança anatômica liberou as mãos; outra ampliou o repertório de coisas que elas podiam fazer.

Com o tempo, o aprendizado social provavelmente reforçou essa tendência. Crianças humanas copiam adultos com uma atenção quase irritantemente eficiente. Se a maioria das pessoas ao redor usava a mão direita para tarefas importantes, a repetição cultural ajudava a consolidar o padrão. A biologia ofereceu a inclinação; a cultura pode ter ajudado a apertar o parafuso.

O detalhe mais bonito dessa história é que ela transforma um gesto comum em fóssil vivo. Ao escrever, cortar um alimento ou cumprimentar alguém com a mão direita, muita gente repete uma solução corporal moldada por milhões de anos de postura, cérebro e convivência. Já os canhotos lembram que a evolução não trabalha como uma fábrica de peças idênticas; ela prefere manter alguma bagunça útil no estoque.

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