“Chiclete espacial” e açúcares são encontrados em amostras do asteroide Bennu, revela a NASA

Por , em 27.12.2025
Um fragmento microscópico de Bennu, enviado à Terra pela missão OSIRIS-REx da NASA, é manuseado com precisão sob um microscópio eletrônico de transmissão. Para possibilitar o transporte do grão durante a análise, a equipe reforçou sua superfície com tiras ultrafinas de platina, criando uma espécie de apoio em “L”, e depois uniu ao material uma microneedle de tungstênio. Esse pedaço do asteroide mede aproximadamente 30 micrômetros, equivalente a cerca de um milésimo de polegada. Crédito: NASA/University of California, Berkeley

O asteroide Bennu acaba de ganhar um papel ainda mais importante na história da origem da vida. Amostras trazidas pela missão OSIRIS-REx revelaram três ingredientes cósmicos bem diferentes: açúcares ligados a processos biológicos, um material orgânico pegajoso que lembra uma goma misteriosa e uma quantidade inesperadamente grande de poeira criada por explosões de supernovas. Esses resultados aparecem em três estudos recém-publicados nas revistas Nature Geoscience e Nature Astronomy, e ajudam a reconstruir o cardápio químico do Sistema Solar primitivo.

Em vez de examinar meteoritos que já caíram aqui, os cientistas finalmente podem estudar fragmentos de Bennu praticamente intactos, coletados diretamente de sua superfície e trazidos de volta em cápsulas seladas. É como se alguém tivesse guardado, por bilhões de anos, uma amostra de cozinha cósmica pré-Terra e só agora abrisse o pote. As novas análises mostram que Bennu não guarda apenas rochas velhas: traz pistas sobre como moléculas complexas, como açúcares e polímeros ricos em nitrogênio, se formaram antes mesmo de existirem oceanos por aqui.

Essas descobertas se somam a um cenário em que pequenos corpos gelados, como asteroides e meteoritos, funcionam como entregadores interplanetários. Eles podem ter trazido para o nosso planeta os primeiros blocos de construção da biologia, ideia que dialoga com estudos anteriores sobre açúcares essenciais em meteoritos.

Como um asteroide virou laboratório de química orgânica

Quando a cápsula da OSIRIS-REx pousou em solo terrestre em 2023 ela trouxe mais do que um punhado de poeira escura: trouxe um registro físico do que circulava no disco de gás e detritos que existia antes da formação dos planetas. Diferente de rochas que ficaram cozinhando dentro de mundos maiores, Bennu preserva condições bem mais primitivas, quase como uma amostra guardada no congelador cósmico.

Os cientistas acreditam que o asteroide se formou a partir de fragmentos de um corpo parental rico em água e compostos voláteis, em uma região do Sistema Solar onde gelo, minerais e moléculas orgânicas se misturavam com relativa calma. Milhões de anos depois, esse bloco maior se fragmentou, e um desses pedaços acabou se tornando o que hoje chamamos de asteroide Bennu, já visitado pela OSIRIS-REx e velho conhecido dos leitores de espaço.

A ilustração retrata a sonda OSIRIS-REx descendo em direção a Bennu no momento em que se prepara para capturar material da superfície do asteroide. Crédito: NASA/Goddard/University of Arizona

A missão coletou mais de cem gramas de regolito e distribuiu pequenas quantidades para equipes ao redor do mundo. Parte desse material foi usada no estudo dos açúcares publicado na Nature Geoscience, em um artigo intitulado “Bio-essential sugars in samples from asteroid Bennu”, e em dois trabalhos independentes da revista Nature Astronomy que investigaram um material orgânico incomum e grãos de poeira estelar pré-solar.

Açúcares que lembram o cardápio da vida

No primeiro desses estudos, liderado por Yoshihiro Furukawa, pesquisadores identificaram dois açúcares fundamentais para a bioquímica: ribose, com cinco átomos de carbono, e glicose, com seis. A ribose é a peça de açúcar que forma a espinha dorsal do RNA, enquanto a glicose é a “moeda de energia” mais usada pelas células e também serve de base para fibras como a celulose. A equipe mostrou que esses compostos estão presentes em concentrações detectáveis nas amostras de Bennu, reforçando que o menu químico que favorece a vida não ficou restrito apenas a ambientes terrestres tambem.

Ao lado desses açúcares, o grupo lembra que já haviam sido encontrados, em análises anteriores do mesmo material, nucleobases ligadas ao DNA e ao RNA, fosfatos e aminoácidos. Com isso, o cenário começa a ficar curioso: vários ingredientes fundamentais de biopolímeros complexos aparecem juntos no mesmo tipo de rocha. Essa combinação conversa diretamente com a ideia de um “mundo de RNA em que moléculas de RNA tinham papel duplo, guardando informação genética e catalisando reações, antes da ascensão do DNA como principal arquivo de dados biológicos.

