Comer alimentos orgânicos reduz seu risco de câncer?

Por , em 20.02.2019

Quando consumimos alimentos que foram tratados com pesticidas, consumimos vestígios desses produtos químicos. Por sua vez, vários desses produtos foram classificados como possíveis ou prováveis carcinógenos.

Então, parece óbvio: comer alimentos orgânicos, que não foram tratados com pesticidas, deve reduzir nosso risco de câncer, certo?

Não é bem assim.

A nutricionista Monica Reinagel fez um balanço das evidências científicas descobertas até agora.

Controvérsia

Em 2014, um estudo de dez anos com mais de meio milhão de mulheres britânicas descobriu que aquelas que sempre comiam alimentos orgânicos tinham essencialmente o mesmo risco de desenvolver câncer do que aquelas que nunca comiam.

Este ano, no entanto, um estudo francês analisou as dietas de quase 70.000 pessoas e concluiu que “uma frequência maior de consumo de alimentos orgânicos estava associada a um risco reduzido de câncer”. Vale observar, contudo, que este estudo tem muitas falhas.

Alimentos orgânicos – mas quais?

No passado, alguns estudos sugeriram que as pessoas que consumiam mais frutas e vegetais tinham menor incidência de câncer – mesmo se estas fossem convencionais e recheadas de pesticidas.

Por exemplo, um estudo de longo prazo com quase 200.000 mulheres descobriu que aquelas que consumiam em média 5 ou mais porções de frutas e vegetais por dia tinham 10% menos risco de câncer de mama em comparação àquelas que comiam 2,5 porções por dia ou menos.

Outros estudos encontraram apenas uma fraca associação entre o consumo de frutas e verduras e o risco de câncer – ou nenhuma -, o que pode ser surpreendente devido aos fitoquímicos que combatem a doença encontrados nestes alimentos.

Reinagel pensa que a ligação entre a ingestão de frutas e vegetais e o risco de câncer pode ser mais indireta – comer mais frutas e vegetais pode ajudá-lo a manter um peso corporal mais saudável, por exemplo, o que está inequivocamente associado ao menor risco de câncer.

O método francês

Para testar a hipótese de que o consumo de alimentos orgânicos leva a um risco menor de desenvolver câncer por causa de uma menor exposição a resíduos de pesticidas, os pesquisadores franceses inventaram algo chamado “Organic Food Score”, ou “Pontuação de Alimentos Orgânicos”.

Eles pediram aos participantes para dizer com que frequência consumiam 16 categorias diferentes de alimentos orgânicos. Se você costuma consumir uma delas sempre, ganha dois pontos. Consumir às vezes te dá 1 ponto, e nunca 0. Os pontos para todas as 16 categorias foram então computados em uma pontuação de 0 a 32.

Embora cada categoria tenha sido ponderada igualmente, dificilmente seriam equivalentes em termos de sua carga potencial de pesticidas. Por exemplo, duas das 16 categorias (produtos lácteos e ovos) são alimentos que geralmente não têm resíduos de pesticidas detectáveis.

Perguntar com que frequência alguém escolhe orgânico em vez de convencional também não lhe diz nada sobre o quanto alguém está consumindo. Ou seja, os participantes podiam consumir frequentemente algumas das categorias, mas sempre em quantidades muito pequenas, e outras em grandes. Como controlar essas variáveis? Se eu bebo apenas leite orgânico e tomo apenas vitaminas orgânicas, mas nunca como frutas e vegetais orgânicos, recebo a mesma pontuação que alguém que come apenas frutas e verduras orgânicas, por exemplo.

Todos esses problemas, argumenta Reinagel, fazem da Pontuação de Alimentos Orgânicos uma medida ruim para analisar o consumo desses alimentos versus sua influência no desenvolvimento do câncer.

Resultados complexos

Talvez as pessoas que consumam alimentos orgânicos com mais frequência tenham um risco menor de câncer por razões que não têm nada a ver com pesticidas.

Por exemplo, uma pontuação alta pode refletir mais renda disponível, maior consciência de saúde, ou crenças sobre alimentação e saúde, os quais poderiam, por sua vez, estar associados a outros hábitos saudáveis.

De fato, enquanto uma frequência maior de consumo de alimentos orgânicos foi associada a um risco 25% menor da condição, no geral, os dados sobre cânceres específicos eram muito menos claros.

Por exemplo, com o câncer de pele, o risco diminuiu à medida que a pontuação dos alimentos orgânicos subiu. Mas para outros tipos de câncer, incluindo câncer colorretal, câncer de próstata e câncer de mama na pré-menopausa, aqueles com pontuações maiores tiveram na verdade um risco maior.

Conclusão

Apesar do senso comum e do estudo francês, a nutricionista não crê que as evidências que temos disponíveis até hoje formem um argumento muito forte de que comer alimentos orgânicos reduz o risco de câncer.

A melhor evidência até o momento indica que comer frutas e vegetais é (suavemente) vantajoso, independentemente de serem convencionais ou orgânicos.
Pode haver outras boas razões para comprar produtos orgânicos, no entanto, como expor menos a vida selvagem e os trabalhadores agrícolas a pesticidas sintéticos, ou apoio ao agricultor orgânico local.

Por esses e outros motivos, vale a pena escolher orgânico quando este produto estiver disponível e acessível. Se você está preocupado com seu risco de câncer, entretanto, sua energia seria mais bem aproveitada buscando um peso corporal saudável e um estilo de vida ativo. [ScientificAmerican, QAndDTips]

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