A Biblioteca do Futuro de Oslo continua reunindo livros secretos que você nunca vai ler

Por , em 16.12.2018

Como você se sentiria se soubesse que seu escritor ou escritora favorito escreveu um livro novo e que você nunca terá acesso a ele? Pois saiba que isso pode acontecer, caso você goste de um dos 100 escritores ativos mais importantes do mundo (e os que ainda serão nas próximas décadas).

Desde 2015, a cada ano um autor diferente deposita um trabalho exclusivo e secreto em uma caixa que o protegerá até 2114, quando as 100 obras serão vistas pela primeira vez e impressas em um papel muito especial.

Árvores estão em parque de Oslo

Mil árvores das espécies Picea abies, Betula pubescens e Pinus sylvestris foram plantadas em 2014 em uma floresta de Oslo (Noruega), a apenas 30 minutos caminhando da estação Frognerseteren. É com esta madeira que o papel dos livros será produzido.

Artista genial

Katie Paterson ajuda a plantar as mil mudas que vão virar papel para os livros

O projeto Biblioteca do Futuro não é apenas uma biblioteca à prestação, ele é uma obra de arte em vários sentidos. A artista por trás desta ideia é Katie Paterson, escocesa nascida em 1981 que já executou obras em parceria com cientistas e pesquisadores do mundo inteiro, como o streaming do som do derretimento de uma geleira.

A floresta onde as árvores estão virou um ponto turístico, que é também o local da Cerimônia da Entrega anual dos novos manuscritos. Os visitantes aproveitam para acompanhar o crescimento das mudinhas, que neste momento têm 30cm de altura. O local de armazenamento dos manuscritos também será aberto em exposição a partir de 2020.

Os manuscritos ficarão em caixas de vidro trancadas na nova biblioteca Deichman, que está sendo construída com a madeira das árvores que foram cortadas para abrir espaço para as mudas de pinheiros. Cada caixa contém o ano da entrega e o nome do autor, e ela é trancada com chaves convencionais, para evitar tecnologias digitais que podem ficar obsoletas.

O local onde eles ficarão se chama “Sala Silenciosa”, e foi projetada para ficar no segundo andar, protegida de eventuais inundações, já que o prédio fica em uma enseada.

Livros que nós não vamos ler


O que mais chama atenção neste projeto é que esses livros serão um presente para as próximas gerações. Quando a biblioteca estiver pronta e os livros forem publicados, um conjunto totalmente novo de pessoas estará habitando a Terra.

Os próprios autores dos livros dos anos inicias da biblioteca nunca verão a reação do público às suas obras.

“Isso é uma tentativa de criar algo para pessoas que ainda não nasceram. Estou acostumada a trabalhar com prazos, como qualquer outra pessoa, e para um artista ele geralmente é de três anos. Trabalhar com uma escala de tempo de 100 anos é algo realmente novo e nos força a pensar em detalhes como quais materiais devemos usar”, explicou Katie Paterson.

Outras questões que a preocupam é se as próximas gerações vão cuidar da floresta e seguir o projeto original, e se daqui a nove décadas ainda haverá máquinas e o conhecimento necessários para imprimir livros.

Os autores

Margaret Atwood foi a primeira escritora convidada. Crédito imagem: Mark Hill Photography

A primeira autora a entregar sua obra foi Margaret Atwood, a criadora d’O Conto da Aia, que originou a popular série de TV com mesmo nome. Seu novo livro foi chamado de “Lua rabiscadora”. A escritora canadense acredita que os leitores do próximo século vão precisar de um “paleo-antropólogo” para decodificar algumas partes, por conta da mudança natural da língua.

O segundo livro entregue, em 2016, foi “De mim flui o que você chama de tempo”, do escritor britânico David Mitchell. Ele contou que terminou o romance de 90 páginas logo antes da cerimônia, e deixou escapar que o livro inclui a letra da música “Here comes the sun”. Ele espera que daqui a 100 anos a letra desta música esteja sob domínio público, e que não seja necessário pagar royalties.

Em 2017 o escritor islandês Sjón, que trabalhou com Björk nas letras das músicas dela, entregou seu livro. Ele se chama “Enquanto minha testa encosta nas túnicas dos anjos ou na torre de queda, a montanha-russa ou as xícaras giratórias e outros instrumentos de adoração da era pós-industrial”.

O livro de 2018 foi entregue pela romancista e ativista turca Elif Shafak, e se chama “O último tabu”.

A próxima autora já foi selecionada: a romancista sul-coreana Han Kang. Ela vai entregar seu trabalho na próxima Cerimônia de Entrega, que está marcada para 25 de maio de 2019.

Até agora todos os escritores convidados abraçaram a ideia e cumpriram o desafio de entregar o livro em um ano. Pena que não estaremos mais aqui para conferir estes resultados.

Confira abaixo vídeo de Katie Paterson sobre o projeto:

[CNN, Future Library, BBC]

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