Civilizações complexas deram origem a “deuses moralizadores”, e não o contrário

Por , em 26.03.2019

O surgimento da civilização humana como a conhecemos hoje é resultado de diversos fatores. Uma teoria bastante aceita afirma que a religião é uma destas pedras fundamentais da civilização – mais exatamente a crença em deuses “grandes” ou moralizadores. Esta teoria supõe que as crenças religiosas foram fundamentais para o surgimento de sociedades humanas,  pois seria mais provável que as pessoas cooperassem de forma justa umas com as outras se acreditassem em deuses que as castigariam se não o fizessem.

10 possíveis evidências de que seres superiores existem

Uma equipe de pesquisa internacional decidiu pesquisar o papel destes “grandes deuses”, que puniriam transgressões éticas, no surgimento de sociedades complexas de larga escala. Ao contrário das teorias predominantes, a equipe descobriu que as crenças em grandes deuses são uma consequência, e não uma causa, da evolução de sociedades complexas.

“(A teoria dizia que) deuses moralizadores seriam necessários para o surgimento de sociedades de grande escala. Sociedades pequenas, de acordo com este argumento, seriam como aquários de peixes. Era quase impossível se envolver em comportamento anti-social sem ser pego e punido – seja por atos de violência coletiva, retaliação ou danos à reputação de longo prazo e risco de ostracismo. Mas à medida que as sociedades cresceram e as interações entre parentes estranhos se tornaram mais comuns, os possíveis transgressores poderiam esperar escapar da detecção sob o manto do anonimato. Para que a cooperação seja possível sob tais condições, seria necessário algum sistema de vigilância”, descrevem os autores em texto publicado no portal The Conversation.

Porém, ao usar um banco de dados gigante sobre a história das civilizações humanas, eles concluem que essa teoria não é verdadeira. “Analisamos dados de 414 sociedades de 30 regiões do mundo, usando 51 medidas de complexidade social e quatro medidas de aplicação sobrenatural de normas morais para chegar ao fundo da questão. Novas pesquisas que acabamos de publicar na revista Nature revelam que os deuses moralizadores vêm depois do que muitos pensavam, bem depois dos maiores aumentos na complexidade social da história mundial. Em outras palavras, os deuses que se importam se somos bons ou maus não impulsionaram a ascensão inicial das civilizações – mas vieram depois”, concluem..

Para realizar suas análises estatísticas, os pesquisadores usaram o Seshat: Global History Databank, a coleção mais abrangente e em constante crescimento de dados históricos e pré-históricos da humanidade. Atualmente, o Seshat contém cerca de 300.000 registros sobre complexidade social, religião e outras características de 500 sociedades do passado, abrangendo 10.000 anos de história humana.

Rituais de pertencimento

“Há séculos que se debate por que os humanos, ao contrário de outros animais, cooperam em grandes grupos de indivíduos geneticamente não relacionados”, afirma Peter Turchin, diretor e coautor da Seshat, professor da Universidade de Connecticut, nos EUA, e membro do Complexity Science Hub Vienna, em matéria publicada no site desta instituição científica. Fatores como agricultura, guerra ou religião têm sido propostos como principais forças motrizes deste comportamento. O novo estudo, porém, pode mudar este paradigma.

“Para nossa surpresa, nossos dados contradizem fortemente essa hipótese (dos deuses moralizadores). Em quase todas as regiões do mundo para as quais temos dados, os deuses moralizadores tendem a seguir, e não a preceder, o aumento da complexidade social”, sugere o autor principal do estudo, Harvey Whitehouse. Segundo ele, os rituais padronizados tendiam a aparecer centenas de anos antes dos deuses que se importavam com a moralidade humana.

Por que a religião ainda existe?

“Estamos agora olhando para outros fatores que podem ter impulsionado o surgimento da primeira grande civilização. Por exemplo, os dados da Seshat sugerem que os rituais coletivos diários ou semanais – o equivalente aos cultos dominicais de hoje ou às orações de sexta-feira – aparecem no início da complexidade social e estamos analisando o impacto deles”, dizem os pesquisadores no texto do The Conversation.

Estes rituais, sim, poderiam ter criado uma identidade coletiva e sentimentos de pertencimento que agem como uma cola social, fazendo com que as pessoas se comportem de forma mais cooperativa. “Nossos resultados sugerem que as identidades coletivas são mais importantes para facilitar a cooperação nas sociedades do que as crenças religiosas”, diz Whitehouse.

História quantificada

Até recentemente, era impossível distinguir entre causa e efeito nas teorias sociais e na história, já que faltavam dados quantitativos padronizados de toda a história do mundo. Para resolver este problema, o cientista social e de dados Peter Turchin, juntamente com Harvey Whitehouse e Pieter François, da Universidade de Oxford, fundaram a Seshat em 2011. O projeto multidisciplinar integra a experiência de historiadores, arqueólogos, antropólogos, cientistas sociais e cientistas de dados em um banco de dados de acesso aberto de última geração. Dezenas de especialistas em todo o mundo ajudaram a reunir dados detalhados sobre a complexidade social e crenças e práticas religiosas de centenas de unidades políticas independentes (“politéias”), começando com os Neolíticos Anatólios (civilização que existiu onde hoje é a Turquia) em 9600 aC.

A complexidade de uma sociedade pode ser estimada por características sociais como população, território e sofisticação de instituições governamentais e sistemas de informação. Dados religiosos incluem a presença de crenças na aplicação sobrenatural de reciprocidade, justiça e lealdade, e a frequência e padronização de rituais religiosos.

O fim da sua religião e a descoberta de vida alienígena

“O Seshat permite que os pesquisadores analisem centenas de variáveis ​​relacionadas à complexidade social, religião, guerra, agricultura e outras características da cultura e da sociedade humanas que variam ao longo do tempo e do espaço”, explica Pieter François. “Agora que o banco de dados está pronto para análise, estamos prontos para testar uma longa lista de teorias sobre a história humana.” Isso inclui teorias concorrentes de como e por que os humanos evoluíram para cooperar em sociedades de milhões e mais pessoas em larga escala.

“Seshat é uma colaboração sem precedentes entre antropólogos, historiadores, arqueólogos, matemáticos, cientistas da computação e cientistas evolucionistas. Isso mostra como o big data pode revolucionar o estudo da história humana”, diz Patrick Savage, um dos autores. [CSH, The Conversation]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (33 votos, média: 4,73 de 5)

Deixe seu comentário!