Um detalhe importante é que, nas amostras de Bennu, não foi encontrado desoxirribose, o açúcar típico do DNA. Isso sugere que, no ambiente em que esse material se formou, a ribose pode ter sido mais estável ou mais abundante que a versão usada no DNA, favorecendo naturalmente o aparecimento de sistemas baseados em RNA em ambientes ricos em gelo e radiação. Em paralelo, o fato de a glicose estar presente mostra que fontes de energia parecidas com as usadas por organismos modernos já circulavam em grãos milimétricos de poeira muito antes de existirem ecossistemas complexos.

A goma espacial que parece plástico e veio do frio

O segundo artigo na Nature Astronomy se concentra em algo bem menos intuitivo: um material orgânico pegajoso, descrito pelos pesquisadores como um polímero rico em nitrogênio e oxigênio, que acabou apelidado informalmente de “goma espacial”. Essa substância parece ter se formado quando compostos solúveis, como carbamatos derivados de amônia e dióxido de carbono, começaram a reagir e a se unir em cadeias maiores antes de o corpo parental de Bennu aquecer o suficiente para ter água líquida circulando em seu interior.

Para estudar esse material, a equipe de Scott Sandford e Zack Gainsforth recorreu a uma combinação de técnicas quase cirúrgicas. Usando instrumentos do Molecular Foundry, em Berkeley, eles reforçaram pequenos grãos com finos filmes de platina, “soldaram” microneedles de tungstênio e foram desbastando partículas até que ficassem milhares de vezes mais finas do que um fio de cabelo humano. Só então puderam usar microscopia eletrônica e fontes de raios X de alta resolução para mapear, átomo por átomo, como esse emaranhado orgânico estava distribuído nos grãos minerais.

Os resultados indicam que essa goma cósmica se depositou em camadas sobre gelo e minerais, formando uma espécie de revestimento pegajoso em microescala. Em seu estado original, o material parece ter sido maleável, transparente e flexível, algo que hoje lembra mais um plástico envelhecido pelo Sol do que um cristal organizado. A comparação com poliuretano terrestre ajuda a visualizar a complexidade, mas os pesquisadores enfatizam que se trata de um polímero bem mais bagunçado, com ligações variadas e composição que muda de um fragmento para outro

Poeira de supernovas escondida nas rochas

O terceiro estudo, liderado por Ann Nguyen, usa um tipo diferente de pista: grãos de poeira que existiam antes mesmo da formação do Sistema Solar. Esses grãos, chamados de pré-solares, carregam assinaturas isotópicas que denunciam sua origem em estrelas anteriores ao nosso Sol, incluindo remanescentes de supernovas. Ao analisar dois tipos distintos de fragmentos de Bennu, a equipe encontrou uma concentração de poeira de supernova cerca de seis vezes maior do que em qualquer outro material extraterrestre já estudado em laboratório.

Essa abundância anômala sugere que o corpo parental de Bennu se montou em uma região do disco protoplanetário particularmente rica em detritos de estrelas moribundas. Em outras palavras, o asteroide nasceu em um bairro onde explosões estelares recentes tinham espalhado generosas quantidades de grãos exóticos. Isso ajuda a explicar por que o material de Bennu é tão valioso: ele preserva uma mistura de componentes formados em ambientes extremos, desde nuvens moleculares frias até zonas de choque de supernovas.

Curiosamente, nem todo o material de Bennu passou pelo mesmo “banho químico”. O estudo mostra que alguns fragmentos carregam sinais de forte alteração por fluidos, enquanto outros preservam orgânicos e silicatos pré-solares relativamente intactos. Esse mosaico de graus de processamento lembra um bolo mal misturado, em que alguns pedaços ainda guardam a textura original, permitindo aos cientistas reconstruir etapas diferentes da história química do asteroide.

O que Bennu conta sobre nós

Visto em conjunto, o trio de resultados transforma Bennu em um personagem central de uma narrativa que conecta poeira de supernova, gelo rico em amônia e moléculas orgânicas complexas. Os açúcares que alimentam e estruturam a vida, a goma espacial que sugere rotas de polimerização em ambientes criogênicos e a poeira estelar que marca a origem do material se encaixam em uma mesma história: a de um Sistema Solar onde a química pré-biótica começou muito antes de existirem oceanos e continentes.

Essa história dialoga com outras linhas de pesquisa sobre a origem da vida discutidas em HypeScience, como a ideia de que meteoritos e cometas ajudaram a entregar moléculas complexas a Terra, e com estudos que exploram se o RNA poderia ter sido o primeiro sistema eficiente de armazenamento de informação, o que aparece, por exemplo, em análises sobre como um eventual RNA primordial teria operado em condições bem diferentes das atuais.

No fim, Bennu lembra que perguntas sobre “de onde viemos” não se resolvem apenas olhando fósseis ou sequenciando DNA moderno. Elas passam por grãos de poeira que já viram estrelas nascerem e morrerem, por moléculas de açúcar formadas no escuro entre grãos de gelo e por polímeros estranhos que talvez nunca se tornem células, mas abrem o caminho para que isso seja possível. Se há algo quase irônico aqui é que, enquanto discutimos se a vida é rara ou comum, um pequeno asteroide girando silenciosamente traz a mensagem de que a química que favorece a vida pode ser muito mais persistente, teimosa e criativa do que a nossa imaginação costuma conceder.

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