Afinal, somos heróis ou vilões?

Por , em 30.09.2013

Afinal, somos heróis ou vilões?

Algumas de minhas palestras sobre narratologia  (estudo das narrativas de ficção e não ficção por meio de suas estruturas e elementos)  suscitam questionamentos filosóficos interessantes, como por exemplo, em uma de minhas preferidas, a que se reporta ao “Monomito”  ou a “Jornada do Herói” surgiu:

O que há de herói ou de vilão em cada um de nós?

O Monomito é um conceito de jornada cíclica, presente em diversos mitos e foi desenvolvido pelo antropólogo Joseph Campbell,  como um conceito de narratologia, mas que pode também transcender para a Psicologia da Educação, respeitando alguns de seus contornos limitantes, como por exemplo a própria validade da contribuição junguiana e freudiana à Psicologia da Educação, como veremos mais adiante.

O termo  “Monomito”  aparece pela primeira vez em 1949, no célebre livro de Campbell  “O Herói de Mil Faces” tomando emprestada a terminologia de uma obra de James Joyce –  o também célebre “Finnegan’s Wake”.

Podemos, segundo Campbell, encontrar o padrão Monomito em diversas obras literárias e cinematográficas, tais como Star Wars, Matrix , A Pequena Sereia,  Mulan,  Harry Porter,  Percy Jackson, O Hobbit, A Grande Jornada, Senhor dos Anéis,  entre outros.

A ideia de Monomito contextualizada em Campbell  bebe nas mesmas fontes do conceito junguiano de arquétipos, das forças inconscientes da concepção freudiana e da estruturação dos ritos de passagem descrita por Arnold van Gennep.  Tópicos que teremos, por questões didáticas, que abordar em outros artigos.

Campbell preconiza que o Monomito está dividido em três seções que se fecham numa estrutura circular:

  1. Partida (às vezes chamada Separação)
  2. Iniciação e
  3. Retorno.

A Partida apresenta o herói recebendo o chamado, se preparando e dando início à sua jornada heroica;

Na Iniciação são apresentadas as várias provações que o herói vive ao longo de sua jornada, pelas quais transcende suas condições iniciais, desenvolve e/ou aperfeiçoa seus dons e poderes;

É no Retorno que se pontua o momento em que o herói regressa ao seu ponto de partida, porém modificado, melhorado, transcendido pelo conhecimento e pelos poderes que adquiriu ao longo de sua jornada; e então promove a redenção daqueles que ficaram.

Prometeu - Exemplo de herói clássico.

Prometeu – Exemplo de herói clássico.

Em seu estudo Campbell  defende que  todos os mitos seguem em algum grau essa mesma estrutura de “Jornada do Herói”,  e cita vários exemplos que se enquadram perfeitamente,  tais como as histórias de Prometeu, Osíris, Buda, Jesus Cristo, etc.  e também  a Odisseia de Homero que além de seguir o paradigma com precisão ainda apresenta repetições frequentes da Iniciação.

É possível identificar, também, algumas dessas estruturas nos contos clássicos da literatura  infantil como Gata Borralheira (Cinderela), Branca de Neve, O príncipe encantado, etc.

O contraponto Herói x Vilão,  tão enriquecedor quanto emocionante em uma narrativa, requer sua adequada conceituação:

Entende-se por herói, o protagonista da história. O personagem que dotado de arrojo, coragem, magnanimidade e bravura realiza feitos extraordinários e focados no bem comum.

No conceito de Campbell:

“Herói é uma figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar/resolver de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica.”

Usando, então de minha simplificação didática, eu diria que o herói além de fazer parte da solução ele poderia, em seu maior grau de heroísmo, efetivamente ser a principal fonte das soluções, onde, no exemplo maior de abnegação, ele sacrificaria sua própria vida.

Entende-se, em contrapartida, por vilão, o antagonista da história. O personagem abjeto, covarde, infame, vil e desprezível que usa de meios ilícitos para atender seus baixos interesses sempre inferindo em prejuízo para os demais  ( por exemplo,  sacrificando a vida dos outros para seu proveito próprio).

Estereótipo do vilão - a partir do cinema de animação.

Estereótipo do vilão – a partir do cinema de animação.

Originalmente  “vilão” refere-se ao habitante de uma vila, provavelmente oriundo da palavra latina “villanus”, reportando-se a alguém designado a uma villa – uma grande quinta ou plantação agrícola, no Império Romano – significando, portanto, um camponês, que mesmo não sendo nobre se colocava mais próximo dos nobres, assumindo uma função de  capataz ou feitor que ao explorar violentamente e impiedosamente o trabalho dos servos e escravos, foi trazendo, por essa razão, antipatia ao posto e ao título.

