Homem com paralisia move as pernas com ajuda de “exoesqueleto robótico”

Por , em 8.09.2015

Um homem de 39 anos de idade que esteve completamente paralisado durante quatro anos conseguiu controlar voluntariamente os seus músculos da perna e dar milhares de passos em uma espécie de “exoesqueleto robótico” ao longo de cinco dias de treinamento e pelas duas semanas seguintes. O feito foi relatado por uma equipe de cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).

Esta é a primeira vez que uma pessoa com paralisia crônica e completa recuperou controle voluntário suficiente de seu corpo para trabalhar ativamente com um dispositivo robótico projetado para melhorar a mobilidade. Além do dispositivo, o homem foi ajudado por uma técnica nova de estimulação da medula, que não necessita de cirurgia. A volta dos movimentos das pernas também resultou em outros benefícios de saúde, incluindo a melhoria da função cardiovascular e tônus ​​muscular.

A nova abordagem combina uma roupa biônica alimentada por bateria que permite às pessoas mover as pernas de forma semelhante a um passo, com um procedimento não invasivo que os mesmos pesquisadores já tinham usado para possibilitar que cinco homens completamente paralisados movessem as pernas em um movimento rítmico. Acredita-se que esta conquista prévia tenha sido a primeira vez que pessoas completamente paralisadas conseguiram reaprender movimentos voluntários das pernas sem cirurgia. Os pesquisadores não descrevem este avanço como “andar”, porque ninguém que está completamente paralisado caminhou de forma independente na ausência do dispositivo robótico e estimulação elétrica da medula espinhal.

Atleta paralisado

No último estudo, os pesquisadores trataram Mark Pollock, que perdeu a visão em 1998 e mais tarde se tornou o primeiro homem cego a completar a corrida Amundsen Omega 3 até o Pólo Sul. Em 2010, Pollock caiu de uma janela do segundo andar e sofreu uma lesão medular que o deixou paralisado da cintura para baixo.

Na UCLA, Pollock fez progressos substanciais depois de receber algumas semanas de treinamento físico sem estimulação da coluna vertebral e, depois disso, apenas cinco dias de treinamento com estimulação da coluna vertebral em um período de uma semana, por cerca de uma hora por dia.

“Nas últimas semanas de teste, meu coração chegou a 138 batimentos por minuto”, disse Pollock ao site Medical Xpress, explicando que tal número é condizente com treinamento aeróbico. “Foi um momento muito animador e emocionante para mim, depois de ter passado toda a minha vida adulta antes de quebrar minhas costas como um atleta”.

Mesmo nos anos desde que ele perdeu a visão, Pollock já competiu em corridas de ultra-resistência por desertos, montanhas e calotas polares. Ele também ganhou prata e bronze no remo nos Jogos da Commonwealth e dá palestras motivacionais. “Pisar com a estimulação [da coluna vertebral] e ter o meu aumento da frequência cardíaca, juntamente com a consciência das minhas pernas debaixo de mim, era viciante. Eu queria mais”, relata.

A pesquisa será publicada pelo IEEE Engineering in Medicine and Biology Society, a maior sociedade de engenheiros biomédicos do mundo.

Qualidade de vida

O autor sênior da pesquisa e professor de biologia integrativa e fisiologia, neurobiologia e neurocirurgia da UCLA, Reggie V. Edgerton explica o que esta nova técnica significa para a vida de pessoas paralisadas: “Vai ser difícil conseguir que as pessoas com paralisia completa andem de forma totalmente independente, mas mesmo se não atingirem isso, o fato de que eles podem ajudar-se a andar irá melhorar muito a sua saúde em geral e qualidade de vida”.

O procedimento utiliza um dispositivo robótico fabricado pela empresa Ekso Bionics, que captura dados que permitem que os cientistas determinem o quanto a pessoa está movendo seus próprios membros, em vez de ser ajudada pelo dispositivo. “Se o robô fizer todo o trabalho, o sujeito se torna passivo e o sistema nervoso é desligado”, explica Edgerton.

Os dados mostraram que Pollock estava flexionando ativamente seu joelho esquerdo e levantando a perna esquerda e que, durante e após a estimulação elétrica, ele foi capaz de ajudar voluntariamente o robô durante o passo – o que mostra que não era apenas o dispositivo robótico que fez todo o trabalho.

“Para as pessoas que estão gravemente feridas, mas não completamente paralisadas, há todas as razões para acreditar que elas vão ter a oportunidade de usar estes tipos de intervenções para melhorar ainda mais o seu nível de movimentação”, afirma Edgerton. Ele ainda aponta que é preciso oferecer mais ferramentas clínicas para as pessoas com lesão medular e outras doenças.

Um passo de cada vez

Edgerton e sua equipe de pesquisa têm recebido vários prêmios e honrarias, incluindo o Popular Mechanics Breakthrough Award, em 2011.

“Dr. Edgerton é pioneiro e somos encorajados por estes resultados para ampliar a nossa compreensão de possíveis opções de tratamento para a paralisia”, disse Peter Wilderotter, presidente da Fundação Christopher e Dana Reeve, que ajudou a financiar a pesquisa. “Dadas as complexidades de uma lesão da medula espinhal, não haverá uma cura de ‘tamanho único’, mas sim uma combinação de diferentes intervenções para conseguir a recuperação funcional”.

“O que estamos vendo agora no campo da pesquisa da medula espinhal é uma onda de impulso com novas direções e abordagens para lembrar a espinha dorsal do seu potencial até mesmo anos depois de uma lesão”, aponta.

Grace Peng, diretora do Programa de Engenharia de Reabilitação do Instituto Nacional de Imagem Biomédica e Bioengenharia dos Estados Unidos, ressalta que este é “um grande exemplo de uma abordagem terapêutica que combina duas modalidades muito diferentes – neuromodulação e dispositivos de assistência robótica – para alcançar um resultado que não poderia ser realizado apenas com uma ou outra abordagem”.

Edgerton disse que, embora provavelmente ainda sejam necessários muitos anos antes que estas novas tecnologias estejam amplamente disponíveis, é possível melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes com lesões medulares graves, e ajudá-los a recuperar várias funções do corpo. Embora seu laboratório esteja fazendo um progresso dramático, ele só pode trabalhar com um pequeno número de pacientes, devido à limitação de recursos. “Nós poderíamos fazer muito mais para o avanço da ciência e da tecnologia com mais recursos”, garantiu. [Medical Xpress]

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