Comida espacial feita da urina de astronautas será testada a bordo da ISS

A busca por alimentos sustentáveis fora da Terra levou pesquisadores europeus a apostar em algo que parece saída de ficção científica: um pó proteico criado a partir de ar, eletricidade e ureia presente na urina humana. A ideia é simples apenas na aparência. Em missões de longa duração, cada grama de recurso importa, e transformar o que antes era resíduo em nutrição pode significar autonomia em viagens que durem meses ou até anos.
A proteína em questão se chama Solein, desenvolvida pela startup finlandesa Solar Foods. Ela é produzida por microrganismos que utilizam dióxido de carbono, hidrogênio obtido pela eletrólise da água e uma fonte de nitrogênio — que, no caso dos astronautas, pode vir literalmente do banheiro da nave. A proposta é criar um ciclo fechado de suprimentos, reduzindo dependência de reabastecimentos vindos da Terra.
O projeto que levará essa ideia para testes práticos em órbita foi anunciado pela Agência Espacial Europeia (ESA). A previsão inicial é observar como o processo de fermentação gasosa se comporta em microgravidade, onde líquidos e gases não se movem do mesmo jeito que no solo. Isso exige engenharia delicada: algo tão simples quanto uma bolha de ar pode atrapalhar todo o processo se não for corretamente guiada pelos equipamentos.
Como funciona essa proteína feita “do nada”
No centro do processo estão bactérias oxidantes de hidrogênio, capazes de construir moléculas orgânicas a partir de elementos simples. Essas bactérias são cultivadas em biorreatores, ambientes controlados onde gases circulam para fornecer energia e carbono. Em muitos aspectos, é como criar fermento, só que em vez de farinha e açúcar, os ingredientes são invisíveis.

A ureia do xixi dos astronautas entra como doadora de nitrogênio, elemento essencial para formar aminoácidos. Isso não significa beber algo com gosto estranho. O resultado final é um pó com sabor neutro, semelhante ao de uma farinha proteica comum,
Microrganismos já sustentam parte da cadeia alimentar na Terra, especialmente em produtos fermentados como queijos e proteínas alternativas. A diferença agora é a ambição: se podemos alimentar uma tripulação a milhares de quilômetros de casa sem depender de fazendas ou cargueiros, missões de colonização se tornam muito mais viáveis eliminando uma virgula necessária aqui
Testes no espaço e a Missão HOBI-WAN
A iniciativa recebeu o nome de HOBI-WAN, sigla para Hydrogen Oxidizing Bacteria In Weightlessness As a source of Nutrition. A primeira etapa está acontecendo ainda no solo, ajustando parâmetros para garantir segurança e eficiência. Só depois disso a tecnologia embarcará rumo à Estação Espacial Internacional.
Pesquisadores esperam que, até 2035, seja possível produzir Solein em diferentes escalas no espaço. Isso permitiria desde alimentar pequenas equipes em estações até suprir colônias lunares ou marcianas. O entusiasmo é grande, mas a equipe admite que há desafios: microgravidade altera desde o comportamento de fluidos até a forma como nutrientes chegam às células microbianas
Há uma dimensão psicológica também. Astronautas em missões longas experimentam algo parecido com morar permanentemente em um submarino. Ter acesso a alimentos nutritivos, estáveis e até adaptáveis a texturas e receitas pode melhorar o bem-estar e a sensação de normalidade.
Por que isso importa além da exploração espacial
Tecnologias que nascem para o espaço frequentemente encontram uso na Terra. A Solein, por exemplo, já é estudada como alternativa alimentar em regiões com agricultura limitada ou crises climáticas severas. Como ela depende apenas de eletricidade renovável e dióxido de carbono, sua produção poderia crescer em desertos, plataformas marítimas ou comunidades remotas.
Há também um componente ético e ambiental. A produção tradicional de proteínas, especialmente as de origem animal, exige vastos territórios, água e energia. A possibilidade de criar proteínas “do ar” pode aliviar parte dessa pressão. Claro, isso não significa que todos nós comeremos “pó do xixi” amanhã; mas a tecnologia pode inspirar métodos híbridos de produção alimentar sustentáveis no longo prazo
No fim, há algo quase poético em transformar aquilo que descartamos em sustento, especialmente quando estamos muito longe de casa. Em uma estação orbitando a Terra ou em uma futura base em Marte, cada ciclo fechado, cada grama reaproveitada, é um lembrete de que viver fora do planeta exige uma nova imaginação sobre o que é essencial e o que é possível.
Via Independent