Por degeneração natural desse título o termo passou a equivaler a um não nobre, querendo significar alguém não nobre, tanto em desejos, aspirações quanto em atos.

Considerando a dicotomia de minha simplificação didática, poderia intuir que o vilão é a principal fonte dos problemas numa narrativa, senão parte componente indissociável de cada uma das questões a serem resolvidas pelo herói.

Mas afinal, o que há de herói  e de vilão em cada um de nós?

Para responder, eu intuo, basta que façamos um inventário da nossa quota de problemas que criamos e/ou que resolvemos todos os dias.

Se o nosso saldo for positivo – estamos de parabéns!

Afinal, as dimensões épicas de nossa vida de herói são justamente mensuradas pela nossa capacidade de fazer a diferença na nossa vida e na vida das pessoas que nos cercam.

Isso sim é heroísmo.

Agora se o saldo de nosso inventário for negativo, ainda existe uma chance para nós.

Afinal o termo redenção, também aparece na narratologia, tanto na literatura, no cinema, quanto em nossa saga pessoal.

Todo o vilão poderá se redimir e migrar da vilania para o heroísmo. Basta ele querer.

É uma grande virada de roteiro que, sem dúvida, torna a história muito mais interessante.

Mas, bem,  isso é assunto para um próximo artigo.

– o-

Em tempo:

Dia 05/10/13 –  Estarei no Shopping Omar em Curitiba  participando do Jedicon-PR com a citada palestra “O Mito do Herói” – aplicada evidentemente à saga Star Wars. – Imperdível!!

jedicon pr VI

HORÁRIOS

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Para a programação completa clique aqui.

 

 

 

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4 comentários

  • Krypthus:

    La no fundo todo mundo e vilao que se acha heroi, se fosse o contrario, nao haveria tanta maldade no mundo.

  • SubHeaven Von NordHein:

    òtimo assunto. Acompanharei os próximos artigos.

  • Samuel Locatelli:

    Eu não acredito em mau por natureza,apesar de ser interessante em algumas histórias. Prefiro histórias onde os conflitos de interesse fazem os embates. Acredito que a maioria dos leitores deste site não sejam jogadores de vídeo game, mas tenho uma recomendação à os que são: joguem a série Metal Gear Solid! É cheio de clichês, mas até os vilões possuem os ideais/motivos.

  • pmahrs:

    No mundo real, as vezes depende do lado que venceu e escreveu a história. Em estereótipos, dos tempos da mitologia grega até hoje, usam-se arquétipos para representar características humanas do bem ou mal, antigamente mais para estimular jovens guerreiros, um pouco ainda hoje. Normalmente heróis são representados por personagens perfeitos, fortes, corajosos e justos que sofrem no começo mas acabam vencendo, já vilães, até pouco tempo atrás, sempre se representou, até no cinema, com personagens “feios” ou seres mutantes horrendos, deformados e as vezes monstros literalmente falando. Hoje já temos lindos vilãos e viloas como Adriana Esteves. Vilãos ou heróis É como o “normal” que muitos dizem não existir porque o que é normal para uma pessoa não é normal para outra. Sim! Neste ponto de vista não se pode rotular. Mas matematicamente para efeitos, ao menos estatísticos, normal é o que a maioria define como assim; porém não significa que não estar dentro do centro das estatísticas esteja errado seja na forma condenável ou pejorativa “anormal” apenas diferente, mas existe limites para ser “diferente” também definido por maioria a qual os “não convencionais” também fazem parte nesta decisão. Óbvio que nem todos que pensam e agem diferentes podem ser considerados normais, mesmo numa faixa grande de aceitação da sociedade. Existem pessoas com extintos danosos e perigosos para a maioria e a sociedade. Num grupo onde se depende um do outro e nenhuma pessoa é exatamente como a outra é necessário que haja regras para tornar o convívio possível mesmo com certas diferenças. Apesar de definida como sociedade livre, tem que se observar os direitos alheios, pois um direito acaba onde começa o de outro, pois sendo livre, também ninguém pode ser obrigado a participar do que não quer ou ser afetado pelo fato. Se eu sou naturalista e tabagista não posso sair nu e fumando, mas tem lugares para isto onde posso exercer esta liberdade.

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