O que significa pensar em outra pessoa durante o sexo, segundo um novo estudo

Por , em 4.06.2026

A mente humana não funciona como uma câmera apontada para o momento presente. Mesmo em uma situação íntima, ela pode puxar uma lembrança, inventar uma cena, misturar desejo com afeto ou simplesmente seguir por um caminho inesperado. Isso não significa, automaticamente, que o relacionamento esteja rachando por dentro.

Um estudo publicado no periódico científico Archives of Sexual Behavior analisou justamente esse tipo de fantasia sexual: aquelas que aparecem durante a masturbação e aquelas que surgem durante o sexo com um parceiro. O artigo foi assinado por Aki M. Gormezano e colegas.

A principal conclusão é menos dramática do que muita gente imagina. Fantasiar com outra pessoa durante o sexo não apareceu como prova direta de insatisfação no relacionamento. O que o estudo sugere é que a fantasia sexual muda conforme o contexto: sozinha, a pessoa tende a imaginar cenas mais explicitamente eróticas; com o parceiro, aparecem mais elementos de afeto, intimidade e cuidado.

A fantasia muda conforme o ambiente

Os pesquisadores trabalharam com 546 adultos dos Estados Unidos e do Canadá. Todos estavam em uma relação sexual comprometida havia pelo menos seis meses. A amostra também foi planejada para incluir tanto pessoas de minorias de gênero e sexualidade quanto pessoas de grupos majoritários, o que ajuda a evitar uma visão estreita demais sobre relações humanas.

Cada participante descreveu duas fantasias recentes. Uma havia ocorrido durante a masturbação e outra durante o sexo com um parceiro de relacionamento. Depois disso, eles responderam a uma lista de 50 itens preparada para o estudo, além de questionários sobre satisfação sexual, desejo e satisfação no relacionamento.

A equipe separou as fantasias em alguns eixos. Um deles era o erotismo, ligado a excitação física, prazer e conteúdo sexual mais direto. Outro era a nutrência, palavra usada na literatura científica para falar de cuidado, carinho, proximidade emocional e sensação de conexão. O termo pode soar pouco comum, mas a ideia é simples: nem toda fantasia sexual é apenas sobre corpo; algumas também têm um componente afetivo bastante claro.

Pensar em outra pessoa não é o mesmo que querer trair

Durante a masturbação solitária, cerca de 56% das fantasias tinham como foco pessoas de fora do relacionamento. Apenas 26% eram exclusivamente sobre o parceiro. Quando a fantasia surgia durante o sexo com parceiro, o quadro mudava: cerca de 35% pensavam apenas na pessoa ao lado, enquanto aproximadamente 38% ainda imaginavam alguém externo.

Esses números podem incomodar à primeira vista, mas eles precisam ser lidos com cuidado. O estudo não encontrou uma ligação direta entre o alvo da fantasia e a satisfação no relacionamento. Em outras palavras, imaginar outra pessoa não apareceu como sinônimo automático de crise amorosa, falta de amor ou intenção de agir fora do acordo do casal.

Essa diferença é importante porque muita gente trata pensamento como se fosse comportamento. Não é. A traição envolve quebra de acordo, ação ou ocultação relevante dentro da dinâmica do casal. Uma imagem mental passageira pode ser desconfortável para quem a tem, mas não carrega sozinha o mesmo peso moral de uma decisão concreta.

Satisfação sexual parece influenciar o foco da imaginação

O estudo encontrou uma associação interessante entre satisfação sexual e o alvo das fantasias. Participantes com níveis mais altos de satisfação sexual foram cerca de 63% mais propensos a fantasiar com seus próprios parceiros. Ao mesmo tempo, foram cerca de 90% menos propensos a fantasiar com alguém de fora da relação.

Isso não prova que a satisfação sexual cause fantasias com o parceiro, nem que fantasiar com o parceiro produza satisfação. A pesquisa foi transversal, ou seja, analisou um recorte em um momento específico. Ainda assim, o dado sugere que a vida íntima real e o imaginário erótico não vivem em gavetas totalmente separadas.

A relação entre desejo sexual e fantasia também variou. Quando o desejo pelo parceiro era forte, as fantasias sobre esse parceiro tendiam a ser ao mesmo tempo eróticas e afetivas. Quando o desejo por pessoas atraentes fora da relação era mais forte, surgiam mais fantasias com figuras externas. A mente, nesse ponto, parece menos misteriosa do que gostaríamos: ela costuma reciclar o que chama atenção no cotidiano, ainda que faça isso de um jeito meio torto as vezes.

O afeto aparece mais do que o estereótipo permite

Um dos achados mais interessantes foi a presença de intimidade emocional nas fantasias durante o sexo com parceiro. A fantasia sexual costuma ser imaginada como algo puramente explícito, visual e físico. Mas os dados apontaram outro lado: proximidade, cuidado e sensação de ser desejado também entram nesse repertório.

Isso desmonta especialmente a ideia de que fantasias masculinas seriam sempre simples, mecânicas e previsíveis. O estudo não transforma todo mundo em poeta de lençol, claro, mas mostra que o imaginário sexual pode ter muito mais nuance do que o clichê admite.

Esse ponto conversa com outra linha de pesquisa sobre fantasias no casal. Em 2019, Gurit E. Birnbaum e colegas publicaram na Personality and Social Psychology Bulletin um estudo sobre como fantasiar com o parceiro pode se relacionar com interações positivas no relacionamento. O trabalho não é idêntico ao novo estudo, mas reforça a ideia de que fantasia sexual não deve ser vista apenas como fuga: às vezes, ela pode estar ligada a aproximação.

Relações monogâmicas e não monogâmicas tiveram mais semelhanças do que diferenças

A equipe também analisou diferentes configurações de relacionamento. Isso é relevante porque muitos estudos antigos sobre sexualidade se concentravam quase só em relações monogâmicas. Aqui, os autores consideraram também pessoas em vínculos que poderiam envolver múltiplos parceiros sexuais.

No geral, apareceram mais semelhanças do que diferenças. Pessoas em relações com múltiplos parceiros tiveram tendência um pouco maior a relatar fantasias mistas, envolvendo tanto parceiros quanto outras pessoas. Já participantes em relações monogâmicas relataram mais conteúdo de cuidado durante o sexo com parceiro do que durante a masturbação.

Esse resultado combina com uma observação mais ampla: monogamia não é apenas um rótulo. Ela depende de acordos, expectativas e conversas que nem sempre acontecem com clareza. Quando casais presumem que ambos entendem fidelidade do mesmo jeito, podem criar conflitos que não nasceram de uma atitude concreta, mas de definições nunca discutidas.

O estudo não autoriza conclusões apressadas

Há limitações importantes. Os participantes relataram fantasias passadas, em vez de registrá-las em tempo real. Isso pode alterar detalhes, porque a memória humana edita, suaviza, exagera ou reorganiza experiências. Todo mundo sabe que a lembrança de uma conversa de ontem já pode sair meio remendada; com conteúdo íntimo, esse risco não diminui.

Também não é possível concluir causa e efeito. Pessoas satisfeitas sexualmente fantasiam mais com seus parceiros porque estão satisfeitas? Ou fantasiar com o parceiro ajuda a manter a satisfação? O estudo não responde isso. Pesquisas futuras com diários, nos quais participantes registram experiências próximas do momento em que acontecem, poderiam oferecer uma imagem mais precisa.

Outro cuidado é não transformar tendência coletiva em regra pessoal. Algumas pessoas fantasiam muito. Outras quase nunca. Algumas incluem o parceiro na imaginação; outras usam a fantasia como espaço totalmente separado da vida real. Essa variação faz parte da sexualidade de Homo sapiens, uma espécie que conseguiu complicar até o que já era complicado.

Culpa demais pode atrapalhar mais do que a fantasia

O resultado mais útil do estudo talvez seja a redução do pânico moral. Fantasiar com alguém de fora da relação pode gerar culpa, vergonha ou medo de estar fazendo algo errado. Mas os dados sugerem que essas experiências são comuns e não indicam, sozinhas, que há algo quebrado no casal.

Isso não significa que todo pensamento precise ser compartilhado. Cada relacionamento tem seu grau de abertura, privacidade e conforto. Para alguns casais, conversar sobre fantasia pode aproximar. Para outros, pode ser desnecessário ou até criar insegurança. O ponto central é distinguir imaginação de comportamento, e desconforto de evidência.

A fantasia sexual no relacionamento pode ser uma área sensível porque toca em desejo, autoestima, intimidade e medo de substituição. Ainda assim, tratar todo pensamento como ameaça costuma produzir mais ansiedade do que entendimento. Talvez a pergunta mais madura não seja “por que isso passou pela minha cabeça?”, mas “isso muda algo no modo como eu ajo, cuido e me comprometo com a pessoa real ao meu lado?”.

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